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Encontro debate solidariedade a Cuba e integração continental

27/05/2005 00:00

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São Paulo - A chuva torrencial que desabou sobre São Paulo na noite da quarta-feira (25) não demoveu as quase 400 pessoas que se dirigiram ao Memorial da América Latina para a solenidade de abertura da 13ª Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, promovida pela Associação Nossa América e diversas outras entidades (www.13cnsc.kit.net).

Plínio de Arruda Sampaio, um dos presentes à mesa de abertura, assim resumiu o evento: “Nós é que precisamos da solidariedade de Cuba, que manteve, nesses últimos oito difíceis anos, sua dignidade e a dignidade de seu povo, ao não baixar a cabeça diante do maior poder terrorista da História”.

O deputado petista Luís Eduardo Greenhalgh descreveu diversas iniciativas tomadas no Brasil em apoio à ilha caribenha e o embaixador do país no Brasil, Pedro Nuñes Mosquera lembrou da homenagem prestada ao Brasil na recente Feira do Livro de Havana. Vários oradores se referiram às batalhas travadas por Cuba no terreno dos direitos humanois, no âmbito da ONU e centraram suas palavras em denunciar a hesitação do governo dos EUA na entrega do terrorista cubano exilado em Miami, Luís Posada Carriles, à justiça venezuelana. Carriles, em 1976, planejou a derrubada de um avião cubano proveniente de Caracas, na qual pereceram 73 pessoas. 

O deputado cubano Oswaldo Martínez, também presente, exigiu a deportação de Carriles, assegurando não existirem terroristas bons ou terroristas maus. “O que existem são terroristas!”, exclamou, sob aplausos da platéia. 

Anos de crise e busca por alternativas
Martinez, 60, é hoje o mais expressivo economista cubano. Ex-ministro da Economia e Planejamento, foi um dos formuladores dos caminhos de superação do chamado Período Especial, vivido pelo país após a queda da URSS e do fim do auxílio econômico que este fato acarretou. Falta de água e luz por vários dias, colapso do abastecimento e total ausência de divisas levaram o País - e a Revolução - às portas da falência, no início dos anos 1990. A solução encontrada - o incremento do turismo e a diversificação econômica - trouxe, em um período relativamente curto, um novo fluxo de capitais à Ilha. 

Um pouco antes da abertura do evento, Oswaldo Martínez, que preside a Comissão de Assuntos Econômicos do Parlamento cubano, concedeu uma entrevista a Carta Maior e à TV da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Eis seus principais trechos.

A queda da URSS e o Período Especial
“Cuba vive hoje um momento muito interessante, depois da difícil situação do Período Especial. Começamos a sair dele agora. Vivemos anos muito difíceis, após a queda da União Soviética, em 1991. Até então, os efeitos do bloqueio econômicodos EUA eram atenuados pelas relações que mantínhamos em diversas áreas com os países do bloco socialista. De repente, Cuba ficou absolutamente só, numa situação em que a onda neoliberal impunha-se com toda força. Não tínhamos petróleo, nem créditos e havíamos perdido os mercados para nossos produtos, como açúcar, cobre e níquel. 

Foi um golpe tão profundo, que muitos duvidavam que Cuba resistisse. Eram os tempos da teoria do dominó e do fim da história e parecia impossível àquele nanico, a 90 milhas das costas estadunidenses, sobreviver. Mas 14 anos se passaram e a Revolução Cubana segue. Dizia-se que Cuba era um satélite soviético e que não passava de uma economia subsidiada. O suposto sol caiu, o que deveria ser um satélite continua existindo e a economia subsidiada se agüenta sem subsídio algum, numa situação de aperto do bloqueio econômico. Hoje a economia voltou a crescer, tendo passado por mudanças estruturais. Mantiveram-se as conquistas sociais nos âmbitos de saúde, educação, esportes e educação”. 

Medidas para superar as dificuldades
“Para enfrentar o Período Especial, nos ativamos a alguns princípios básicos. O primeiro deles: não aceitamos o ajuste neoliberal, que muitos nos aconselhavam. Poderíamos ter ajustado a economia nessas bases, mas aí desajustaríamos a Revolução e teríamos de abrir mão das conquistas sociais. De outra parte, também não podíamos manter a economia funcionando como antes, como se nada tivesse acontecido.

Tivemos de abrir alguns espaços de mercado, mantendo, contudo, a capacidade regulatória do Estado. Nosso planejamento econômico teve de ser mais flexível, dando uma certa autonomia às empresas. Na área agrícola, mudamos nossa estratégia de termos uma produção dependente da importação de máquinas e insumos, investindo no cooperativismo. Tivemos de apertar os cintos. Aqui, a perseverança da população foi decisiva, pois enfrentamos problemas de fornecimento de energia, abastecimento, transportes etc. Acho que estes tempos estão no fim e começamos a colher os frutos sem termos nos rendido à aplicação das políticas neoliberais”.

Mudança estrutural
“No início dos anos 1990, nadávamos contra a corrente. Hoje, a corrente mudou na América Latina, com a crise do neoliberalismo. Há uma busca de outros caminhos para nossos países. A mudança estrutural na economia cubana é visível. A antiga economia açucareira, dominante por quase cinco séculos, não mais existe. A produção canavieira é o quarto setor da economia. Ela é destinada ao consumo interno e a alguma exportação. Nossas economia hoje baseia-se no turismo, na produção de níquel, biotecnologia, medicamentos e serviços médicos. É uma estrutura muito mais sustentável do que a anterior”.

Turismo e petróleo
“Em 2004 visitaram Cuba dois milhões de turistas. Não há turismo proveniente dos EUA, pois a Casa Branca o proíbe. Recebemos gente da América Latina, da Europa e do Canadá, principalmente. Temos belas praias, história, uma população amistosa e uma situação de saúde e segurança pública invejáveis. Além do turismo, tivemos recentemente notícias promissoras. Descobrimos mais petróleo. No início dos anos 1990, Cuba produzia 5% do que consumia e comprávamos o resto no mercado internacional a preços muito altos. Só tivemos algum alívio com o tratado firmado com a Venezuela. Nosso problema é que quase toda a geração de eletricidade da Ilha é feita por termelétricas, movidas a petróleo. Hoje estamos próximos de produzir cerca da metade do que consumimos”.

A economia do dólar
“Começa também a melhorar a situação da população. Aumentamos o salário mínimo, as aposentadorias e eliminamos a circulação do dólar. Com o turismo, a penetração da moeda dos EUA criou uma economia paralela e tivemos, durante alguns anos, de aceitar uma paulatina dolarização da economia. Há pouco tempo, eliminamos o dólar com a criação do peso conversível. Acabamos com uma manobra do governo estadunidense, no terreno monetário, que poderia golpear Cuba. Assim, recuperamos a soberania monetária e revalorizamos o peso”.

A integração com a América Latina
“Há 10 anos, falar em integração de Cuba com a América Latina equivalia a pensar em algo distante. Durante anos, a proposta dominante foi a da Alca, a integração do continente aos Estados Unidos, na condição de apêndice subordinado. Ela encontrou muitas resistências. A data marcada para que entrasse em vigor era janeiro de 2005. A data passou e não há Alca no horizonte. Temos agora a proposta do presidente Hugo Chávez, da Alba, a Alternativa Bolivariana para as Américas, possível de ser concretizada, por uma certa unidade histórica, cultural e lingüística. Isso é positivo, pois precisamos pensar numa integração que não seja apenas comercial”.

O que é integrar?
“Durante muito tempo, integrar era sinônimo de comercializar. Na verdade, o que crescia era o comércio entre as filiais das transnacionais aqui instaladas, o que não correspondia a uma integração real. Temos de pensar na integração com um sentido solidário e vê-la como um processo de benefícios mútuos. Mas para que aconteça a integração, é necessário atacar velhos problemas sociais da maioria de nossos países, como o analfabetismo, a situação grave da saúde e da educação. Em suma, a integração pressupõe mudanças na América Latina. Elas já estão ocorrendo. Temos, entre nossos países, muito mais unidade do que em outras regiões do mundo, como a Europa, a Ásia ou a África. Nossa integração está mais próxima do que jamais esteve”.
Programa
A 13ª. Convenção nacional de solidariedade a Cuba prossegue até sábado. Eis a programação do evento:

25 de maio [quarta-feira]
Abertura
19h00: Auditório Simón Bolívar
Memorial da América Latina
Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda
[Atividade aberta, não é necessária inscrição]
- Pedro Nuñes Mosquera, Embaixador de Cuba no Brasil
- Julio Espinosa, coordenador da Comissão de Relações Internacionais da Assembléia Nacional do Poder Popular de Cuba
- José Estevez Hernandez, Diretor do ICAP para América Latina e Caribe
- Oscar Niemeyer, arquiteto
- Luiz Eduardo Greenhalg, presidente da Frente Parlamentar Brasil-Cuba do Congresso Nacional
- Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira pela Reforma Ágrária
- Representante da Coordenação Nacional de entidades de solidariedade a Cuba
- Representante do Comitê Paulista de Solidariedade a Cuba

Apresentação musical
Tiaraju Pablo y Mauricio
Carlinhos Antunes Quinteto, com os convidados Jessé e Jota
Erre (Recife-PE).
Kiki Corona (Cuba)

26 de maio [quinta-feira]
Inscrição para a XIII CNSC (R$ 10,00)
Local: saguão do Instituto Sedes Sapientiae
Horário: a partir das 10h
Pré-inscrição obrigatória pelo site

Início dos trabalhos
Local: Auditório do Instituto Sedes Sapientiae
Rua Ministro de Godói, 1484, Perdizes

14h Conquistas e desafios da sociedade cubana
- Osvaldo Martinez, ex-ministro de Finanças e Presidente da Comissão de Economia da Assembléia Nacional do Poder Popular de Cuba
-Indira Ivone Andres Gonzales, vice-presidente da FEU e deputada nacional
- Emir Sader, sociólogo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
- Clara Charf, campanha "Mil mulheres"

17h O império e suas novas ofensivas
- Julio Espinosa, presidente da Comissão de Relações Internacionais da Assembléia Nacional do Poder Popular de Cuba
- José Arbex Jr, editor-especial da revista Caros Amigos e editor-chefe do Jornal Brasil de Fato

19h A Prensa Latina em São Paulo
- Abel Sardiña, Editor da Prensa Latina Internacional

20h Lançamento de livros
- Maria Auxiliadora César. Mulher e política social em Cuba: O contraponto socialista ao bem-estar capitalista.
Nescuba / Neppos, 2005.
- Tirso W. Saenz. O ministro Che Guevara: testemunho de um colaborador. Garamond, 2004.


27 de maio [sexta-feira]
Local: Auditório do Instituto Sedes Sapientiae

9h Filme: A missão contra o terror

10h: Os 5 Heróis e a luta contra o terrorismo
- Adriana O’Connor, esposa de Gerardo Hernández, um dos 5 Heróis
- Max Altman, Coordenador do Comitê Paulista pela Libertação dos 5 Heróis
- Danilo D´Addio Chammas, advogado, membro da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos

11h30: Grupo de trabalho sobre ações contra o avanço do terror estadounidense

14h Modelo educacional cubano e sua projeção popular internacionalista
- Indira Ivone Andres Gonzales, vice-presidente da FEU e deputada nacional
- Adolfo Nunez Fernandez, representante do Ministério da Educação de Cuba no Brasil e vice-cônsul de Cuba em São Paulo
- Adelar Pizetta, membro do setor de educação do MST
- Rafael Enrique Ramos, Presidente do Instituto Nacional da Juventude da Venezuela

16h30 Nossa América: a integração latino-americana
- Osvaldo Martinez, ex-ministro de Finanças e Presidente da Comissão de Economia da Assembléia Nacional do Poder Popular de Cuba
- Samuel Moncada, Ministro da Educação Superior da Venezuela (a confirmar)
- João Pedro Stédile, economista, membro da direção nacional do MST e da Via Campesina Brasil
- Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário Geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (a confirmar)
- Gilberto Maringoni, autor do livro "A Venezuela que se inventa"

19h Homenagem aos 5 Heróis Cubanos prisioneiros do império
Cerimônia solene da Câmara Municipal de São Paulo para entrega das medalhas Anchieta
- Carlos Trejo Sosa, Cônsul Geral de Cuba em São Paulo
- Adriana O’ Connor, esposa de Gerardo Hernández
Iniciativa: Vereador Beto Custodio (PT) 

28 de maio [sábado]
Local: Auditório do Instituto Sedes Sapientiae
Rua Ministro Godói, 1484, Perdizes

9h Informes das entidades nacionais de solidariedade a Cuba

10h45 Grupos de trabalho
GT1: Batalha de idéias: opinião pública, grande mídia e o bloqueio de informações
GT2: Alternativas de integração latino-americana
e caribenha
GT3: A luta contra o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba
GT4: Ações bilaterais vinculadas à revolução educacional cubana
GT5: Encontro de pais de estudantes brasileiros
em Cuba

14h00 Intervenção teatral da Companhia do Latão

14h30 Plenária
Apresentação do resultado dos GTs
Votação da Resolução Final da XIII Convenção

18h Encerramento
- José Estévez Hernández, Diretor do ICAP para América Latina e Caribe
- Carlos Trejo Sosa, Cônsul Geral de Cuba em São Paulo
- Elza Ferreira Lobo, educadora e jornalista, coordenou o Fórum de entidades de solidariedade a Cuba de São Paulo

20h Festa de Encerramento
Local: Quadra da Escola de Samba Gaviões da Fiel Torcida - Rua Cristina Tomás, 183 (Bom Retiro)

Artistas convidados:
Bateria da Escola de Samba Gaviões da Fiel Torcida Tiaraju Pablo y Mauricio
Kiki Corona (Cuba)
UAFRO
Núcleo de Sambistas e Compositores do Cupinzeiro (a confirmar)
Teatro Popular União e Olho Vivo (a confirmar)



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