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Enorme desigualdade alimentou a violência na África do Sul. É um aviso para todos nós

 

20/07/2021 11:51

Loja saqueada em Soweto, Joanesburgo (Siphiwe Sibeko/Reuters)

Créditos da foto: Loja saqueada em Soweto, Joanesburgo (Siphiwe Sibeko/Reuters)

 
“Desta vez parece qualitativamente diferente”. Poucas pessoas que conheço na África do Sul pensam diferente disso em relação à carnificina que agora toma a nação. A violência foi institucionalizada na era do apartheid. Nos anos pós-apartheid, ela nunca esteve longe da superfície – violência policial, de gangues, de protestos. Entretanto, o que está sendo exposto agora é o quanto erodiu o contrato social que mantinha a nação unida desde o fim do regime de segregação racial.

Muitos aspectos da desordem são peculiares à África do Sul. Existem também temas com ressonância mais ampla. Eventos no país demonstram de forma particularmente aguda um fenômeno que temos testemunhado de diferentes formas e graus de severidade em todo o mundo: a antiga ordem se rompendo, com poucas coisas conseguindo preencher o vazio além de movimentos sectários ou políticas identitárias.

A causa imediata da violência foi a sentença de 15 meses de prisão imposta ao ex-presidente Jacob Zuma por sua recusa em testemunhar numa investigação sobre corrupção. Entretanto, o protesto no bastião de Zuma, em KwaZulu-Natal, se transformou em algo maior e mais ameaçador. Uma combinação de pessoas desesperadas pela fome e a miséria, gangues tentando lucrar com o caos e ativistas políticos ajustando contas provocou uma desordem sem paralelo no país. A corrupção pode ter enredado Zuma, mas ela não está confinada a ele. Num país onde a política é definida pelo patrocínio do estado, a corrupção é uma característica central. Ela tem permitido que uma pequena classe média negra se una ao time dos já ricos brancos. E, junto com políticas sociais e econômicas que beneficiam os ricos, ela ajudou a criar a mais desigual sociedade do mundo.

Mais da metade da população vive na pobreza, 25% na extrema pobreza. O desemprego afeta mais de 32% dos trabalhadores. Entre os jovens, três em cada quatro estão desempregados.

E tudo foi exacerbado pelo Covid, por isolamentos devastadores e pela incompetência governamental. No ano passado, o dinheiro havia acabado no mês anterior para comprar comida para quase 65% das famílias e quase uma em cinco sofreu fome semanal. E isso antes de o governo suspender um auxílio emergencial, que fará com que o desespero seja ainda maior.

E então temos a violência policial. No ano 2019/20, houve 629 mortos pelas mãos da polícia e 216 denúncias de tortura. Os policiais sul-africanos matam proporcionalmente duas vezes mais do que seus colegas estadunidenses. Ainda, enquanto a atenção global se volta, corretamente, para a matança pela polícia de afro americanos, a muita mais feroz violência policial na África do Sul tem atraído muito menos interesse – mesmo internamente no país. Vidas negras normalmente importam menos, mas algumas vidas negras parecem importar ainda menos que outras.

Para a população negra da África do Sul, desesperança e ódio emergem da sensação de que tudo mudou, mas tudo continua quase igual. Acabou o apartheid. Os negros podem votar. Entretanto, para muitos o país, em termos materiais, avançou muito pouco. O apartheid tinha um impacto desumanizador nas comunidades, mas ele servia para forjar laços sociais e canalizar a raiva para o movimento de libertação. O efeito desumanizador das políticas pós-apartheid tem servido apenas para esgarçar o tecido social.

À medida que o fracasso no combate à pobreza mina o apoio ao CNA, o partido tem respondido incentivando o divisionismo, levando as pessoas a voltarem seu ódio umas para as outras. Tem havido ondas de violência dirigidas contra trabalhadores estrangeiros, muitas delas alimentadas por políticos. Muitos também têm explorado divisões entre categorias de pessoas definidas pelo apartheid, como “negros”, “mestiços” e “indianos”.

A população negra é a vítima maior da desigualdade: 64% dos negros vivem na pobreza, comparado com o 1% dos brancos. Ainda assim, a desigualdade é uma questão de classe, não de raça: as divisões maiores existem hoje dentro da população negra. Como observou o Banco Mundial em um estudo sobre a desigualdade, “seu aumento dentro da população negra e asiática” tem “impedido qualquer declínio na desigualdade geral”. Num processo político construído sobre sectarismo e divisão étnica e racial, se trata de uma narrativa que poucos políticos querem adotar.

Mesmo movimentos radicais que clamam falar pelas massas, como os Combatentes pela Liberdade Econômica, ainda caracterizam a questão como um conflito racial entre negros e brancos. Em resposta à violência, surgiram organizações locais para ajudar a limpar a sujeira, distribuir comida e remédios, proteger a comunidade. Otimistas veem isso como a semente de um novo tipo de política. Pessimistas temem que elas serão engolidas pelo mesmo sectarismo que molda muito da política.

O que está ocorrendo é uma tragédia para o povo da África do Sul. Mas é também um aviso para todos nós.

Kenan Malik é um colunista do Observer

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Traduzido por Carlos Alberto Pavam

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