Pelo Mundo

Enquanto a eleição se aproxima, Trump constrói o 'deep state' que tanto criticava

A Casa Branca manipulou a inteligência dos EUA sobre interferências russa e chinesa; ação pode competir com o fiasco das armas de destruição em massa que levaram à guerra do Iraque

15/09/2020 15:42

Donald Trump ouve o secretário de segurança interna Chad Wolf, que supostamente bloqueou um aviso sobre os esforços russos para questionar a saúde mental de Joe Biden (Carlos Barría/Reuters)

Créditos da foto: Donald Trump ouve o secretário de segurança interna Chad Wolf, que supostamente bloqueou um aviso sobre os esforços russos para questionar a saúde mental de Joe Biden (Carlos Barría/Reuters)

 
Dois meses antes da eleição presidencial, agências de inteligência dos EUA estão sob crescente pressão da administração Trump para fornecer somente informações que eles querem ouvir.

Depois de colocar o leal John Ratcliffe no ápice da comunidade de inteligência, a administração está buscando limitar a supervisão congressional, e removeu um oficial veterano de uma posição sensível de segurança nacional no departamento de justiça.

Um ex-oficial de inteligência sugeriu que Donald Trump está buscando criar justamente o que ele repetidamente criticou: um “estado dentro do estado” (“deep state”). Outro oficial comparou a situação com o fiasco da inteligência que antecedeu a invasão ao Iraque em 2003.

O foco intenso do confronto atual é o papel secreto da Rússia na campanha eleitoral. A comunidade de Inteligência avaliou que Moscou está desempenhando papel ativo, como fez em 2016, para prejudicar Joe Biden e impulsionar Trump, em grande parte por meio da disseminação de desinformação. Mas oficiais da administração tentaram parar discussões públicas sobre tal interferência.

A ABC News reportou recentemente que um assistente do secretário de segurança interna, Chad Wolf, bloqueou um boletim em julho que alertava sobre esforços russos para criar dúvidas sobre a saúde mental de Joe Biden.

Ratcliffe, o novo diretor de inteligência nacional (DNI), informou ao Congresso recentemente que sua secretaria não forneceria mais briefings pessoalmente sobre segurança eleitoral, mas que, ao invés, iria entregar relatórios escritos que não poderiam ser acareados por legisladores céticos.

Ele justificou sua ação acusando o Congresso de vazar material confidencial, mas não explicou por que o mesmo risco não pode se aplicar aos relatórios escritos. John McLaughlin, ex-vice-diretor da CIA, disse que o medo de vazamentos não deveria superar a necessidade de transparência.

“Honestamente, tendo passado diversas informações para o Congresso muitas vezes, é possível falar sobre assuntos sensíveis sem fornecer fontes e métodos”, disse McLaughlin ao Guardian.

“Na minha visão, o eleitor estadunidense precisa saber tudo o que puder ser revelado sobre esse assunto. Precisam saber se alguém está tentando influenciar seu voto ou manipulá-los.”

O antecessor de Ratcliffe no DNI, Richard Grenell, outra figura altamente partidária, procurou consolidar a responsabilidade pela segurança eleitoral nesse departamento, tomando o assunto das mãos de profissionais da inteligência.

E, recentemente, emergiu que o advogado geral, William Barr, removeu abruptamente um oficial veterano em comando da secretaria de lei e política na divisão de segurança nacional do departamento de justiça.

O oficial, Brad Wiegmann, era um profissional de carreira amplamente respeitado, parte do seu trabalho era aconselhar sobre divulgação de evidências sobre interferências eleitorais. Ele foi substituído por um promotor muito mais novo, Kellen Dwyer, um especialista conservador de ciber-segurança com uma experiência limitada em segurança nacional.

Katrina Mulligan, ex-oficial de segurança nacional que ajudou a esboçar a política que soa o alerta de interferência na secretaria de lei e política, disse: “continua sendo o único meio pelo qual o departamento de justiça consegue divulgar interferências estrangeiras na ausência de acusações criminais”.

“Como você pode imaginar, quando o assunto é interferência estrangeira talvez existam coisas acontecendo que o público deve saber, e nós não queremos esperar para abrir um processo somente quando tivermos todas as coisas em ordem, antes de divulgar para o público”, argumentou Mulligan.

A China é realmente a maior intrometida?

Enquanto mais vozes sobre o assunto têm sido silenciadas, oficiais de Trump vêm disseminando uma mensagem diferente sobre interferência eleitoral – que é a China, não a Rússia, a maior intrometida.

“Simplesmente não é verdade que de alguma forma a Rússia é uma ameaça à segurança nacional maior do que a China”, disse Ratcliffe à Fox News. “A China é a maior ameaça que enfrentamos.”

Recentemente, Barr ratificou a afirmação. “Eu acredito que é a China, porque eu vi os relatórios de inteligência, foi a essa conclusão que chegamos”, ele disse à CNN.

Ele não disse quem a China estava apoiando, mas não precisou. No início de agosto, William Evanina, diretor do Centro Nacional de Segurança e Contrainteligência, divulgou uma declaração que dizia que a Rússia e a China estavam apoiando lados diferentes na eleição.

“A Rússia está usando uma gama de medidas para prejudicar o ex-vice-presidente Biden”, disse Evanina, adicionando: “Nós avaliamos que a China prefere que o presidente Trump – quem Pequim vê como imprevisível – não ganhe a reeleição.”

Ele concedeu detalhes de ações concretas que Moscou estava tomando para prejudicar Biden, mas foi mais vago sobre Pequim, dizendo que estava “expandindo sua influência para novembro de 2020 para moldar o cenário político” para “desviar e contra-atacar as críticas vindas da China”.

Democratas e profissionais da inteligência reclamaram que está sendo feita uma falsa equivalência entre as duas ameaças quando a questão é a interferência eleitoral direta.

“A evidência documentada sobre a Rússia é enorme e a evidência documentada – ao menos em público – sobre a China é minúscula”, disse McLaughlin.

John Sipher, veterano da CIA que já conduziu as operações da agência sobre a Rússia, argumentou em um comentário ao NYT recentemente que o padrão das ações da administração Trump “evidencia justamente o que Trump costumava a se referir com indignação para seus seguidores – a formação de um aparato de segurança nacional politizado que pode servir como arma pessoal para o presidente. Um ‘estado dentro de um estado’ (‘deep state’).”

David Rohde, jornalista e autor de um livro publicado no início do ano sobre o assunto – “In Deep: The FBI, the CIA, and the Truth about America’s ‘Deep State’” – concordou com a avaliação de Sipher.

“Se um ‘deep state’ é um grupo de oficiais que secretamente exerce o poder governamental com pouca responsabilidade ou transparência, Trump e seus lealistas cada vez mais se encaixam nessa definição”, disse Rohde. “Sob o pretexto de evitar um ‘golpe’ que não existe, Trump está politizando a comunidade de inteligência e o departamento de justiça e usando-os para estimular seus esforços para reeleição.”

A batalha pela inteligência vai se intensificar conforme a eleição se aproxima. Barr escolheu um promotor, John Durham, para investigar o FBI e investigadores especiais que averiguaram a interferência russa na eleição de 2016. O advogado geral disse que não seguiria protocolos normais e que não esperaria até depois da eleição para publicar os achados de Durham, ou ao menos uma versão desses achados, com o provável objetivo de criar a impressão de que Trump era a vítima de uma conspiração para prejudicar sua presidência.

“A investigação Durham apresenta a oportunidade para figuras ruins fazerem muitas maldades, mas a falta de clareza torna difícil para os observadores criticarem”, disse Susan Hennessey, ex-advogada da Agência Nacional de Segurança.

Ela adicionou que a tática de Trump em manipular a inteligência dos EUA representava uma ameaça histórica, potencialmente ofuscando o fiasco que levou à invasão do Iraque em 2003.

“O que estamos vendo agora é, em alguns aspectos, até pior do que as falhas de inteligência em relação às armas de destruição em massa”, disse Hennessey, agora parceira sênior do Brookings Institution e editora executiva do blog Lawfare. “O Iraque foi obviamente consequencial e ilustra o porquê é imperativo se proteger contra até mesmo influências políticas sutis nos relatórios de inteligência. Mas a politização aqui é descarada e explicitamente partidária em sua essência.”

“São todas essas pequenas coisas e, por isso, é frequentemente difícil delimitar o local preciso onde os limites foram ultrapassados”, ela adicionou. “Muitos limites foram ultrapassados. À essa altura, não é que há um risco de politização da inteligência no cenário cumulativo onde nos encontramos, mas sim que já cruzamos o limite final.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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