Pelo Mundo

Entendendo a "Guerra de Longa Duração" dos EUA

26/05/2009 00:00

O conceito de “Guerra de Longa Duração” é atribuído ao ex-comandante da CENTCOM [United States Central Command], General John Abizaid, num discurso em 2004. O líder da contra-insurgência no Iraque, combatente veterano e agora encarregado do Centro por uma Nova Segurança Americana[Center for a New American Security] escreveu que “há um entendimento crescente de que os conflitos mais prováveis dos próximos cinquenta anos serão de conflitos irregulares num “Arco de Instabilidade” que abrange o Oriente Médio e partes da África e da Ásia Central e Sul”. O Relatório Quadrienal de Defesa (2005) do Pentágono atribui uma maior ênfase à luta contra o terrorismo e às insurgências nesse “arco de instabilidade”. O Centro para o Progresso Americano repete essa formulação, argumentando por um aumento das tropas e pela permanência por dez anos no Afeganistão, dizendo que a “infraestrutura da jihad” deve ser destruída “no centro do 'arco de instabilidade' ao longo do Sul e do Centro da Ásia e no grande Oriente Médio”.

As implicações dessa doutrina são assombrosas. A própria noção de guerra de 50 anos supõe o consenso do povo estadunidense, que ainda tem de ficar sabendo do plano, pelas próximas seis eleições nacionais. O peso da carga de 50 anos surpreenderá e consternará muita gente do movimento antiguerra. A maioria dos estadunidenses vivos hoje estará morta antes que a guerra de 50 anos tenha fim, se tiver. Os mais novos, nascidos hoje, terão atingido a meia-idade. Gerações ainda não-nascidas arcarão com o peso dos impostos ou lutarão e morrerão nessa “guerra irregular”.

Há uma chance, é claro, de se evitar a Longa Guerra. Ela pode ser um produto insustentável do excesso de autoconfiança imperial. A opinião pública pode se encher com o atoleiro de uma guerra e com seus custos – mas só se houver um comprometimento de 50 anos do movimento pacifista.

Desde essa perspectiva, o Iraque é apenas um front imediato, com o Afeganistão e o Paquistão sendo fronts expandidos, numa única guerra maior, do Oriente Médio para o Sul da Ásia. No lugar de pensar no Iraque como o Vietnã, uma guerra que definitivamente acabou, é melhor pensar no Iraque como um atraso ou um impasse num campo de batalha mais amplo, onde a vitória ou a derrota são dolorosamente duras para definir, ao longo de um intervalo de tempo de cinco décadas.

Eu proponho começar com o exame das doutrinas militares que deram origem às noções de Guerra de Longa Duração. O movimento pacifista frequentemente adota o ditado bíblico “não estudar mais a guerra”, mas neste caso pode ser útil nos tornarmos estudantes de estratégias e táticas militares. (Aqueles que estiverem interessados em se tornar estudantes da teoria da Guerra de Longa Duração podem consultar a bibliografia no fim deste ensaio).

1. A Nova Contra-Insurgência é um Retorno às Guerras contra os Índios
No artigo “A Nova Contra-Insurgência”, que publiquei em 24 de setembro de 2007 em The Nation, eu escrevi que o plano de Petraeus para o Iraque era tão velho como o nosso plano das longas guerras contra os índios. Essa tese foi confirmada nos textos do neoconservador Robert Kaplan, no seu artigo de 21 de setembro de 2004, no Wall Street Journal, “Nação de Índios” [Indian Country].

Kaplan é obsecado com a desagregação anárquica das sociedades de bases tribais no mundo pós-colonial, e enfatiza a necessidade de pequenas guerras, “fora das câmeras”, por assim dizer. Kaplan endossa a opinião de um oficial dos EUA, segundo a qual “você pretende prender os caras do mal discretamente e encobrir seus ataques com projetos de ajuda humanitária”. A comparação que Kaplan faz entre a atual Guerra de Longa Duração e nossa guerra contra os índios é que os “inimigos” são nações tribais altamente descentralizadas que tiveram de ser derrotadas numa campanha atrás da outra. Ele sabe que a guerra convencional contra os índios das Grandes Planícies e das tribos do oeste foi uma estratégia insustentável e que os povos nativos foram esmagados pela logística abundante dos colonos brancos e pela tecnologia superior, como as estradas de ferro.

2. A Estrutura da Estratégia Militar: a Longa Guerra de 50 anos
Assim como as guerras contra os índios, vencer a Guerra de Longa Duração requer angariar vantagens nos postos mais profundos dessas sociedades tribais, nos aspectos de religião, etnicidade, raça e geografia. Os esforços de muitos líderes indígenas para formar uma confederação efetiva contra a expansão dos EUA nunca deram certo. Por outro lado, as estratégias do exército norte-americano de pagar tribos para implementar “sistemas de segurança” que iriam manter informados e combater outras tribos foi bem-sucedido. A principal estratégia das Guerras de Longa Duração é atrair um grupo étnico ou tribal para combater seus rivais, em benefício do ocupante estrangeiro. Nagl previu, acuradamente, que “vencer a vontade do povo iraquiano de se voltarem para seus vizinhos terroristas marcará o ponto de virada na derrota da insurgência”.

A contra-insurgência é apresentada ao público como uma forma mais civilizada, e mesmo intelectual, de guerra, dirigida pelos profissionais da Liga Ivy, com uma ênfase específica nos direitos humanos, na persuasão política e na proteção dos inocentes. Todo civil insultado pela derrubada de uma porta, quer dizer, é causa perdida, então se cria um motivo militar para serem respeitosos com as populações locais. O novo manual do exército dos fuzileiros é cheio de sugestões desse tipo.

Porém, esses tratamentos dos “corações e mentes” subestimam o que o vice-presidente Dick Cheney chamou de uso “do lado obscuro” [dark side]. Antes de voltarem para a sua vizinhança, para usar a imagem de Nagl, o exército de ocupação deve ser visto como derrotando essas “vizinhanças”, matando e ferindo os supostos insurgentes em número significativo; enfraquecendo ou destruindo a infraestrutura nas suas cidades, e criando um êxodo de refugiados (no Vietnã isso ficou conhecido como “urbanização forçada”, um termo do tardio professor de Harvard, Samuel Huntington). Enquanto isso, a população considerada “amistosa” é firmemente resguardada, no que costumam ser chamado de hamlets estratégicos e, no Iraque, tornaram-se conhecidos como “comunidades porta de entrada”: por trás dos arames farpados, muros malditos e torres de observação, e com todos sujeitos a controle de câmeras. As linhas entre o inimigo, o amigo e o neutro, nesse contexto, são fluídas o suficiente para garantir que muita gente será alvo descuidadamente, como simpatizantes “incorrigíveis” com os insurgentes. Traçar perfis e cercar pessoas que “tenham o tipo” leva aos campos de prisioneiros indivíduos fichados sem qualquer evidência aproveitável contra eles. Como disse um militante talibã ao New York Times, talvez ultra-confidencialmente:

“Eu conheço o experimento de Petraeus lá. Mas conhecemos os nossos afegãos. Eles vão pegar o dinheiro do Petraeus, mas não estarão do seu lado. Há muita gente trabalhando com os afegãos e os estadunidenses que estão na sua folha de pagamento, mas eles nos informam, vendendo-nos armas.” (5 de maio de 2009)

A verdade é que a guerra convencional travada pelas tropas estadunidenses contra as nações muçulmanas é politicamente impossível, por duas razões que sugerem uma fraqueza inerente. Em primeiro lugar, a população local se inflama contra estrangeiros, criando melhores condições para a insurgência. Em segundo, os estadunidenses são céticos a respeito de guerra no solo envolvendo baixas imensas, custos e possivelmente o recrutamento militar. A contra-insurgência se torna o rompimento da opção militar do ocupante que não é bem-vindo. A contra-insurgência tem baixa visibilidade de necessidade, dependendo da dissimulação psicológica e da guerra de informações, tanto no exterior como em casa.

3. O que aconteceu no "Dark Side" no Iraque
No Iraque, o lado obscuro foi envolvido primeiro no biênio 2003-2004, sob o patrocínio dos EUA, nas rondas e nas torturas, só vazadas para a opinião pública e para a mídia por um sentinela estadunidense em Abu Ghraib.

Além disso, algo como 50 000 jovens iraquianos, a maioria sunita, foi posta em condições extremas nos centros de detenção ao longo do país (alguns deles agora estão sendo libertados depois do pacto negociado entre Bagdá e Washington). Então, houve as matanças extrajudiciais não-reportadas e ultra secretas, descritas assombrosamente por Bob Woodward no seu “A Guerra por Dentro” [The War Within], que foram tão efetivas que supostamente deram “orgasmos” ao principal assessor do General Petraeus, Derek Harvey. Woodward escreve que essas matanças nas quais o Pentágono era o juiz, o juri e o executor, baseadas pesadamente em informantes locais, foram “muito provavelmente o maior fator de redução” da violência iraquiana em 2007. É provável que estivesse acontecendo uma versão revivida dos esquadrões da morte na versão de um “Programa Global Phoenix”, como advogou o assessor de contra-insurgência do General Petraeus, David Kilcullen, no Small Wars Journal (30 de novembro de 2004). Jane Mayer, em The Dark Side, confirma que o [Programa] Phoenix se tornou um modelo depois do 11 de Setembro, a despeito do fato de que os historiadores militares chamem-no de assassinato em massa sancionado pelo estado, e da clara evidência de que 97% das suas vítimas Vietcongs eram de “importância insignificante”.

É ainda muitíssimo mais conhecido que o General Petraeus reduziu a insurgência sunita quando contratou uns 100 000 sunitas, a maioria ex-insurgentes, para protegerem as comunidades deles e para combaterem a Al Qaeda no Iraque. Isso estava de acordo com a estratégia de outro assessor próximo do General Petraeus, Steven Biddle, em 2006:

“Usar os interesses das forças xiitas e curdas treinadas e financiadas pelos EUA para compelir os sunitas à mesa de negociações a fim de que também os xiitas e curdos negociem poderia levar ou a um levante, prematuramente, um movimento que conduziria o país à desordem ou de volta ao sunitas” (Foreign Affairs, Março-Abril 2006).

Agora, esses assim chamados “Filhos do Iraque”, antes conhecidos como “Kit Carson Scouts” estão cada vez mais frustrados com a recusa do governo al-Maliki, bancado pelos EUA, de integrá-los na estrutura estatal, pagando-lhes salários decentes. Não está claro o que o futuro guarda para o Iraque quando as tropas norte-americanas começarem a retirada. Alguns quadros militares, talvez inclusive o General Raymond Odierno, estão sabidamente insatisfeitos com o ritmo da retirada, e negociam com o governo do Iraque um atraso no prazo de seis meses para reposicionar as tropas americanas para acampamentos fora das cidades iraquianas. Parece que nem a guerra convencional (2003-2006) nem a contra-insurgência (2006-2009) resolveram o problema fundamental da pacificação do nacionalismo insurgente, mobilizado pela própria invasão de 2003.

No Iraque, a estratégia dos EUA foi a de acelerar o relógio iraquiano enquanto reduzia a velocidade do americano, como Petraeus gostava de dizer. Isso significava a aceleração de um compromisso político entre xiitas, sunitas e curdos, seguindo a linha do Relatório Baker-Hamilton de 2007, enquanto se esfriava a impaciência do eleitorado estadunidense com promessas de que a paz estava bem próxima das eleições de 2008. Foi por volta desse período que o Centro para uma Nova Segurança da América [Center for a New American Security, em inglês] - CNA se formou, com defensores democratas da segurança nacional profundamente preocupados com a possibilidade de que o eleitorado pudesse decidir terminar a guerra “prematuramente”.

Uma peça importante no CNA foi Michelle Flournoy, que foi indicada pelos veteranos do Pentágono para a equipe de transição de Obama e agora serve como Sub-Secretária de Defesa. Contrariamente a muitas perspectivas no movimento antiguerra e no Partido Democrata, a operação de Petraeus em 2007-2008 foi bem sucedida na sua missão política de reduzir bruscamente as baixas, tanto norte-americanas como iraquianas. Contudo, a operação militar dos EUA incluiu a onda de terror extrajudicial em massa, sobre a qual Woodward escreveu, assim como o pagamento a dezenas de milhares de sunitas para não atirarem nas tropas americanas. Nenhuma dessas coisas pode ser levada em conta para estabilizar o Iraque no longo prazo.

No final de 2008 a administração Bush foi forçada a aceitar o que o governo al-Maliki descreveu como “pacto de retirada”, de acordo com o qual os EUA iriam retirar gradualmente suas tropas no máximo até 2011. À medida que as forças dos EUA não “venceram” a guerra militarmente, há pouca evidência de que o Iraque irá se tornar um modelo estável pró-ocidente que alguns buscam para a sua Guerra de Longa Duração. Mesmo que uma outra insurgência ou guerra civil seja evitada, o Iraque estará alinhando aos interesses regionais do Irã por algum tempo no próximo período. O presidente Obama estará sob forte pressão dos oficiais das Forças Armadas dos EUA no Iraque e dos seus aliados, como os neoconservadores em Washington, para retardar sua prometida retirada, ou será acusado de “perder” o Iraque.

As forças de segurança do Iraque consistem agora de 600 000 soldados, incluindo 340 000 membros de uma organização xiita maior, frequentemente descrita como sectária ou incompetente. Atualmente os EUA continuam a enfrentar o dilema descrito por James Fallows em 2005:

“A necessidade crucial de aumentar a segurança e a ordem no Iraque põe os EUA numa posição impossível. Não pode deixar honrosamente o Iraque – em oposição à simples evacuação no estilo Saygon – enquanto seus militares tiverem de providenciar força humana, armas, sistemas de inteligência e estratégicas usadas contra a insurgência. Mas não pode, de uma perspectiva sensata, permanecer, quando a mera presença de suas tropas é um fator de irritação crescente do público iraquiano e um ponto de convergência para os oponentes nacionalistas – para não falar da crescente pressão dentro dos EUA pela retirada”.

4. A Guerra de Longa Duração se move do Iraque para o Afeganistão e o Paquistão
As mesmas estratégias de contra-insurgência estão sendo transferidas para o Afeganistão e o Paquistão, com as tropas batendo o nível de 70 000, fazendo com que a totalidade das forças ocidentais alcancem níveis cada vez mais próximos do declínio total no Iraque. No Afeganistão, as forças estadunidenses expandidas vão se concentrar na destruição dos campos de papoula e nas cidades dominadas pelos talibãs no sul de Kandahar e nas províncias Helmund, uma estratégia de privação de recursos que vem das guerras contras os índios. Muitos americanos estão na expectativa de serem mortos ou feridos nesse esforço para assegurar e manipular a população rural contra o Talibã. Muitos talibãs provavelmente serão mortos entre os civis locais, enquanto seus dirigentes militares se retiram para se reposicionarem em outro lugar.

A prisão Bagram está sendo maciçamente estendida, ao passo que as ordens do presidente Obama para as instalações de detenção de Guantánamo não se aplicam. Bagram agora conta com aproximadamente 600 prisioneiros que, diferentemente daqueles de Guantánamo, têm “quase nenhum direito”, inclusive o de acesso a advogados. “Militantes dos direitos humanos e jornalistas são estritamente proibidos lá”, de acordo com a reportagem de 28 de janeiro de 2009 do Der Spiegel International.

De acordo com o relatório da RAND, usando os dados do Banco Mundial, o Afeganistão ocupa talvez a posição mais baixa no ranking dos sistemas de justiça no mundo. “Em comparação com outros países na região – como o Irã, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão, Turcomenistão e Urbequistão – o sistema judicial afegão mostrou-se como um dos menos efetivos”. Bagram é apenas uma das muitas instalações de detenção em todo o país; o Talibã “libertou” mais de 1000 presidiários, inclusive 400 dos seus quadros militares, da prisão de Kandahar agora no ano passado.

A teoria da contra-insurgência, baseada na experiência britânica na Malásia, requer um período de dez a vinte anos para impor sofrimento suficiente e exaustão que forcem a população a aceitar os termos de paz do poder dominante. Esse é precisamente o calendário apresentado por Kilcullen perante o Senador John Kerry na Comissão das Forças Armadas do Senado em 5 de fevereiro:

“[Levará] dez a quinze anos, inclusive mais dois anos de combates significativos no front...trinta mil soldados a mais no Afeganistão custarão algo como 2 bilhões de dólares por mês, além dos aproximadamente 20 bilhões que já foram gastos; esforços adicionais em governo e desenvolvimento custarão ainda mais....[mas] se falharmos na estabilização do Afeganistão neste ano, não haverá futuro.”

Kilcullen e outros apoiam o plano atual de expandir o total das forças de segurança do Afeganistão de 80 000 para um total de 400 000, custando 20 bilhões de dólares ao longo de seis ou sete anos.

No Paquistão, onde a tortura e o abuso extrajudicial também são prevalentes, os EUA gastaram 12 bilhões de dólares, ao longo da última década, numa ditadura de [Musharraf], um décimo do que foi gasto nos projetos de desenvolvimento. Essas políticas só aprofundam o anti-americanismo das nações muçulmanas, alienam a oposição de classe média e deixam os pobres infestados na pobreza. Além desses problemas auto-impostos, o Pentágono está engajado num esforço frenético e crescente para mudar a doutrina de estratégia militar do Paquistão, da preparação para uma outra convencional (ou mesmo nuclear) guerra contra a Índia à guerra de contra-insurgência contra o Talibã escondido no seio de sua própria população do país, especialmente nas áreas extremamente empobrecidas da fronteira com o Afeganistão.

A probabilidade de que os EUA convençam o Paquistão a enxergar a ameaça doméstica como maior do que aquela que vem da Índia é duvidosa. O Paquistão lutou três guerras contra a Índia, e vê os EUA como aliado da expansão dos interesses da Índia no Afeganistão, onde o exército do Paquistão tem apoiado o Talibã como aliado contra a Índia. As forças da Aliança do Norte dos Tajiks, Hazaras e Uzbeks foram fortemente apoiadas pela Índia em 2001 contra os aliados paquistaneses do Talibã, e a queda de Cabul para a Aliança do Norte foi uma “catástrofe” para o Paquistão, de acordo com Juan Cole. Desde 2001, a Índia enviou centenas de milhões em assistência ao Afeganistão, inclusive fundos para os candidatos políticos afegãos em 2004, assistência a parlamentares com assento, Consulado Indiano em Jalalabad, Heart e Kandahar, e projetos de construção de rodovias, de acordo com o governo indiano, para ajudar às forças armadas do país a “encontrarem suas necessidades estratégicas”.

Pesquisas mostram que uma vasta maioria de paquistaneses vêem os EUA e a Índia como ameças muitíssimo maiores do que o Talibã, a despeito da impopularidade do Talibã com boa parte da população paquistanesa. Enquanto for improvável que o Talibã chegue ao poder no Paquistão, pode ser impossível para quem quer que seja impedir o controle pelo Talibã das áreas tribais e de uma crescente base dentre as tribos Pashtun (28 milhões no Afeganistão, 12 milhões no Paquistão).

As opções que restam começam a fazer com que os EUA pareçam Gulliver amarrado dentre os Lilliputianos.

Os EUA vão solicitar que as forças armadas paquistanesas combatam o Talibã, cujos militares estadunidenses introduziram no Paquistão. O Paquistão vai pedir bilhões de dólares em ajuda aos EUA, sem dar garantias de que mudarão seus dispositivos de segurança de acordo com a vontade de Washington. Os EUA deixarão claro que irão às últimas consequências para evitar um cenário no qual o arsenal nuclear do Paquistão caia nas mãos do Talibã. Ninguém do lado dos EUA admite que esse desastre em espiral foi provocado pelas políticas dos EUA ao longo da última década.

5. O Atoleiro de Crises
Em suma, o “arco de crises” está se tornando um “atoleiro de crises”. A atual estratégia militar dos EUA no Paquistão é uma mistura contraditória de guerra aérea de aviões não-tripulados [“Predators”] combinada com forças especiais estadunidenses tentando organizar uma guerra tribal em busca da Al Qaeda. As políticas dos EUA já levaram a Al Qaeda para fora do Afeganistão, em parte com apoio do exército paquistanês. Como resultado, tanto os militantes da Al Qaeda como os do Talibã montaram acampamento nas áreas tribais mais remotas e selvagens do Paquistão. Até agora os EUA orçaram 450 milhões de dólares para a base tribal “Frontier Corps” na região de fronteira. Essa estratégia não apenas fracassou em evitar que o Talibã tenha o controle virtual da região tribal, como os esforços que mataram centenas de civis provocaram um aprofundamento da oposição pública, e levaram a insurgência talibã para o leste, no Paquistão.

Os EUA enfrentam uma crise militar que a secretária Hillar Clinton chamou recentemente de “uma ameaça mortal” à segurança americana; a possibilidade de que o Talibã ou a Al Qaeda acessem o arsenal nuclear paquistanês, na hipótese de que a situação venha a se deteriorar mais adiante. Isso gerará uma intensa campanha política para “fazer alguma coisa” a respeito da verdadeira ameaça que as políticas dos EUA criaram.

Os EUA e a OTAN dificilmente invadirão o Afeganistão, que tem 32 milhões de pessoas espalhadas em 250 milhas quadradas a mais do que o Iraque. O Paquistão, com 172 milhões de pessoas vivendo em mais de 310 000 milhas quadradas, simplesmente não pode ser invadido. Mas, numa crise, é concebível que conselheiros americanos e mesmo tropas terrestres possam ser enviados para ocupar 10 000 milhas quadradas no lado paquistanês da fronteira. Isso pode resultar numa revolução anti-americana nas ruas do Paquistão.

Então, o que a contra-insurgência obteve até agora? Na melhor das hipóteses, um beco sem saída no Iraque, depois de seis anos de combate, além de uma década brutal de sanções. Não muito no Afeganistão, onde a guerra convencional empurrou a Al Qaeda para a fronteira com o Paquistão. Não muito no Paquistão, onde o exército paquistanês é resistente a mudar seu foco principal da Índia.

O plano de guerra de Kilcullen para o Afeganistão cobre de dez a doze anos, começando em 2009. A guerra no front paquistanês está só começando, o que significa que a administração Obama está administrando três guerras no interior da Guerra de Longa Duração, sem levar em conta as batalhas campais como a das Filipinas ou o que pode acontecer no Irã, China e outros lugares de conflito ao longo do Arco de Instabilidade. Hpa gente na comunidade de inteligência que iria inclusive gostar de expandir a ameaça “terrorista” a imigrantes e rotas de drogas pela América Central e na América Latina.

Mesmo que o Presidente Obama deseje levar a cabo uma estratégia de recuo dos “lamentos do império”[Sorrows of Impire], ele vai se deparar com a pressão significativa do complexo militar-industrial, e com a falta de um público informado. O caminho de menor resistência, pode parecer a Obama no curto prazo, é incrementar o envio (mandando 20 000 estadunidenses a mais), enquanto encaminha passo a passo a busca por uma emenda diplomática. Mas aumentar o envio de tropas pode parecer mais um drink para um alcoolista, e mesmo que essa estratégia requeira um passo atrás na doutrina da Guerra de Longa Duração. Os “falcões” do American Enterprise Institute e seus aliados, como John Mc Cain e Joe Lieberman estão pressionando pela vitória no lugar de salvar as aparências diplomáticas.

As motivações profundas dessa crise certamente envolvem a questão americana e ocidental do petróleo, as desigualdades históricas entre o Norte e o Sul globais, o Ocidente e o mundo muçulmano. Mas é importante enfatizar a dimensão da estratégia militar, particularmente a visão estratégica diretriz da guerra de cinquenta anos. Agora, a Guerra de Longa Duração tem impulso por conta própria. O impacto da Guerra de Longa Duração sobre outras prioridades americanas, como a saúde e as liberdades civis é provavelmente devastador. À medida que muitos estadunidenses, especialmente os militantes dos movimentos de paz e justiça estiverem atentos às questões domésticas e às questões gerais da paz e da guerra, é importante começar se concentrando no grande déficit do entendimento popular de que a Guerra de Longa Duração já está aqui, erguendo-se sobre a dinâmica da anterior guerra fria e da nomenclatura da era Bush relativa à “guerra contra o terror”.

Continua...: Pensamentos sobre o Movimento Pacifista de Longa Duração.

Bibliografia e Leituras

Os velhos clássicos. Para quem tem muito tempo eu recomendaria Sun Tzu e Carl Von Clausewitz, para uma introdução a doutrinas opostas, ainda estudadas intensamente.

Para o clássico Ocidente dominando o Mundo Árabe, T.E.Laurence: “The Seven Pillars of Wisdom”.

Os clássicos recentes incluem:Che Guevara e Mao Tse-Tung. No lado Ocidental, sugiro os textos “Defeating Communist Insurgency”, de Sir Robert Thompson; Low Insurgency Operations, de Frank Kitson; Counterinsurgency Warfare, de David Galula; The War of the Flea, de Robert Taber e o lento mas brilhante estudo da Algéria de Alistair Horne, A Savage War of Peace.

Para trabalhos de importância imediata: John Nagl, Learning to Eat Soup with a Knife (a frase vem de Lawrence); e David Petraeus, Nagl et al, The US Army/Marine Corps Counterinsurgency Field Manual (em colaboração com o Centro Caar de Harvard). Um brilhante contraponto a esses trabalhos é William R. Polk Violent Politics (ver também o seu Sorrows of Empir – [Lamentos do Império]).

Livros importantes sobre a Al Qaeda e o Islã, ver The Devil's Game [O jogo do diabo], de Robert Dreyfuss, Al Qaeda, de Jason Burke, Marching to Hell, de Michael Scheuer; Messages to the World: The Statements of Osama Bin Laden, de Bruce Lawrence, ed. E The Taliban, de Ahmed Rashid.

Outros livros decisivos incluem Ressurrecting Empire e Sowing Crisis, de Rashid Khalidi; Engaging the Muslim World, de Juan Cole; Insurgency and Counterinsurgency in Iraq, de Ahmed Hashim; Good Muslim, Bad Muslim, de Mamood Mamdani; The Duel, de Tariq Ali, e Descent into Chaos, de Rashid Khalid.

Para seguir as discussões dentre os estrategistas de segurança dos EUA, vá ao blog www.smallwarsjournal.com ou ao Center for American Progress: www.centerprogress.org

(*) Ex-senador e membro do Nation Institute's Carey McWilliams, desempenhou um papel ativo na política estadunidense e na história, ao longo de três décadas, começando como estudante, militante dos direitos civis e ativista antiguerra nos anos 60.

“Tom Hayden mudou a América”, escreveu Nicholas Lemann, correspondente nacional para o The Atlantic, a respeito do papel de Hayden nos anos 60. Richard Goodwin, autor dos discursos de John Kennedy e Lyndon Johnson, disse que Hayden “mesmo sem saber, inspirou a alta sociedade”. Hayden foi eleito para a legislatura estadual da Califórnia em 1982, onde atuou por dez anos na Assembléia antes de ser eleito para o Senado, em 1992, onde atuou por oito anos.

Tem sido descrito como “a consciência do Senado” pelo colunista Dan Walters do Sacramento Bee, e como “o rebelde liberal”, por George Skelton, do Los Angeles Times. “Ele imprimiu uma marca ao papel de cão de guarda”, de acordo com o San Francisco Chronicle.

É autor de onze livros, incluindo sua autobiografia, Reunion; um livro sobre espiritualidade e meio ambiente, Lost Gospel of the Earth [O Evangelho Perdido da Terra]; Uma coleção de ensaios a respeito da fome dos irlandeses, Irish Hunger (Roberts Rhinehart) e um livro sobre sua herança irlandesa, Irish on the Inside: In Search of the Soul of Irish America (Verso); Radical Nomad, uma biografia de C.Wright Inside (Paradigm Publishers); e, mais recentemente, Ending the War in Iraque (2007). Uma coletânea do seu trabalho, Writings for a Democratic Society: The Tom Hayden Reader, foi publicada neste ano.

Este artigo foi publicado em The Nation em 7 de maio de 2009


Tradução: Katarina Peixoto


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