Pelo Mundo

Entre o sim e o não, Grécia tira a máscara do neoliberalismo cruel da Troika

Com bancos fechados, controle de capital e democracia ameaçada, o mundo aguarda a decisão do povo grego em referendo convocado pelo governo.

30/06/2015 00:00

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Créditos da foto: common dreams

Segundo observadores, o discurso feito pelo presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker em Bruxelas na segunda-feira teria aumentado dramaticamente a tensão sobre o referendo na Grécia marcado para o próximo domingo – votação que poderá resultar na saída do país da zona do euro.
 
Com a reação dos mercados financeiros globais ao anúncio, feito no domingo, de que os bancos e a bolsa de valores gregos estariam fechados esta semana, e com a imposição de controles de capital, a crise na Grécia, ou 'Grisis’, atinge agora seu ápice. Além disso, a população do país financeiramente devastado foi convidada a escolher entre "sim" ou "não", se aceitam ou rejeitam o acordo que continua a impor a política de austeridade em troca de novo de aporte de dinheiro e crédito estendido apresentado pela Troika – como se chama a trinca Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu.
 
Recomendando aos eleitores gregos a votar "sim" e aceitar a proposta da Troika, o jornalista do The Guardian Graeme Wearden classificou a fala de Junker como um discurso “de cair o queixo" por suas implicações. Wearden argumenta que “o medo da morte não deveria levar o povo grego a cometer suicídio”, e diz que Juncker “disse ao povo grego que, no domingo, este estará escolhendo entre o euro e a porta de saída, que o governo mentiu para eles, e que ele (Junker) tem sido seu verdadeiro amigo e aliado na mesa das negociações".
 
Na segunda-feira, o Governo liderado pelo Syriza anunciou que o transporte público seria gratuito esta semana, para suavizar o peso da situação econômica e que alguns bancos ofereceriam acesso exclusivo aos aposentados, que do contrário poderiam enfrentar dificuldades em acessar suas economias.
 
Na noite de domingo, o primeiro-ministro Alexis Tsipras fez um discurso na TV sobre os últimos acontecimentos – incluindo a decisão de fechar os bancos para restringir os saques – e disse: "quanto mais calma tivermos para enfrentar as dificuldades, mais cedo vamos vencê-las”.
 
A mensagem de Tsipras vai no sentido oposto ao discurso feito por Juncker na segunda-feira, e o Partido Syriza deixou claro que se opõe aos termos do acordo apresentado pela Troika, e vai exortar a população a dizer "não" à proposta.
 
O que aconteceu no fim de semana, de acordo com o colunista do New York Times e Nobel de Economia Paul Krugman, foi um "Corleone às avessas" – em referência ao filme O poderoso chefão – em que a Troika fez uma oferta que o governo Syriza "não poderia aceitar”. “Os comissários da Troika provavelmente fizeram isso de propósito", afirmou Krugman, para pressionar ostensivamente o governo de esquerda. Exceto o aspecto econômico da proposta, explicou Krugman, "o ultimato foi, na verdade, um movimento para derrubar o governo grego. E, mesmo para quem não gosta do Syriza, isto é perturbador para quem acredita nos ideais europeus".
 
Nick Dearden, diretor-executivo da Global Justice Now, com sede no Reino Unido, criticou violentamente o comportamento da Troika, especificamente a recusa em permitir uma pequena extensão do programa de liquidez bancária que precedeu o referendo do próximo domingo.
 
"As políticas intransigentes e desumanas da União Europeia agora ameaçam provocar uma crise mundial”, disse Dearden ao CommonDreams. "A UE e o FMI parecem obcecados em punir impiedosamente a Grécia por se atrever a se opor às condições da dívida, manifestamente abusivas e injustas, e que estão causando enorme sofrimento. Recusar-se a aceitar um pequeno adiamento para a realização do referendo é colocar a aplicação brutal de um capitalismo sem freios acima da democracia e das necessidades da população”.
 
Com manifestações em toda a Europa pela anulação da dívida grega, continuou Dearden, a recusa em tratar o povo grego com dignidade é simplesmente imperdoável. "Esta imposição violenta da austeridade na Grécia vai manchar de mais sangue ainda as mãos da classe financeira da UE", disse.
 
Como escreveu o ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis no Twitter, no fim de semana, o principal agora é assegurar que o povo da Grécia – aqueles que já se sacrificaram demais no altar da austeridade imposta e que serão os mais impactados pela aceitação ou rejeição do acordo – possa participar da decisão. Em seguida ao anúncio do referendo, ele afirmou, também no Twitter:
 
“A democracia merecia um impulso nos assuntos referentes à Europa. Acabamos de dá-lo. Deixemos o povo decidir. (Engraçado como este conceito soa radical!)”.
 
Mais tarde, em um post em seu blog, Varoufakis descreveu o que aconteceu no sábado, na reunião da Comissão Europeia:
 
A reunião do Eurogrupo de 27 de junho de 2015 não será um momento de orgulho na história da Europa. Os Ministros rejeitaram o pedido do governo grego para que o povo grego tenha direito a uma única semana para responder “sim” ou “não” às propostas das instituições – propostas cruciais para o futuro da Grécia na zona do euro. A própria ideia de que um governo consultaria o povo sobre uma proposta problemática apresentada pelas instituições foi tratada com incompreensão e muitas vezes com desdém, beirando o desprezo. Chegaram a me perguntar: "Como você espera que pessoas comuns compreendam questões tão complexas?". De fato, a democracia não teve um bom dia na reunião do Eurogrupo ontem! Nem as instituições europeias. Após a rejeição ao nosso pedido, o Presidente do Eurogrupo rompeu a convenção da unanimidade (emitindo um comunicado sem o meu consentimento) e tomou a decisão questionável de convocar uma reunião de acompanhamento sem o ministro grego, supostamente para discutir os "próximos passos".
 
Democracia e união monetária podem coexistir? Ou uma delas deve capitular? Esta é a pergunta fundamental que o Eurogrupo respondeu ao colocar a democracia na lista de tarefas impossíveis. Não para nós, esperamos.
 
Com a subida das tensões e o temor de um pânico financeiro, no entanto, não são apenas os dirigentes do Syriza que afirmam que os eleitores gregos estariam certos em rejeitar a continuação da austeridade imposta pela Troika, mesmo se for preciso deixar a moeda única da zona euro.
 
Em sua coluna no NY Times, na segunda-feira, Krugman deu três razões para a Grécia votar "não" ao acordo:
 
Em primeiro lugar, sabemos agora que uma austeridade cada vez mais rígida é um beco sem saída: depois de cinco anos, a Grécia está pior do que nunca. Em segundo lugar, muito do tão temido caos que representaria a saída da zona do euro já aconteceu. Com bancos fechados e controle de capital, não há muitos outros danos possíveis.
 
Finalmente, aceitar o ultimato da Troika representaria o abandono definitivo de qualquer pretensão de independência grega. Não se deixem levar por alegações de que os representantes da Troika são apenas tecnocratas explicando aos gregos ignorantes o que deve ser feito. Estes supostos tecnocratas têm se mostrado delirantes, ignorando tudo o que conhecemos de macroeconomia, e têm se provado repetidamente equivocados. Não se trata de análise, mas de poder – o poder dos credores de desligar os aparelhos que manteriam viva a economia grega, um poder que vai durar enquanto a saída do euro for considerada impensável.
 
Então é hora de tornar esta possibilidade pensável. Caso contrário, a Grécia enfrentará uma austeridade e uma depressão sem fim.
 
Costas Panayotakis, professor associado de sociologia na City University of New York, fez a mesma argumentação na segunda-feira. "Desde sua eleição, em janeiro, o Governo grego, na tentativa de chegar a um acordo, tem feito muitas concessões à agenda de austeridade da zona do euro", explicou. "O fato de os parceiros europeus da Grécia, no decurso das negociações, terem sempre pedido mais, sugere que eles talvez não desejassem de fato um acordo, mas esmagar o único governo europeu com a audácia de criticar abertamente o consenso neoliberal. A resposta europeia ao anúncio de um referendo também expõe a antiga aversão das elites econômicas e políticas europeias aos processos democráticos que permitem ao povo europeu ter voz quanto ao futuro do projeto europeu”.
 
Enquanto isso, o correspondente do The Guardian Jon Henley conversou com alguns dos gregos mais afetados pelos muitos anos de ruína financeira. Como Henley relata:
 
Após sete anos de uma crise que deixou 26% da força de trabalho da Grécia sem emprego, 30% da população abaixo da linha de pobreza, 17% sem meios de fazer três refeições por dia, e 3,1 milhões de pessoas sem acesso ao sistema de saúde, é difícil ver como qualquer decisão tomada em Bruxelas ou Atenas na próxima semana poderá mudar de fato a vida de um grande número de gregos num futuro próximo.
 
“Quem já estava na margem foi empurrado para bem longe do sistema, e quem estava no meio foi empurrado para as margens", disse Ioanna Pertsinidou, do Praksis, uma instituição de caridade que acolhe pessoas vulneráveis %u20B%u20Be oferece assistência jurídica e auxilia na busca de emprego.
 
"Tantas pessoas – comuns, de renda média a baixa, que tinham empregos, casas e vidas organizadas – perderam tudo rapidamente", disse Pertsinidou. "Pessoas que nunca imaginariam que um dia não poderiam pagar a conta de luz ou alimentar seus filhos”.


Tradução de Clarisse Meireles



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