Pelo Mundo

Escândalo da Lava Jato mostra que o novo jornalismo deve ir muito além das palavras

 

11/06/2019 18:43

 

 
Um novo mega vazamento sacudiu o ambiente neste fim de semana. Trata-se de um “arquivo enorme, com muitíssimos documentos”, segundo o descrito pelo editorial do The Intercept, sítio que o publicou. Nada menos, que a documentação interna das conversas entre juízes e procuradores da Operação Lava Jato, na qual parecem mostrar que Deltan Dallagnol, o procurador que levou Lula aos tribunais, duvidava da fortaleza de suas provas, e que o então juiz Sérgio Moro, hoje ministro de Justiça, orientava o procurador sobre como deveria apresentar as acusações. A fonte é anônima.

O vazamento é uma bomba, e por vários motivos. Para começar, pelo momento político que o Brasil vive. O presidente que fez campanha com a prisão de Lula, e que premiou o responsável por ela com um ministério, se encontra hoje em franca queda de popularidade. Também há de se considerar a atual situação legal de Lula. Conforme avança o enfraquecimento do governo, seu ministro emblema e sua imagem de guerreiros contra a corrução, também vai se tornando evidente a fragilidade das provas apresentadas pelos procuradores, assim como o seu caráter político.

O caso começa a ruir, de tal forma que o Supremo Tribunal Federal reduziu a pena do ex-presidente, e a vice Procuradora Geral da República, Aurea Nogueira, pediu que Lula complete sua sentença sob regime de liberdade vigiada. O Supremo brasileiro sempre esteve dividido com respeito à prisão de Lula, e a solicitação da subprocuradora é de caráter urgente, o que poderia indicar que haveria uma dúvida sobre se a maioria estaria contra o ex-presidente preso. Além disso, está a questão do apoio internacional que o caso de Lula vem acumulando a nível mundial, o que inclui declarações de estrelas de rock (como Roger Waters), de poderosos sindicatos (como os Teamsters, dos Estados Unidos), ganhadores do Prêmios Nobel (como o argentino Adolfo Pérez Esquivel), ex-chefes de Estado (como o mexicano Cuauthémoc Cárdenas) e intelectuais (como Noam Chomsky). Em outras palavras, o mega vazamento se coloca dentro de um contexto de desgaste do governo, falta de provas contundentes, além d apoio popular e internacional para o prisioneiro.

Contudo, também é importante saber quem publica os documentos. Afinal, em um universo cheio de notícias falsas e documentos inventados, a reputação por trás da assinatura fazem com que uma história, ou uma gravação, um chat ou uma mensagem sejam ou não convincentes e possam viralizar entre milhões de pessoas. Para isso, é preciso ter muito cuidado com o que se publica, qual é o interesse público que justifica a informação e como o material é apresentado, para que possa ser facilmente entendido, sem distorções.

Neste caso, se trata do site dirigido pelo conhecido jornalista estadunidense Glenn Greenwald, que mora no Rio de Janeiro. Ele foi quem publicou, no diário britânico The Guardian, as revelações do ex-espião Edward Snowden sobre a vigilância massiva dos Estados Unidos sobre seus cidadãos e seus aliados através da interceptação de ligações e do tráfico de internet. Daí, certamente, sai o seu nome The Intercept. O sítio inclui outros jornalistas conhecidos, como Laura Poitras e o ex-repórter do The New York Times, James Risen.

Quem o financia é um magnata do Vale do Silício, Pierre Omydyar, fundador do eBay. E para que o dono do eBay quer ajudar um sítio de mega vazamentos? Justamente para que o Pentágono e as agências de espionagem não se metam com ele. Ao menos isso é o que se deduz a partir do timing da criação do seu meio: exatamente quando Julian Assange, Edward Snowden e outros começaram a denunciar como as agências de inteligência públicas e privadas haviam infiltrado a indústria de alta tecnologia para encher suas redes de espionagem massiva e indiscriminada. A questão agora é que tanto a equipe de procuradores da Lava Jato quanto o ministro Moro tiveram que reconhecer, em respectivos comunicados, que os documentos são verdadeiros – embora, segundo Moro, as informações teriam sido “obtidas ilegalmente”, e “não revelam nenhum delito ou irregularidade”.

Então há uma história a partir de um mega vazamento. Um fortíssimo golpe contra a investigação judicial que mantém preso um líder popular. Uma bomba de consequências ainda imprevisíveis dentro de um contexto político fluído e um processo judicial mutante. Um meio de comunicação com uma nova forma de contar – através de vazamentos – é o encarregado de dar a notícia, como fez o WikiLeaks, ao publicar o Cablegate, e o consórcio ICIJ, quando divulgou os Panamá Papers.

Não é uma casualidade. O jornalismo de hoje, e do futuro, passa por aí. O jornalismo sério, o que questiona, o que interpela, o que sacode o status quo e desafia o poder, passa pelas novas formas de contar, por uma busca pela verdade, pela justiça e pelo bem comum, que vai além da lógica comercial, para renovar o contrato com o leitor sobre o que se pode e ou que se deve contar. Muito além das palavras.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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