Pelo Mundo

Espanha: O rompimento dos Anticapitalistas com o Podemos

 

21/05/2020 19:24

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Comunicado de imprensa dos Anticapitalistas

Em 28 de março de 2020, terminou um processo interno de votação, no qual membros dos Anticapitalistas decidiram abandonar o Podemos. A taxa de participação dos membros foi de 79%; entre eles, 89% votaram a favor [da proposta de abandono], 3% contra e 7,5% se abstiveram. Decidimos esperar até hoje [14 de maio] para tornar pública essa decisão: nossa prioridade tem sido dar toda a atenção necessária à pandemia de Covid-19, que está atingindo fortemente o país e afetando fundamentalmente setores mais vulneráveis das classes populares.

Fomos cofundadores dessa organização (Podemos), e sua constituição foi uma experiência coletiva cheia de interesse e sempre fará parte de nossa história, assim como da do Podemos. Para todos e todas, são conhecidos os objetivos que nos levaram a participar da fundação desta organização. Era necessário formar um sujeito político amplo e radicalmente democrático, fortemente ligado a lutas e movimentos sociais, capaz de desafiar o poder econômico, cultural e político das elites e de reverter os efeitos de um neoliberalismo agressivo e descontrolado. . Com o objetivo, é claro, de pensar e construir uma alternativa política global ao capitalismo ecocida e patriarcal.

Acreditamos que esses objetivos ainda são válidos, mas agora o Podemos deixou de ser o espaço a partir do qual os Anticapitalistas podem contribuir. Muitas vezes expusemos nossas posições e as confrontamos fraternalmente com as outras correntes da esquerda. Infelizmente, o Podemos não é hoje a organização que aspirávamos construir desde o início: o modelo organizacional e o regime interno baseados na centralização de poderes e decisões restritas a um pequeno grupo de pessoas relacionadas a funções públicas e o secretário geral deixa pouco espaço para o trabalho coletivo pluralista. Certamente, este é um modelo que não provou ser eficaz no avanço no campo social: a organização militante e a força de baixo que o Podemos possuía com o tempo foram diluídas, desorganizadas e tornaram-se voláteis, sem que isso se traduzisse, de acordo com a justificativa que os líderes alegaram, por uma melhoria nos resultados eleitorais.

Por outro lado, o Podemos nasceu como um movimento político contra os padrões econômicos e políticos do sistema. É óbvio que sua estratégia mudou. Para o Podemos, o "possível" foi gradualmente reduzido ao longo dos anos: em nossa opinião, resta a tarefa de tornar possível o necessário.

O ponto culminante desse desvio é a estratégia de cogovernança com o PSOE. Mais uma vez, um projeto de esquerda está subordinado a curto prazo à lógica do mal menor, concordando em abandonar suas políticas em troca de pouca ou nenhuma influência decisiva no Conselho de Ministros. Apesar da propaganda do governo, as políticas de coalizão não rompem com a estrutura econômica ortodoxa, não apostam na redistribuição da riqueza, no fortalecimento radical da esfera pública e na desobediência face as instituições neoliberais. Obviamente, apoiaremos todos os ganhos que sejam obtidos nesse contexto e lutaremos juntos contra a extrema direita.

Mas, em um contexto de profunda crise sistêmica, acreditamos que uma aposta para avançar em democracia e justiça social passa necessariamente pela construção de uma força social, políticas ambiciosas e a preparação para o confronto com as elites.

Os meses e anos vindouros serão palco de grandes batalhas entre as classes. A crise atual não é temporária: é uma crise sistêmica, econômica, ecológica e de saúde pública. Isso envolverá grandes realinhamentos políticos, culturais e sociais. Não é certo que qualquer de nossas crenças atuais permaneça inalterada. Nosso compromisso de construir um movimento anticapitalista aberto a todos os tipos de lutas e experiências nos permite olhar para o futuro de maneira aberta. Assim, não há dúvida de que nos encontraremos em muitas lutas comuns com as "pessoas do Podemos".

Assim que a situação social e de saúde permitir, organizaremos uma conferência política dos Anticapitalistas, a fim de discutir em profundidade nossas propostas para a nova etapa.

*Publicado originalmente em 'A l'encontre' | Tradução de César Locatelli



Conteúdo Relacionado