Pelo Mundo

Espanha: mais de esquerda que de direita

 

29/04/2019 16:47

 

 

Acabou-se a futurologia das últimas semanas, vieram os números concretos, e agora é tempo de analisar os votos. A leitura do resultado eleitoral na Espanha requer atenção a muitos matizes:

1. Algo que já se analisava, mas agora é definitivo: o bipartidismo acabou. A Espanha passou da velha disputa entre somente duas forças – o PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha) e o PP (Partido Popular) – a ter ao menos 5 com dimensão nacional. As duas legendas mais antigas juntas obtiveram 46% dos votos (e 53,7% do Congresso), muito menos do que se viu em 2008, quando reuniram 85,25% dos votos e 92,3% das vagas.

2. Morre o bipartidismo mas não se acaba a dicotomia ideológica entre esquerda e direita. Sem contar os partidos regionais e nacionalistas, a soma das três direitas (PP, Cidadãos e Vox) é de 42,8%, e não supera a suma do progressismo (PSOE e Unidas Podemos) que teve 42,99%, nem em votos nem em deputados.

3. O PSOE volta a ser a primeira força política e dá um novo ar a uma socialdemocracia muito golpeada na Europa. Em número de vagas conquistas, os socialistas quase duplicam o segundo partido mais votado. Cresceram muito em número de votos (aumento de 6%) e de deputados (mais 38). Tirou proveito da moção de censura contra o ex-presidente Mariano Rajoy e, em dez meses de governo, mostrou o seu lado mais progressista, e isso sempre é valorizado por seu eleitorado potencial. O normal seria que Sánchez seja o próximo presidente.

4. O PP viveu uma tragédia que compromete o seu futuro como partido alfa da direita. Com pouco mais de 200 mil votos a mais que o Cidadãos (partido que vem em ascensão), sua própria continuidade está comprometida. Revalidou apenas metade dos votos obtidos em 2016, passando de 33% na eleição anterior para 16,6% na atual. Ademais, se equivocaram ao pretender roubar o discurso da ultradireita, se esquecendo que, em eleições, sempre é melhor ser o original, nunca a cópia.

5. O discurso duro e programático, de uma direita “sem complexos”, foi representado pelo Vox, que tirou mais de dois milhões e meio de votos que costumavam ser do PP, ficando com pouco mais de 10%. O partido chega ao parlamento com 24 representantes. Eles são o que são: os restos do franquismo sociológico, que ainda perduram na sociedade espanhola. Porém, tampouco se deve exagerar o seu significado, porque representam a 1 de cada 10 espanhóis.

6. O partido Cidadãos se saiu bem desta disputa eleitoral, sendo a terceira força em número de votos (15,85%) e de deputados (57), ficando muito perto do segundo (PP). A legenda vem tendo sucesso em sua estratégia de se situar como uma direita renovada, liberal e mais moderna, além de claramente espanholista. Com seu crescimento, está cada dia está mais próxima de disputar a hegemonia dentro da direita.

7. O Unidas Podemos resiste. É verdade que perdeu pouco mais de 320 mil votos e algumas cadeiras no Congresso, deixando para trás o entusiasmante resultado de 2016. Sofre uma forte penalização pela lei eleitoral espanhola. Mesmo assim, no jogo das expectativas, o partido sai melhor do que o esperado segundo as pesquisas, e desta vez pode fazer com que “menos seja mais”, caso confirme ser a força decisiva para conformar o governo com o PSOE.

8. A plurinacionalidade é uma realidade que não se pode ignorar. As forças nacionalistas catalãs e bascas saíram muito reforçadas eleitoralmente.

Tudo parece indicar que haverá algo de estabilidade na política espanhola. Será difícil, inclusive para o poderoso establishment político-midiático espanhol, evitar um governo parecido ao de Portugal, com um PSOE que terá que contar com o Unidas Podemos e com alianças pontuais com as forças autonomistas. Agora, se abre um longo ciclo de negociação, no qual o PSOE conta com a mão que tem as melhores cartas. Porém, na política, como no pôquer, isso nem sempre é suficiente.

*Publicado em ladiaria.com.uy | Tradução de Victor Farinelli

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