Pelo Mundo

Espanha precisa de um referendo sobre a monarquia

 

13/08/2020 13:50

Saída real (Ilustração de Malagón)

Créditos da foto: Saída real (Ilustração de Malagón)

 
A decisão de Juan Carlos de Borbón, ainda rei emérito da Espanha, de fugir do país, com o apoio do rei vigente Felipe VI, devido às revelações sobre seu comportamento corrupto, contou com uma grande cumplicidade da mídia hegemônica, mas ainda assim, evidencia a enorme decadência da monarquia espanhola nos dias de hoje.

Tal situação deveria configurar a última etapa desse modelo, de forma a trazer o peso das consequências não somente aos escândalos criminais graves atribuídas ao ex-monarca mas também à inaceitável cumplicidade do atual rei, por mais que seja seu filho.

Ao sair escondido do país, em direção à República Dominicana, Juan Carlos optou por agir como um fugitivo vulgar, um criminoso que confessa sua culpa e busca refúgio da lei, como um trambiqueiro qualquer, mas a cumplicidade do seu sucessor ao escape fazem com que a coroa espanhola continue atrelada a esse lamentável estratagema.

Todas as declarações da Casa Real nos últimos dias são um monumento à hipocrisia, um ataque ao decoro e à dignidade que deveriam reger o comportamento daquele que é ex-Chefe de Estado e do que é o atual ocupante desse cargo, em um país democrático. Juan Carlos evita referir-se à natureza dos “acontecimentos” que geraram “repercussões públicas”, e que todos conhecem: há denúncias de suborno, fraude fiscal e lavagem de dinheiro. As vagas reações posteriores do rei Felipe VI, prometendo respeito ao sistema jurídico, não garantem que seu pai esteja disposto a enfrentar as investigações judiciais em curso na Espanha e na Suíça.

Entre os fatos sob investigação estão a arrecadação de 100 milhões de dólares do rei da Arábia Saudita, que, suspeita-se, foram o pagamento de uma propina relacionada ao superfaturamento da construção de uma ferrovia entre as cidades de Medina a Meca. Há provas testemunhais e documentais de que houve crime de suborno envolvendo a obra.

A utilização de parte desse dinheiro, trazido para a Espanha mediante lavagem de dinheiro em offshores, constitui crime de fraude fiscal. Além disso, essas operações foram realizadas não por um mega empresário ou um doleiro qualquer, e sim pelo homem que simboliza a monarquia espanhola.

Grande parte dessa soma multimilionária foi entregue à sua amante, Corinna Larsen, por meio de fundações obscuras, criadas para coletar esses ativos ilícitos. Em uma delas, o atual rei da Espanha, Felipe VI, aparece como o segundo beneficiário dos recursos. Em outra, as filhas do atual rei são as beneficiárias. Os atos que a Casa Real chama de “acontecimentos passados %u20B%u20Be da vida privada” do rei emérito não terminam por aqui. Ele também recebeu, da embaixada de Omã, uma luxuosa casa em Londres avaliada em 62 milhões de euros, também como pagamento de propina.

As responsabilidades do ex-monarca em todos esses ilícitos não podem ser ignoradas. As suspeitas também recaem sobre seu herdeiro, o atual monarca Felipe VI. Aparentemente, foi informado em 5 de março de 2019 que seu pai o havia nomeado como segundo beneficiário da Fundação Lucum, onde o rei emérito havia escondido parte de seus bens, e, mesmo assim, não deu a conhecer ao público essas informações – escolheu o momento em que a notícia passaria mais despercebida, e fez o anúncio forçado pelas informações veiculadas na mídia estrangeira.

Quem tenta justificar este escândalo, evitando ressaltar a indignidade da decisão da Casa Real e se expressando com eufemismos sobre a corrupção e a fuga do rei emérito, deve lembrar que o apoio incondicional a uma instituição cada vez mais desacreditada e sem rumo pode ter consequências muito graves para o país.

A monarquia espanhola cheira a passado, cheira a podre. O governo de Pedro Sánchez, depois de ter aceitado secretamente a embaraçosa fuga do rei emérito, deveria agora tomar a iniciativa que pode fazer com que o sistema político do país possa recuperar alguma credibilidade, com uma mudança definitiva e esperada por muitos há anos: promover um referendo para que os espanhóis decidam a forma de Estado que desejam: uma monarquia, como a atual, ou uma república, como já se tentou instituir no passado, mas evitando os erros cometidos naquele então.

Tendo chegado a esta situação nefasta, é hora de que a linha sucessória decidida e imposta por Franco seja submetida a uma consulta democrática. Chega de impunidade. Chega de encobrir a corrupção. Chega de hipocrisia e submissão. Nós, espanhóis, temos o direito de votar sobre se queremos continuar com este antigo regime ou entrar finalmente na modernidade e na igualdade real, através de uma república.

*Publicado originalmente em 'Ctxt - Contexto y acción' | Tradução de Victor Farinelli

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