Pelo Mundo

Especial: Cristina, o legado da resistência

Cristina mostrou que é necessário confrontar o conservadorismo para ser possível repactuar as bases progressistas do desenvolvimento da América Latina.

06/05/2015 00:00

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Quem se informa exclusivamente pelo dispositivo midiático conservador terá apreciáveis dificuldades para entender mais esse enigma latino-americano.

 

Afinal, como é que uma representante típica daquilo que os mercados denominam de ‘populismo latino-americano’, a presidenta argentina Cristina Kirchner, há apenas seis meses das eleições presidenciais de outubro, e equilibrando-se à bordo de um delicado segundo mandato, rodeada de vagalhões formados por fundos abutres, inflação alta, sindicatos oposicionistas em pé de guerra, queda nos preços das commodities e a bateria implacável da mídia local e mundial, ingressa na reta sucessória com taxa de aprovação de 50% ?

 

Pior.

 

Com um candidato peronista, o moderado Daniel Scioli, liderando a corrida à Casa Rosada ?

 

O incompreensível, para os mercados, é o tema do especial de Carta Maior desta semana: ‘Cristina, o legado da resistência’

 

Com artigos de alguns dos mais experientes jornalistas argentinos, a exemplo de Dario Pignot, correspondente de Carta Maior em Brasília e Marcelo Justo, correspondente de Carta Maior em Londres, entre outros colaboradores e parceiros de Carta Maior na belíssima Buenos Aires. O conjunto das reportagens e análises discute o ciclo iniciado há 12 anos, em maio de 2003, quando Néstor (1950-2010), marido de Cristina,  foi empossado na Casa Rosada.

 

Tudo começou com uma ruptura que os mercados jamais perdoariam.

 

Uma moratória decretada então por Néstor, resultou em um desconto da ordem de 70% sobre uma dívida de US$ 130 bilhões, herdada do ciclo ditatorial e do naufrágio neoliberal conduzido por Menen & Cavalo, nos anos 90.


Um grupo recalcitrante de credores recusou-se a aderir ao pacote.

 

Preferiu vender os créditos, da ordem de US$ 1,3 bi, equivalente a 1% da dívida total, a fundos especulativos internacionais.


Desde então, essas rapinosas entidades representativas dos instintos mais predatórios  dos mercados, varreram a Argentina com 99 tentativas de assalto jurídico, para receber o valor integral de títulos adquiridos com deságios elevadíssimos.

 

Transformar carniça em filé-mignon, desossando nações, é a sua especialidade.

 

Se vencessem o braço de ferro imporiam um saque da ordem de US$ 15 bilhões às reservas argentinas, mergulhando a economia em uma espiral descendente devastadora.

 

Cristina afrontou-os nas cortes internacionais, mas sobretudo acuou seus aliados internamente, com a mesma argúcia com que descerrou a alma de seus senhores: os ‘fundos abutres’.

 

É nesse ambiente de cerco e saque, sem acesso ao financiamento internacional, que deve ser avaliado o saldo corajoso de dois mandatos que ora caminham para a conclusão.

 

Nada lembra a forma abúlica, acomodada e conformista que caracteriza o crepúsculo – às vezes o próprio início -- de muitos governantes dissociados da luta pelo desenvolvimento na América Latina.

 

É o que ilustra o balanço escrito por Marcelo Justo neste especial. “...Cristina Kirchner aproveitou o novo cenário internacional com o mesmo princípio de autonomia relativa que havia sido aplicado por seu esposo e antecessor. Em fevereiro (de 2015), o governo assinou um convênio com a China, que deu início a uma nova “aliança estratégica”.

 

A tal ponto esse ativismo perturba que quando a mídia brasileira dispara contra a Casa Rosada sabemos de antemão que não se trata de jornalismo, para lembrar a frase de Obama em relação à Fox News.

 

O que se visa é atingir o segundo mandato da presidenta Dilma cercando-o com ameaças e interditos sabidos.

 

Cristina é a metáfora de tudo o que o conservadorismo mais rejeita e teme que possa acontecer no Brasil. Ou seja, a politização dos impasses do desenvolvimento, com as fronteiras do de debate estendidas para as ruas.

 

Para que o acossamento tenha efeito, porém, seu governo precisa fracassar de uma forma exemplar.

 

É esse desastre esférico e pedagógico que a popularidade insolente da Presidenta sonega.

 

A teimosia exige que o cinturão midiático reforce as salvaguardas contra o contágio com doses tóxicas de amnésia política.

 

O calvário argentino nas mãos do receituário neoliberal, nos anos 90, e antes, com o ciclo ditatorial que sangrou a democracia e a economia, são eclipsados.

 

Trata-se de um requisito editorial para continuar a vender a velha receita de ajuste como alternativa redentora ‘ao populismo’ dos governos progressistas instalados na América Latina nas últimas décadas.

 

A dificuldade é que a ocupante da Casa Rosada é teimosa.

 

O casal Kirchner fez tudo o que o índex da direita continental veta: julgou e colocou generais da ditadura na cadeia; rejeitou a espoliação financeira da dívida externa; controlou preços; impôs um confisco às receitas extras do agronegócio; travou diuturnamente a luta ideológica contra os dogmas do mercado; mobilizou a opinião pública; estatizou a Ferrocarriles Argentinos; estatizou a aereolineas; a previdência social, que se encontrava nas mãos da ganância da banca internacional; enfrentou panelaços e "guarda-chuvaços" e governou com as instituições mas sem abdicar da rua.

 

O mau exemplo estendeu-se até o limite do intolerável:  o governo Cristina incluiu entre as suas prioridades a regulação da mídia, com medidas que afrontaram o monopólio da informação, última trincheira de um conservadorismo que já não se sustenta mais nas baionetas, nem recuperou a supremacia nas urnas.


Sem exclusividade na mídia, o que sobraria?

 

Isso não tem perdão !

 

Não é preciso edulcorar --não se deve edulcorar—as dificuldades vividas pelo desenvolvimento argentino para valorizar os ganhos de uma resistência em reduzir o país a um pasto de engorda do dinheiro especulativo.

 

No momento em que ao poder de mobilidade dos capitais se adiciona a retração das receitas exportadoras de commodities, a América Latina toda vê estreitar-se, perigosamente, seu espaço de soberania estratégica.

 

Com a indústria esfarelada nos anos 90 pela integração carnal com os EUA, que incluiu a renúncia à própria moeda, o renascimento argentino enfrenta também essa encruzilhada,

 

Com um trunfo, porém, nada negligenciável: apostando na politização dos conflitos e na conscientização da sociedade, a quem caberá em última instancia escrutinar os passos do novo ciclo.

 

Não é uma tertúlia de salão entre damas e cavalheiros.

 

A crispação conservadora acha que é a sua hora. O vale tudo para restituir democracias e mercados ao ‘bom caminho’ está em pleno curso no continente com a ferocidade conhecida e os apetites sabidos.

 

É nesse percurso que os blindados editoriais colidem com a resistência argentina e não poupam fogo na arte de desinformar.

 

A virulência associada à contagem regressiva para as urnas de outubro, paradoxalmente, faz com que Cristina adicione à sua biografia mais uma contribuição histórica inestimável aos povos vizinhos e governos parceiros: evidenciar a desqualificação da emissão conservadora para mediar o debate popular que o Brasil e a Argentina –a exemplo de toda América Latina—terão que fazer se quiserem, de fato, repactuar as bases progressistas do seu desenvolvimento

 

Engrossar esse contrapelo ao alarido conservador – que aqui como na Argentina mobiliza indefectíveis caçarolas--  é o objetivo desse Especial de Carta Maior.

 

Boa leitura.

 





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