Pelo Mundo

Esquadrão de mulheres progressistas desafia o machismo e o racismo de Trump

Elas chegaram ao Congresso dos Estados Unidos em novembro de 2018 e já formam o novo 'Dream Team' do setor mais à esquerda dentro do Partido Democrata, o que também as tornou alvo preferencial dos ataques do inquilino da Casa Branca e de seus seguidores mais raivosos.

04/08/2019 12:26

 

 
Meados do recém encerrado mês de julho, e lá estava Donald Trump, usando novamente um palanque como plataforma de lançamento de preconceitos – estilo copiado por seu imitador do lado de cá do Equador.

“Regressem aos seus países e ajudem a reparar esses lugares totalmente destruídos, infestados de delitos”, disse o mandatário estadunidense, mas dessa vez não para um grupo qualquer de imigrantes. Seu alvo principal nos últimos dias é um quarteto de mulheres que decidiu reagir à sua verborragia e sua política de perseguição aos migrantes, e também ao machismo e racismo que costumam marcar os discursos presidenciais

Elas são Ayanna Pressley (de 45 anos), Rashida Tlaib (43), Ilhan Omar (37) e Alexandria Ocasio-Cortez (29). Quatro jovens mulheres estadunidenses, filhas de imigrantes residentes no país. Todas elas eleitas em novembro de 2018 para seu primeiro mandato na Câmara de Representantes. Esse cenário de antagonismo direto com Trump as transformou no novo Dream Team da política no país. Logo, a imprensa local arrumou uma denominação para o grupo: o Esquadrão (The Squad).

Além disso, todas formam parte do setor mais progressista do Partido Democrata – o mesmo que surgiu a partir da pré-candidatura de Bernie Sanders nas primárias de 2016, e que também o apoia agora em sua nova tentativa de ser o presidenciável do partido para as eleições de 2020, quando tentarão impedir a reeleição de Trump.

Em outra declaração contra elas, em suas redes sociais, o magnata-presidente disse que “é muito interessante ver essas congressistas, que se intitulam democratas `progressistas´, que vieram originalmente de países cujos governos são uma catástrofe total e completa, falarem absurdos sobre os Estados Unidos, querendo impor a forma como devemos dirigir o nosso país”.

A resposta do Esquadrão foi uma declaração conjunta, na qual elas acusaram Trump de machismo, racismo e desrespeito aos seus mandatos e à institucionalidade. Também asseguraram que os ataques do presidente não irão intimidá-las, e que pretendem atuar mais vezes juntas a partir de agora.

Sem querer, Trump terminou reforçando a união dessas mulheres e ainda a promoção do grupo, que passou a ser praticamente um ícone pop: é possível até encontrar camisetas e outros produtos com foto ou desenho estilizado do Esquadrão em lojas e sites, que fazem algum sucesso sobretudo com o público feminino jovem.

Ajudadas pelo crescimento do apoio popular ao seu próprio grupo nestas últimas semanas, e também ao setor mais progressista do Partido Democrata – que ainda é minoria com relação aos liberais, mas já começa a ameaçar essa hegemonia –, elas prometem ser a nova (e talvez maior) pedra no sapato do mandatário estadunidense.

A Carta Maior traz abaixo pequenos perfis dessas quatro congressistas, que se mostram atualmente como as mais firmes desafiantes do inquilino da Casa Branca, e que representam o presente e o futuro da esquerda estadunidense.



Ayanna Pressley

No ano de 2010, a cidade de Boston viveu um fato inédito: pela primeira vez, seus cidadãos elegeram uma mulher negra como parte do Conselho da Cidade (instância similar às câmaras de vereadores no Brasil).

Essa mulher era Ayanna Pressley, que retribuiu a confiança com uma qualidade em seu trabalho naquele cargo municipal que pode ser medida em outra importante façanha, alcançada por ela exatamente oito anos depois, ao ser a primeira afrodescendente eleita pelo Estado de Massachusetts para a Câmara de Representantes dos Estados Unidos (similar à nossa Câmara dos Deputados).

Filha única de uma mãe solteira de origem africana, Pressley foi assessora de figuras proeminentes do Partido Democrata (como Joseph Patrick Kennedy II e John Kerry) durante quase duas décadas, até ter a chance de lançar sua própria carreira na política.

Além da militância em favor da causa dos imigrantes, Ayanna Pressley também se destaca por sua atuação em favor das demandas da comunidade negra e do movimento feminista. Aliás, alguns a apontam como a integrante mais abertamente feminista do Esquadrão, sendo uma das defensoras do projeto para uma lei federal de aborto (que atualmente só é permitido em alguns estados do país) e autora de proposta para permitir que o seguro de saúde público possa cobrir os gastos da interrupção da gravidez às mulheres economicamente mais vulneráveis.

O lado triste de sua biografia é que ela é uma sobrevivente da violência sexual. Contudo, afirma que sua forma de lidar com o trauma é trabalhando em leis a favor das vítimas desse tipo de crime: “as pessoas que conhecem mais de perto o que é essa dor devem estar mais perto do poder, e legislar por medidas realmente adequadas sobre esse tema”, opinou ela, em suas redes sociais.



Rashida Tlaib

Outro fator que une as quatro integrantes do Esquadrão é que todas elas carregam consigo algum ineditismo em suas conquistas eleitorais. Também é o caso Rashida Tlaib, que fez história ao ser a primeira mulher de origem palestina a obter uma vaga no Legislativo estadunidense.

Apesar de ser nascida em Detroit, a representante do Estado de Michigan faz questão de ressaltar a origem palestina dos seus país, e em defender nos Estados Unidos as questões relativas aos direitos humanos do seu povo.

Aliás, Tlaib tem uma avó materna que ainda vive na Cisjordânia, e que, junto com sua mãe, foram as que confeccionaram a vestimenta tradicional palestina que a representante usou em sua posse no Congresso. Além disso, também fez seu juramento no cargo com a mão sobre uma edição do Alcorão que pertenceu a Thomas Jefferson.

As questões internacionais são o mais a pauta principal das suas ações políticas. Rashida Tlaib é uma das figuras políticas que mais questiona a guerra comercial impulsada pelo governo de Donald Trump, e suas contradições em outros pontos de sua agenda internacional. Claro que ela também atua nas questões sobre o Oriente médio, sendo uma destacada apoiadora do movimento de “Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel” (conhecido pela sigla BDS) em protesto contra a ocupação ilegal dos territórios palestinos. Como solução ao conflito, ela defende a proposta de um Estado único onde os todos os habitantes, israelenses e palestinos, tenham os mesmos direitos.

Tlaib faz parte do grupo de Socialistas Democráticos da América (DSA, por sua sigla em inglês) e de uma pequena frente de mulheres muçulmanas dentro do Congresso dos Estados Unidos, que também conta com outra colega sua de Esquadrão.



Ilhan Omar

A única integrante do quarteto que não nasceu nos Estados Unidos é Ilhan Omar, que chegou ao país ainda adolescente, quando seus pais fugiram de sua Somália natal, nos Anos 90, e conseguiram se estabelecer primeiro como refugiados, depois como cidadãos estadunidenses, para assim iniciar uma nova vida na cidade de Minneapolis.

Omar também faz parte da frente de mulheres congressistas muçulmanas, e é a mais visada desse grupo, por parte dos setores islamofóbicos da imprensa norte-americana, que não aceitam o fato de que ela vai ao trabalho sempre usando um hijab, vestimenta tradicional das mulheres da sua religião – se trata de um lenço que envolve a cabeça, ocultando o pescoço e o cabelo, mas deixando todo o rosto descoberto, e é importante não confundir com a burca, que só mostra os olhos, e às vezes nem isso.

Representante do Estado de Minnesota, sua atuação na política tem se enfocado na defesa do projeto de aumento do salário mínimo federal a 15 dólares por hora (o dobro do valor atual), além de uma crítica constante às políticas de Donald Trump com respeito à migração, outro assunto que a torna alvo frequente dos mais coléricos grupos de fanáticos do presidente.

Logo, não é uma surpresa o fato de Omar ser uma das vítimas preferidas das fake news da ultradireita do país, que a acusam até de participado do atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, entre outros absurdos – muitos deles abusando da perversão sexual, o que talvez revele muito sobre o caráter dos autores dessas mentiras, que não reproduziremos por respeito ao leitor.

Além disso, Ilhan Omar também se destaca não só por sua militância em favor de demandas feministas, como também em promover a participação das mulheres na política e em outros espaços de poder. Antes de ser congressista, ela dirigiu uma organização chamada Women Organizing Women Network (“Mulheres que Organizam Redes de Mulheres”, cujo nome é autoexplicativo).



Alexandria Ocasio-Cortez

Voltemos a março de 2017, primeiros meses de administração Trump, e se passarmos por um pequeno restaurante de tacos de Nova York encontraremos a jovem balconista Alexandria Ocasio-Cortez, uma latina-estadunidense que esconde, por trás de seu perfil humilde, uma mulher que estudou e se preparou para dar um grande salto na política, mas que contava com pouquíssimos recursos para fazê-lo.

Contudo, seu milagre aconteceu, e não demorou quase nada: no segundo semestre do ano seguinte. Apesar de uma campanha de baixíssimo orçamento, entre junho e novembro de 2018, Ocasio-Cortez superou um figurão do Partido Democrata (Joseph Crowley) nas eleições internas, e outro figurão do Partido Republicano (Anthony Pappas) nas eleições gerais, pela vaga de representante do Estado de Nova York no Congresso, e assim se tornou a mais jovem congressista da história do seu país.

Alexandria Ocasio-Cortez (que costuma ser mencionada na imprensa local através das iniciais do seu nome: AOC) nasceu no Bronx e é filha de pais porto-riquenhos. Estudou Economia e Relações Internacionais na Universidade de Boston. Além do emprego de balconista, também trabalhou como coordenadora comunitária e como pedagoga.

De lá para cá, ela se tornou a grande estrela em ascensão da oposição estadunidense. Um sucesso meteórico que pode ser comprovado sobretudo nas redes sociais, com um perfil em Twitter cujo número de visitas chega a se equiparar, por momentos, com o de uma raposa midiática como Donald Trump.

Ademais, também AOC é membro do grupo de Socialistas Democráticos da América e se destaca por seu projeto para acabar com o modelo de privatização das prisões, pela defesa de uma maior regulação para a comercialização e porte de armas de foro, e por sua militância em prol de um novo pacto social para enfrentar os problemas da crise climática (que ela denomina como Green New Deal).






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