Pelo Mundo

Esquerda e direita à Evo Morales se articulam para eleições

29/08/2005 00:00

Francisco Carlos Teixera

Créditos da foto: Francisco Carlos Teixera

El Alto, ao lado de Cochabamba e La Paz, é o novo centro político da Bolívia. Embora a maior parte da riqueza do país esteja no Oriente e no Chaco, as decisões políticas fundamentais passam pelos movimentos políticos lá situados. Particularmente El Alto, este imenso aglomerado urbano aos pés do Monte Inti-Ilimani, desempenhou um papel central na deposição dos dois últimos presidentes (Sanchez de Losada e Carlos Mesa).

Nada será feito hoje na Bolívia sem um acordo com as lideranças de El Alto. Para estes foi especialmente irritante a negativa do então presidente Mesa em romper os contratos leoninos assinados por Sanchez de Lozada com a empresa francesa “Cie. Suez/Lyonnaise des Eaux”, monopolizadora da água potável de La Paz e de todo o fornecimento de El Alto, através da empresa Águas de Illimani.

Esta privatização da água potável, um dos crimes denunciados no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2005, foi uma tendência dos governos liberais na América Latina. O mesmo aconteceu, por exemplo, no Uruguai, onde o contrato, com uma empresa espanhola, foi rompido em função de um referendo popular na ocasião da eleição de Tabaré Vasquez para a presidência uruguaia.

El Alto: um povo no limite da revolta
Para os habitantes de El Alto, cerca de 900 mil habitantes, batidos pelo desemprego oriundo das duras medidas neoliberais de estabilização macroeconômicas, com afluxo constante de índios-camponeses levados à miséria pelo programa de erradicação da coca, patrocinado pelos EUA, a privatização da água potável foi um acinte insuportável.

Mesa, ao defender as privatizações, acusou o dirigente da Federación de Juntas Vecinales de El Alto (Fejuve) Abel Mamani ”(…) de tratar de obligar al gobierno a romper de inmediato contrato con la provedora de agua potable de esa ciudad y de La Paz, la empresa Aguas del Illimani, controlada por la francesa Lyonnaise des Eaux, lo que acarrearía serios problemas para el país”.

Tal discurso, em vez de acalmar o clamor popular, selou a sorte do presidente: mais uma vez frente ao povo, um governante boliviano cedia direitos populares aos estrangeiros. Mesa, como antes dele Sanchez de Losada, não acreditou na força do nacionalismo boliviano.

Mesa utilizou, em maio de 2005, o argumento da força das potências estrangeiras, humilhando e irritando o movimento social e nacional boliviano. Devemos ter em mente que o estopim do levante popular contra Lozada foi a venda de petróleo a baixo preço para os EUA através do Chile, com pagamento de royalties para este país. Foi este o estopim para que El Alto mais uma vez se colocasse “en pie” e, através de “bloqueos” e “paros”, com a ajuda de colunas de mineiros, levasse à renúncia de Carlos Mesa.

Conversas em El Alto
Após o encontro com empresários em Santa Cruz e com a liderança do MAS em Cochabamba – onde entrevistei Evo Morales -, segui de avião para La Paz. O moderno e confortável aeroporto de Cochabamba contrasta com a precariedade das instalações da capital pacenha. Logo na chegada duas surpresas: um encontro com o “soroychi”, o mal das alturas, causando uma pesada sensação de cansaço e mal-estar e, em seguida, a visão espetacular do amontoado urbano formado por El Alto. Mais de novecentas mil pessoas morando em áreas precárias, na total carência de transporte, água e esgotos, além de elevadíssimo índice de desemprego.

Procurei fazer contatos com as forças principais do movimento social autônomo da capital e de El Alto. Estive duas vezes na Federación de Juntas Vecinales (Fejuve) de El Alto e em La Paz. Na Fejuve/El Alto, a mais articulada e numerosa das “federaciones” – centro irradiador dos “páros” e “bloqueos” anti-Sanchez de Losada e, no último maio, contra Carlos Mesa –, conversei com Tony Condori Cochi, secretário geral da Fejuve/El Alto. Tony é um engenheiro elétrico, de 42 anos, casado, formado na Universidad Mayor de San Andrés, profundamente politizado, com ótima informação técnica e política.

A entrevista se deu em uma pequena sala de face à AutoPista La Paz/El Alto, com diversos cartazes sempre com os dizeres: “El Alto no és problema, és la solución para Bolívia”. Havia um constante entra e saí de populares em busca de algum tipo de ajuda ou informação, explicitando a ausência do Estado nacional.

No térreo funciona o “Brazo Social/Fejuve”, com médicos atendendo à população local, tudo isso em meio a uma ensurdecedora balbúrdia de buzinas e anúncios de trajetos dos autobuses de ligação entre as duas cidades, todos lotados e atravancados.

Após alguma desconfiança, logo afastada pela ação de nosso amigo Nestor Salinas – da “Asociación de Familiares Caídos Por La Defenza del Gás”, Tony se dispôs, então, a falar. Da entrevista podemos destacar os seguintes pontos:

1. Fixação no caráter inédito da politização das “Juntas” e no seu elevado grau de representatividade da população local. Tony mostrou-nos, ainda, a presença avassaladora de El Alto, e das Juntas, nos últimos acontecimentos da história boliviana, paralisando o governo em La Paz e exigindo a denúncia dos acordos com as multinacionais e com o Chile (“La Guerra del Gás” contra o governo de Sanchez de Losada);

2. Reafirmação da perda de representatividade das instituições políticas (e não simplesmente dos “políticos”). Literalmente: “(...) todos quando llegan lá (en el Parlamento) hacen acuerdos y traicionán!”. Por esta razão Evo Morales é muito temido pelo movimento social autônomo, no sentido de que o MAS poderia “domesticar” os movimentos, contê-los e, em seguida, abandonar a agenda de transformações profundas da sociedade (o exemplo de Lula, no Brasil, é sempre presente);

3. Dura crítica ao MAS: Evo tornou-se um político tradicional (isso quer dizer que acredita no jogo parlamentar como chave da mudança). Qual a saída: “(...) vamos esperar o lançamento da candidatura para `amarrar`um acordo”, afirma Luis, demonstrando de certa forma a inevitabilidade de uma composição com Evo Morales;

4. Fixação na questão dos hidrocarbonetos como sendo a chave para todo o futuro boliviano. Não existe, na pauta do movimento social autônomo, um projeto integrado de desenvolvimento, capaz de realizar a distribuição de renda e de garantir autonomia da Bolívia. A questão do desenvolvimento agrário e da energia elétrica é desconhecido da agenda imediata dos movimentos;

5. A teoria do tercero anillo: para Tony, as forças políticas e sociais da Bolívia se encontram dispersas e desarticuladas. Apenas a massa de trabalhadores, assalariados ou não, possui coerência e direção política, ambas expressas através da ação da Fejuve (e não no MAS). Assim, este terceiro anel da população boliviana – em face dos “ricos” (o primeiro e diminuto anel, sempre dominante na política boliviana e quase dominantemente branco) e a classe média (o segundo anel, empobrecida e dispersa, normalmente à reboque dos ricos) possui as condições hoje de assumir os destinos da Bolívia;

6. A questão do socialismo é posta de forma clara: é preciso levar ao povo os recursos gerados com a exploração dos hidrocarbonetos; a meta nesse caso seria a total nacionalização dos recursos existentes e a utilização da renda aí gerada para a melhorar as condições de vida e alavancar a industrialização do país;

7. A atual estrutura política e social da Bolívia não contempla tais metas. A constituinte é uma solução tradicional, de acordos e manipulações. Por esta razão o povo tem de estar nas ruas para evitar que os acordos voltem a ludibriar os interesses populares. A atual calmaria é apenas uma pausa de reavaliação, medição de forças e preparação para ações mais afirmativas a partir das eleições de 4 de dezembro de 2005.

A entrevista com Nestor Salinas
Já há bom tempo temos em Nestor Salinas, da direção da Associación de Familiares Caídos Por la Defensa del Gás (Asofac), um interlocutor permanente sobre a situação boliviana. Nestor tem 30 anos, é economista, de excelente formação intelectual, altamente politizado e militante, nacionalista apaixonado por seu país. Nestor perdeu um irmão – David Salinas – em 11 de outubro de 2003, nas lutas pela deposição de Sanchez de Lozada. A análise política de Nestor acompanha claramente os dados principais do pessoal da Fejuve:

1. Desconfiança ante a possibilidade de negociação do MAS com os partidos tradicionais e certo distanciamento em relação a figura carismática de Evo Morales. Nestor, como vários de seus companheiros, desconfiam claramente do uso do carisma por parte de Evo enquanto uma mecanismo de aglutinação da esquerda boliviana;

2. A nacionalização dos recursos naturais é imprescindível, mesmo respeitando os investimentos estrangeiros e a percepção de que os lucros das empresas estrangeiras são justos. Porém, deve existir justiça para ambas as partes e até hoje as relações possuem um caráter desigual e de força;

3. Há espaço para um acordo com o MAS, que se dará em um quadro eleitoral e de um programa básico para a constituinte;

4. A punição dos crimes de Sanchez de Lozada – “el juicio” – é um elemento central nas exigências da Asofac, que não está de maneira alguma decidida a negociar um esquecimento das vítimas com o MAS.

Avaliação da posição da Central Obrera Boliviana (COB)
A poderosa central operária boliviana, decisiva em todas as mudanças políticas no país desde os anos 50, vive hoje sua mais grave crise. O traço orgânico entre a COB e seus afiliados, principalmente mineiros, foi largamente rompido em função das mudanças nos contratos trabalhistas existentes hoje (assalariados versus cooperativizados).

Da mesma forma, a centralidade dos mineiros no processo político foi largamente superada pela emergência de novos atores sociais coletivos, tão ou mais aguerridas que os mineiros. Assim, a ascensão do movimento de “Juntas Vecinales” e dos campesinos fez com que a COB (estranha a estes segmentos) perdesse parte de seu protagonismo político.

Na verdade, o papel de “vanguardia” da COB, exercido por quase cinqüenta anos, foi substituído pelas Juntas, e a liderança mineiro-operária ainda padece da ausência de uma política clara para a nova situação.

O melhor exemplo de tal crise de direção surgiu no mês passado com a renúncia de Mesa e a impugnação do senador Hormando Vaca Díez (“Vaca Diez ni cagando!”, era o slogan nos muros de El Alto!). Na ocasião, a COB se dividiu e rompeu com o MAS. Seu presidente Jaime Solaris foi às “puertas militares”, unindo-se aos dois oficiais jovens que pediam o golpe de Estado – em vez da convocação da constituinte.

Por um momento imaginou-se um cenário próximo da presidência Juan José Torres (1970-1971), com uma ampla aliança COB/Militares/MAS. Jaime Solaris teve suas iniciativas claramente censuradas por Evo Morales – com apoio das Juntas –, o que levou ao rompimento do conjunto da esquerda com Jaime. Hoje, concretamente, as seções, ou Central Obrera Regional, caminham lado à lado com a Fejuve, escapando da centralização da COB.

De qualquer forma, os mineiros reunidos na COB continuam sendo a “tigrada” dura do movimiento social, recorrendo as “cachorras” (meia banana de dinamite) para paralisar La Paz e impor sua vontade política.

Em La Paz, reunião com Jaime Quiroga: a saída da direita?
Encontramos Jorge Quiroga, casualmente, em um hotel em La Paz, onde fez um debate aberto à imprensa e partidários. O ex-presidente (1960), com formação universitária nos Estados Unidos, natural de Cochabamba, é engenheiro industrial e administrador de empresas. Foi vice-presidente no segundo governo de Hugo Banzer (1997-2001), com quem manteve uma relação tempestuosa. Quiroga governou entre 2001 e 2002, num governo que classificou, ele próprio, de transição.

Quiroga acentuou o processo de privatizações e o direcionamento neoliberal da economia boliviana, sob profunda crise entre 1997 e 2001, inclusive assinando acordos setoriais de livre-comércio com os Estados Unidos. Coube a Quiroga o início do processo de negociação do acordo de gás com os Estados Unidos e o Chile, que sob o governo Sanchez de Losada eclodiria em crise nacional.

Quiroga teve ainda uma postura dura em face ao nascimento do movimento “sin tierra”, cocalero e campesino na região de Chapare, onde desde 1995 surgia o MAS, militarizando a questão e organizando uma forte repressão local, inclusive com grande número de mortos.

A fala de Quiroga sustenta-se em dois pontos: de um lado a busca de paz social e política, um “Basta!” com bloqueos e páros, para recuperar a economia boliviana. De outro lado, um chamamento nacionalista, de sinal invertido, visando isolar o MAS. Quiroga acusa Hugo Chávez e Fidel Castro de intervenção na política interna boliviana através de Evo Morales, fazendo eco às acusações de Washington contra o presidente da Venezuela.

De todos os candidatos da direita liberal, Quiroga é o que possui maior credibilidade e deverá buscar unificar as direitas para enfrentar uma ampla coligação da esquerda popular.

Mesmo em seu discurso a questão nacional é colocada com força e centralidade: as tentativas de secessão – em especial em Santa Cruz de la Sierra – são recusadas claramente, tal como no campo da esquerda do MAS e do movimento social autônomo.

Bolívia, una e indivisa
Na verdade, principalmente em Santa Cruz, podemos distinguir claramente dois projetos de autonomia:

(i.) projeto de autonomia na unidade: busca a descentralização política, fiscal e orçamentária, com nítida adesão ao projeto nacional (a palavra de ordem em cartazes, muros e pôsteres é Unidad en la Diversidad);

(ii.) um segundo projeto possui nítido caráter racista e preconceituoso em face a índios e campesinos, considerados “brutos” e “ ignorantes”.

O primeiro projeto é majoritário, negociador e capaz de compor uma agenda razoável de negociação, tanto à esquerda, quanto à direita. A possibilidade de enriquecimento do estado central através de recursos naturais abre um amplo debate sobre a descentralização fiscal e orçamentária, podendo criar espaços de forte dissenso.

O outro projeto é incapaz de negociar, e reage em estado de pânico em face ao montante do movimento social. Poderá evoluir para uma situação golpista e, no extremo, chamar a uma intervenção estrangeira. É imperativo que o Brasil – oficial, empresarial, pessoal – mantenha distância deste grupo, considerado antinacional, mesmo que busquem um relacionamento mais próximo com empresários, companhias de energia e plantadores de soja brasileiros no Chaco.

A força do nacionalismo boliviano não deve ser subestimada, como o fazem os novos e arrogantes ricos de Santa Cruz.

Para saber mais
GÓMEZ, Luis. El Alto de Pie. La Paz, HdP, 2004.
AUZA, Verônica (Org.). Guerra del Gás. La Paz, Commisión de Hermandad, 2004.
MESA, Carlos et alii. História de Bolívia. La Paz, Editorial Gisbert, 2004.

* Francisco Carlos Teixeira da Silva é professor titular da UFRJ, onde é responsável pela cadeira de Relações Internacionais.



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