Pelo Mundo

Estados Unidos, S&P e a crise

13/08/2011 00:00

Alejandro Nadal - La Jornada

Segundo Obama, os Estados Unidos sempre serão uma nação AAA. Soa um pouco ingênuo seu desplante, mas em certo sentido, tem razão. Nos dois dias que seguiram o anúncio da agência classificadora de risco Standard & Poor’s, os investidores do mundo inteiro parecem ter enlouquecido. Os índices de cotizações no mercado financeiro de todas as praças importantes despencaram.

Os investidores fugiram dos mercados acionários e se refugiaram no que tradicionalmente tem sido os investimentos mais seguros, entre eles os bônus do Tesouro estadunidense. É como se os investidores tivessem se posto de acordo para enviar uma mensagem clara a S&P: não nos importa sua classificação. A busca de abrigo seguro nos bônus do Tesouro parecia ser exatamente o comportamento oposto ao que se poderia esperar depois do rebaixamento da nota da dívida estadunidense.

Se os investidores nos mercados financeiros estivessem preocupados com a capacidade dos EUA pagar sua dívida não teriam corrido para se colocar ao abrigo desses bônus do Tesouro, agora rebaixados de AAA para AA+. Ao contrário, seria de se esperar uma fuga em relação aos bônus e um deslocamento maior de investimentos para os mercados acionários, o que teria provocado uma alta no índice das cotações nas bolsas. Como explicar esta queda dos mercados acionários e a demanda por bônus do Tesouro dos EUA?

Standard & Poor’s carrega atualmente um colossal desprestígio. É co-responsável pela gestação da crise porque nunca titubeou em outorgar a nota mais alta a títulos podres, sem investigar seu conteúdo. De fato, o mais provável é que se tivessem analisado o conteúdo dos veículos de investimento estruturados, não conseguiriam entender os complexos mecanismos dos derivativos neles envolvidos. Ou seja, a credibilidade da Standard & Poor’s saiu bastante danificada desta crise. O fato de ter cometido um erro de 2 bilhões de dólares em suas avaliações sobre o déficit fiscal estadunidense não a ajuda muito.

A má reputação da S&P cresceu quando veio a público a evidência testemunhal de que a agência informou de maneira seletiva a certas instituições sobre sua decisão ainda antes de anunciá-la ao público na semana passada. Um fundo de investimento realizou operações utilizando essa informação privilegiada. Confirmando-se isso, seria de se esperar uma investigação criminal por parte da Securities Exchange Commission.

Mas nem a falta de credibilidade, nem a má reputação das agências de classificação (não só a da S&P) são as razões pelas quais os mercados agiram no sentido oposto ao indicado pela nova classificação dos EUA feita pela S&P. A verdade das coisas é que os investidores sabem algo que a S&P deixa de lado.

Em tese, o grau de classificação é um indicador sobre a capacidade de um país para enfrentar seus compromissos de endividamento. Quando um país declara uma suspensão de pagamentos é porque não pode obter as divisas necessárias para cobrir o serviço de sua dívida. Mas no caso dos EUA, esse país não necessita obter outras divisas para pagar sua dívida. Qualificar o risco em AA+ ou em AAA para a dívida estadunidense é um exercício supérfluo e as agências classificadoras deveriam evitar entrar neste terreno.

Só razões poderosas puderam empurrar a S&P a aventurar-se nesta trajetória. Uma pode ser o desejo de marcar a insatisfação do setor financeiro com o acordo sobre o déficit e a dívida no Congresso dos EUA. Para justificar sua decisão, a S&P assinalou que a irresponsabilidade política durante o debate sobre a dívida afetou negativamente a capacidade do governo desse país para administrar suas finanças. Além disso, assinalou que o acordo no Congresso para reduzir o déficit está muito abaixo do que é preciso para frear a espiral de endividamento do governo estadunidense. A realidade é que o setor financeiro quer resultados mais rápidos e tangíveis no desmantelamento do estado de bem estar social. Seu projeto segue sendo a plena restauração do projeto neoliberal.

Agora, a S&P terá que ser consequente e baixar a classificação de outros países (França e Itália) e de muitas outras instituições bancárias, seguradoras e de investimento. Grandes bancos europeus provavelmente saíram perdendo com esta redução, o que não ajudará a enfrentar a crise do euro.

A recuperação hoje está mais longe do que nunca e o governo estadunidense está com as mãos amarradas. A Europa enfrenta sua própria debacle e a China terá que resolver uma colossal bolha imobiliária. Nesta perspectiva, a vacilação que impera no mercado das bolsas contrasta com a certeza de que a recessão persistirá. Parece que os investidores fugiram do mercado acionário para refugiar-se no último reduto de confiança porque sabem que a austeridade fiscal e uma nova modalidade de armadilha de liquidez conduzem necessariamente ao aprofundamento da crise.

Tradução: Katarina Peixoto

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