Pelo Mundo

Estados Unidos: eleições tempestuosas

 

19/10/2020 09:50

 

 
As eleições de 3 de novembro nos Estados Unidos estão ocorrendo em um clima de ódio e divisão no país, e a violência por partidários armados de Trump não deve ser descartada caso ele perca. São 165 milícias atuando no país, e um desses grupos, que planejou sequestrar e derrubar a governadora democrata de Michigan, Gretchen Whitmer, acaba de ser preso pelo FBI.

O magnata do mercado imobiliário tem estimulado, dia após dia, o ódio aos negros, minorias, estrangeiros e, particularmente os latinos; sem falar nas constantes calúnias e insultos contra os mexicanos. Fica a dúvida se aceitará uma eventual vitória de seu rival, Joseph Biden, ou gritará que houve fraude e agravará um conflito pós-eleitoral que pode agora, como em 2000, acabar sendo decidido pela Supremo Corte, já com a nova juíza conservadora Amy Coney Barrett entre seus integrantes. Deve ser lembrado, também, que naquele caso, em 2002, a mais alta corte estadunidense concedeu a vitória a George W. Bush, ao ordenar o fim da contagem de votos na Flórida, apesar do fato de seu rival Al Gore tê-lo superado em mais de meio milhão de votos. O próprio Trump, diante de insistentes perguntas da mídia, se recusou a admitir que aceitaria a derrota. Em várias ocasiões, ele disse que uma vitória democrata só pode ser devido a uma eleição fraudada.

Da mesma forma, Trump vem associando há meses, e contra todas as evidências, o voto pelo correio à fraude eleitoral. Nessas eleições, o voto pelo correio dobrará, já que muitos dos que o exercem são democratas que querem evitar pegar covid-19. O fanatismo, o culto à ignorância e o desprezo pela ciência e pela vida fomentados por Trump chegaram a tal extremo que muitos de seus partidários assistem aos comícios do bilionário em massa, sem observar distância social ou usar máscaras. Não se deve esquecer que, em relação à sua população, os Estados Unidos superam quase todos os países em número de infectados e falecidos em decorrência do novo coronavírus. O país com uma das duas maiores economias do planeta e com extraordinário desenvolvimento científico em geral, e das ciências médicas em particular, administrou muito mal a pandemia, se comparada, por exemplo, com o que fizeram Cuba e Venezuela, países que ele bloqueia impiedosamente, aplicando uma asfixia econômica cruel e redobrada, mesmo em meio à contingência atual. É claro que, ao contrário de Washington, Havana e Caracas dão mais importância à vida do que a qualquer outra consideração, e não cobram um centavo pelo atendimento de nenhum paciente.

Embora muitos norte-americanos critiquem fortemente a maneira como a Casa Branca lidou com a pandemia de covid-19, esse não é o caso do eleitorado de Trump, no qual muitos são negadores do coronavírus. Numerosas pesquisas dão a Biden uma vantagem sobre Trump e a média do índice Real Clear Politics mostra uma vantagem geral de 9,2% para o democrata e 4,9% nos Estados indecisos decisivos. Mas não são poucos os analistas que insistem que dados semelhantes levaram muitos a acreditar em uma vitória inevitável de Hillary Clinton em 2016, mesmo dentro da equipe de Trump. Vários apontam, com razão, que no peculiar sistema eleitoral dos Estados Unidos, não é o voto popular que decide, mas o do Colégio Eleitoral. Clinton obteve quase 3 milhões de votos populares a mais do que Trump, mas perdeu nesse órgão. É interessante que, de acordo com o Real Clear Politics, Trump está se saindo um pouco melhor no que diz respeito ao Colégio Eleitoral do que nesta mesma data de 2016. Isso pode significar que ele conseguiu repetir o que fez então: alcançar a vitória nos estados indecisos e, assim, reunir mais votos que seus adversários democratas na eleição indireta do Colégio Eleitoral. E esses dados não consideram a possível surpresa de outubro ou qualquer outro evento que possa mudar o ânimo de um eleitorado caracterizado por sua instabilidade em favor do presidente.

Muitas personalidades liberais, progressistas e de esquerda concordam que a reeleição de Trump seria desastrosa para os Estados Unidos e para a humanidade. Noam Chomsky expressou que votar em Trump é pior do que votar em Hitler na década de 1930. Chomsky argumenta que votar no magnata é dar luz verde para uma aceleração das mudanças climáticas com as trágicas consequências que já tem para a vida e que significaria o fim da democracia. Além disso, deve-se acrescentar a continuidade do total desrespeito ao direito internacional por parte de Washington. Em nossa região, isso implicaria no reforço do bloqueio contra Cuba e Venezuela, o apoio total aos governos neoliberais que sofremos e o uso continuado da força para derrubar os líderes progressistas ou impedi-los de chegar ao governo. Biden se moveu bastante para a direita e deixou claro seu distanciamento do setor progressista dos democratas, disse que seguiria uma nova política em relação a Cuba e foi menos claro sobre seus planos com a Venezuela, mas em ambos os casos continuou com o canto cínico da democracia. Em outra edição, farei uma comparação sobre como poderia ser a política externa de ambos os candidatos.

*Publicado originalmente em 'La Jornada' | Tradução de Victor Farinelli

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