Pelo Mundo

Estados Unidos quer a Groenlândia: a eterna ambição territorial

 

23/08/2019 16:26

Vista geral de Upernavik, na Groenlândia (Ritzau Scanpix/Linda Kastrup/Reuters)

Créditos da foto: Vista geral de Upernavik, na Groenlândia (Ritzau Scanpix/Linda Kastrup/Reuters)

 
Editorial do jornal mexicano La Jornada

O mais recente devaneio internacional protagonizado pelo presidente estadunidense Donald Trump foi o cancelamento de uma visita oficial à Dinamarca após a negativa da primeira-ministra Mette Frederiksen em conversar sobre o insólito pedido da Casa Branca de comprar o território autônomo da Groenlândia, assentado na que é considerada a maior ilha do mundo.

Indagada a respeito, a mandatária dinamarquesa recordou que a Groenlândia não é sua, e sim dos groenlandeses, qualificou a oferta como absurda e duvidou de que fosse séria. Trump, por sua parte, se disse ofendido, chamou Frederiksen de desagradável e sarcástica, e usou uma ironia, ao agradecer por ela ter sido tão direta, e fazê-lo economizar boa quantidade de gasto e esforço aos Estados Unidos e à Dinamarca.

Sem dúvida, o episódio leva a um distanciamento entre o governo do magnata nova-iorquino e seus aliados europeus, e acrescenta uma nova página à lista de situações ridículas, impertinências e barbaridades cometidas pelo próprio Trump. Além disso, também nos leva a recordar que, com ou sem Trump, a superpotência norte-americana é o Estado mais expansionista do mundo, e que, em suas sucessivas ampliações territoriais, não só se valeu de transações financeiras como também à guerra e ao despojo, como ocorreu com os milhões de quilômetros quadrados que foram roubados do México no Século XIX, nos quais anexaram os estados da Califórnia, Arizona, Novo México, Texas e Nevada, e partes do Colorado, Utah, Kansas e Wyoming.

Antes disso, em 1803, Washington comprou de Napoleão Bonaparte, com um montante de 15 milhões de dólares, o imenso território da Louisiana original, que compreende os atuais estados de Arkansas, Missouri, Kansas, Iowa, Nebraska, Dakota do Norte e Dakota do Sul, a maior parte de Wyoming e de Oklahoma, além da Louisiana contemporânea. Alguns anos depois, o nascente país arrancou a Flórida do controle da Espanha, e logo consolidou essa posse com uma bárbara guerra de extermínio contra os habitantes originários, os indígenas seminoles. Em1867, Estados Unidos comprou o Alaska da Rússia em troca de 7 milhões de dólares, e em 1898, após uma breve guerra contra a Espanha, se apossou de Cuba, Filipinas e Porto Rico. Naquele mesmo ano, o país anexou o Havaí. Na primeira metade do Século XX, ocupou diversos territórios e os transformou em protetorados, enclaves e colônias. Em todos esses casos, mas particularmente nos atuais estados continentais da superpotência, a população originária foi, com frequência, massacrada, deportada e submetida aos piores abusos.

Com respeito às ambições coloniais de Washington sobre a Groenlândia, elas já existem desde o ano de 1867, quando um informe do Departamento de Estado documentou o interesse estadunidense sobre essa ilha e sobre Islândia, e tiveram uma primeira expressão formal em 1946, quando o então presidente Harry S. Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em troca do território. Assim, por mais grotesco que tenha sido o tono de Trump ao propor a Copenhague o que podia ser, em suas próprias palavras, um negócio imobiliário, o fato é que sua postura se mostra consistente com uma velha pretensão colonialista sobre a ilha ártica, e também com a histórica voracidade geográfica dos Estados Unidos.

Este inopinado ressurgimento do afã expansionista estadunidenses, finalmente, deve ser tomado pelo México como um sinal preocupante, e motivo de alerta com respeito ao norte do mapa mexicano, porque as ambições territoriais do país vizinho seguem vigentes.

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli



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