Pelo Mundo

Eu alertei sobre os ataques de Trump à ciência. Mas nunca previ o horror que nos espera

Minhas próprias profecias devastadoras falharam em prever adequadamente o futuro e, hoje, vejo o presidente como alguém muito mais aterrorizante.

19/04/2020 12:27

Donald Trump: um 'Niágara de desinformação... sai diariamente de suaa boca'. (Rex/Shutterstock)

Créditos da foto: Donald Trump: um 'Niágara de desinformação... sai diariamente de suaa boca'. (Rex/Shutterstock)

 
“Abaixo a inteligência! Viva a morte!” essas palavras infames foram pronunciadas em 1936 pelo General Millán Astray, general fascista que era mentor e amigo de Francisco Franco, que se tornaria ditador da Espanha por mais de quatro décadas. Fizeram parte de um discurso que Millán concedeu na Universidade de Salamanca celebrando a insurreição contra a República Espanhola que anunciou os anos terríveis que estavam no horizonte.

Eu lembrei essas palavras bárbaras com trepidação em outubro de 2017 quando comecei a rastrear os meios pelos quais Donald Trump, em somente os 10 primeiros e infinitos meses do que já era seu governo infindável, travava sua guerra perturbadora contra a ciência e a verdade. Em um artigo online para o New York Review of Books, alertei para as “consequências letais” que essa ofensiva iria acarretar e as milhões de vidas que seriam abreviadas.

Àquela altura, o que me preocupou foram seus ataques às leis ambientais e laborais, o jeito com o qual ele drenava cada departamento de especialistas de cada governo, a evisceração irresponsável de conselhos consultivos, os cortes orçamentários à pesquisa científica, os ataques à vacinação e à expertise médica por trás e sua negação em relação a mudança climática.

Analistas têm focado em suas ações atabalhoadas e suas inações confusas, o Niágara da desinformação que sai diariamente da sua boca. Foi revelado que existiram alertas, memorandos e bandeiras vermelhas mais do que suficientes em janeiro desse ano para garantir preparações urgentes que nunca foram estabelecidas e que, escandalosamente, os descuidados e desatentos aliados de Trump desmantelaram no inicio de 2018 o time encarregado de lidar precisamente com esse tipo de doença desastrosa, demitindo seus membros mais experientes.

A cena mais recente nessa farsa trágica é a exigência insistente de Trump de que seja usada a cloroquina para combater a COVID-19. Mesmo esse remédio anti-malárico não tendo sido testado com padrões objetivos e nem seus efeitos colaterais avaliados suficientemente, ele o trata como uma droga milagrosa, lembrando de quando anunciou que “um dia – como um milagre – esse vírus vai desaparecer”. Pensamentos mágicos são esperados dentro de religiões, literatura e audiências em shows nos quais os apresentadores tiram coelhos das cartolas, mas não em substituição à medicina profissional e à ciência.

“O que você tem a perder?” Trump reiterou recentemente em uma de suas intermináveis coletivas de imprensa.

Algumas respostas: alimentando falsas esperanças? Recursos e tempo desperdiçados? Vidas perdidas?

Essas críticas ao seu comportamento, mesmo válidas, não deveriam nos fazer perder o foco de algo mais fundamental que está acontecendo. A resposta caótica e desastrada atual à essa emergência não é um acidente, mas sim o resultado direto de um padrão, profundamente enraizado e sistêmico, de ignorância imatura que beira o criminoso e que data do início do regime de Trump, embutido no próprio DNA anti-intelectual e teimoso do presidente e de seus aliados.

Se, lá em outubro de 2017, Trump parecia um discípulo remoto, embora inesperado, do general fascista que gritou “Vida longa à morte!” décadas atrás quando a democracia estava sendo destruída na Espanha, hoje eu o vejo como uma pessoa bem mais aterrorizante: a personificação de um dos cavaleiros do apocalipse, o que conduz o cavalo da pestilência.

E ainda assim, mesmo que o navio esteja nas mãos de um lunático que faz Ahab parecer são, há motivo para esperança.

A própria ciência que Trump menosprezou e ama ignorar vem prevalecendo devagar, avançando como todas as pesquisas fazem, um passo rigoroso e calculado de cada vez, até que a imunização, contenção e a sabedoria da epidemiologia prevaleçam. Temos que nos ater à crença de que a graça da nossa razão e a luz do nosso conhecimento, assim como a continuidade da nossa solidariedade com o próximo, vão nos ajudar a sair dessa crise atual.

Claro que, quando sairmos dessa catástrofe, pode ter certeza que Trump vai querer o crédito e vai se gabar sobre como sua genialidade e previsões salvaram os EUA e, porque não, toda a ingrata humanidade.

Esse será, sem dúvida, o ano conhecido como o ano da praga que mudou tudo. Ainda veremos se ficará na história como o ano em que o facilitador da morte na Casa Branca foi finalmente responsabilizado pelo povo estadunidense. Ainda veremos se muitos deles desenvolveram os anticorpos que irão estancar a epidemia do seu reino ignorante.

*Publicado originalmente em 'Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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