Pelo Mundo

Evo Morales: ''Renuncio à minha candidatura''

Direto do México, o presidente deposto não descartou um asilo na Argentina nem estar presente na posse de Alberto Fernández

24/11/2019 13:18

 

 
Em entrevista ao diário argentino Página/12, Evo Morales trouxe à tona heróis históricos como Tupac Katari, o aimará rebelde que, antes de ser executado, em 1781, disse aquela épica frase: “voltarei, e serei milhões”. E outra figura histórica aimará, Zárate Willka, que liderou um levantamento contra os conservadores em 1899. Mas o momento mais importante foi seu anúncio: para contribuir com a pacificação da Bolívia, ele não será candidato nas próximas eleições.

A entrevista com o “primeiro presidente do Estado Plurinacional da Bolívia” (como é descrito no seu perfil em Twitter) aconteceu por Skype. Evo falou direto do México, após conversações com a ex-ministra de Saúde Gabriela Montaño, asilada na capital mexicana junto com o presidente deposto e seu vice, Álvaro García Linera. Enquanto se desenvolvia a conversa, na tarde de sábado 23 de novembro, as bancadas parlamentares do Movimento ao Socialismo (MAS) terminavam de negociar o projeto para convocar novas eleições, e de forma rápida. No mesmo momento, os movimentos sociais assinaram um comunicado pedindo o fim da repressão. Ao mesmo tempo, os filhos de Evo, Evaliz e Álvaro, chegavam na Argentina como asilados, depois de uma negociação realizada por Alberto Fernández.

Evo Morales: Agradeço ao povo argentino, ao irmão Alberto e todos os que trabalharam para garantir a chegada deles ao país. Fiquei acordado até as 4 da manhã, hora boliviana, seguindo a situação, e felizmente não houve nenhum problema.

Pergunta: Os filhos de Evo Morales já estão na Argentina, e certamente irão à posse de Alberto Fernández, no dia 10 de dezembro. O pai deles também estará?

Morales: Recebi um convite público. Como seria bom… seria um orgulho e uma honra acompanhar a posse. Vamos consultar os colegas. Além disso, a Argentina está mais próxima da Bolívia e poderia agradecer novamente a grande solidariedade ao irmão Alberto Fernández. Ele foi um dos que salvou minha vida, a vida de Álvaro (García Linera) e da equipe que me acompanhou no domingo e na segunda-feira (10 e 11 de novembro). Tenho carinho, respeito e admiração por ele. Poderemos comentar em detalhes o que vivemos naquela segunda-feira, nos caminhos da selva do Departamento de Cochabamba.

Pergunta: O Senado já mostrou que há consenso para um projeto de lei para se convocar novas eleições em breve.

Morales: Sim, houve uma reunião, com a ajuda das Nações Unidas, da Igreja Católica e da União Europeia. No dia em que cheguei ao México, pedi em uma entrevista coletiva com personalidades internacionais de todo o mundo que ajudassem a pacificação da Bolívia. Felizmente, essa reunião acabou de acontecer, e o governo golpista de (Jeanine) Áñez participou. O MAS representa dois terços dos senadores e deputados. Faremos o nosso melhor pela unidade, e por isso, em nome da pacificação, desisto da minha candidatura.

Pergunta: Apesar do resultado das eleições do dia 20 de outubro, quando o MAS venceu?

Morales: Sim. E quero dizer que eles roubaram de nós esse triunfo. Meu grande crime é ser indígena e, principalmente, ter recursos naturais nacionalizados, como hidrocarbonetos. Lembro perfeitamente que o irmão Néstor Kirchner, quando nacionalizei e as empresas, me disse que as empresas não investiriam mais. Ele me ligou e disse: “se as multinacionais do petróleo não investirem, a Argentina investirá na Bolívia”. Tenho grandes lembranças da luta pela dignidade e independência dos Estados, pela dignidade e identidade de nossos povos.

Pergunta: Você falou em pacificação.

Morales: Vou fazer tudo o que for possível para pacificar a Bolívia. Renuncio à minha candidatura apesar de ter conseguido me apresentar como candidato à Presidência. Eu não estou reclamando. Me afasto da disputa para que não haja mais mortos, nem mais agressões. Irmão jornalista, você sabe por que eu e meu irmão García Linera renunciamos no domingo 10 de novembro? Porque eles capturaram meus irmãos líderes, militantes, governadores dos departamentos, prefeitos, e disseram que iriam queimar suas casas se eu não renunciasse ao meu cargo. O irmão do presidente da Câmara dos Deputados (Víctor Borda) e disseram a ele: “se seu irmão não renunciar, nós o queimaremos na praça”. Eles queimaram a casa da minha irmã em Oruro. Do racismo ao fascismo, e do fascismo ao golpismo. Foi o que aconteceu na Bolívia. Por esse motivo, tenho agido em nome da unidade e da pacificação, com a ajuda da nossa bancada. Anunciei que desta vez Álvaro e eu não seremos os candidatos.

Pergunta: Deixará o México e regressará à Bolívia?

Morales: Gostaria muito de voltar à Bolívia. Mas quero que você saiba que lá do Norte eles nos informaram que os Estados Unidos não querem que eu volte para a Bolívia. O governo golpista também não quer. Mas, por mais que seja um governo de facto, deve garantir a vida não apenas do Evo, mas de todos. Agora, na Bolívia, eles estão discutindo uma lei de garantias. Há pessoas na prisão, uma delas por dirigia sem licença, outra, em Cochabamba, por gritar “pátria ou morte, venceremos”. É uma caçada. Os ministros que estão na embaixada da Argentina e aqueles que estão na embaixada do México não receberam salvo-conduto. Essa é uma maneira de aplicar a lei? Repito: com tanto tiroteio, com tanta repressão, eles momentaneamente detêm o poder político. Mas isso vai acabar.

Pergunta: Pensa em trocar um asilo no México por outro na Argentina?

Morales: Não descarto. Quero estar mais perto da Bolívia. Os irmãos Alberto e Cristina sempre me ajudaram. Nunca me abandonaram. Tenho muitas boas recordações de quando a irmã Cristina era presidenta. Houve uma vez que faltou farinha para o pão. Importávamos 70% ou 80% da farinha dos Estados Unidos e do Canadá. Nunca se fomentou a produção local de farinha. Como um dia faltou farinha e todos diziam que eu seria o responsável se acabasse o pão, liguei para a irmã Cristina e pedi: “você tem que me vender trigo”, e ela respondeu: “Evo, estamos comprometidos com isso”. Não sei o que a irmã Cristina fez, mas em questão de poucos dias recebemos trigo e farinha suficientes na Bolívia. Temos trabalhado com muitos países de forma solidária. Se eles nunca me abandonaram, tampouco o farão neste momento tão difícil que a Bolívia está vivendo agora, com tantos mortos, com tantos feridos, com tantas detenções injustas. A forma de sair dos problemas é através da cooperação. Me lembro da tentativa de golpe de Estado em 2008. Graças à ajuda da UnaSul, nós derrotamos o golpismo daquela vez.

Pergunta: Qual foi a causa deste último golpe?

Morales: Eles nunca aceitaram nossa política econômica e nossos programas sociais. Eles não aceitaram que os movimentos indígenas e sociais mudassem a Bolívia, nos odiaram desde quando começamos a fazê-lo. Depois de nacionalizar, começamos com a industrialização. Nosso grande projeto foi industrializar o lítio. Portanto, as transnacionais e alguns grupos no Chile não queriam que continuássemos. Infelizmente, eles também agiram violentamente. Pagaram 300 bolivianos (moeda local) por pessoa que aceitasse fazer agitação nas ruas e atacar prédios públicos. Ainda estou surpreso que os grupos que detêm o poder econômico façam política dessa maneira. Mas não importa. Quero dizer, através deste meio de comunicação tão conhecido em todo o mundo, em toda a América Latina, que em breve retornaremos. Há pessoas que ainda não conseguem acreditar que o comandante da Polícia Nacional, e o comandante das Forças Armadas, fazem parte de um golpe de Estado. Um golpe que já produziu 32 mortos em poucos dias. Morto a bala! E também há cerca de 700 feridos a tiros. Mais de mil detidos. Imagine quantos mortos, quantas viúvas, quantos viúvos, quantos órfãos. Filhos baleados… um golpe de Estado no estilo das ditaduras dos Anos 60 e 70. Quero dizer aos irmãos da Argentina que, com ou sem Evo, recuperaremos nossa revolução democrática e cultural.

Pergunta: No domingo 10 de novembro, o general Williams Kaliman, que depois renunciou e se mudou para os Estados Unidos, formulou em público a famosa “sugestão” para que você renunciasse. Foi uma surpresa?

Morales: Em 7 de agosto, no aniversário das Forças Armadas, ele se declarou a favor da mudança e do processo anti-imperialista. Não sei se sua mudança se deve a uma questão de dinheiro, ou à luta de classes. Mais cedo ou mais tarde, as mesmas Forças Armadas e o povo identificarão os inimigos de nossa amada Bolívia. Eu equipei as Forças Armadas. Quando cheguei à Presidência, em 2006, eles tinham apenas um helicóptero. Hoje, têm 24. E alguns desses dispositivos, comprados com o dinheiro do povo, estão atirando e matando meus irmãos. Isso dói muito.

Pergunta: Antes e depois do golpe acusaram o seu governo de ter cometido fraude nas eleições de 20 de outubro.

Morales: Quero que o mundo saiba que no domingo 10 de novembro a OEA participou do golpe de Estado. O fez através de um suposto informe preliminar, quando antes havia feito um acordo com nosso chanceler, de que apresentaria seu informe final na quarta-feira 13. Eu tive acesso a informes estrangeiros que demonstram que não houve fraude. Um da Universidade de Michigan. Outro do Centro de Investigação Econômica e Política de Washington. Também tive uma longa reunião com o Centro Carter. Falei com irmãos ligados ao Papa Francisco, e tive reuniões com funcionários de Nações Unidas e pedi que fizeram uma Comissão da Verdade para realizar uma profunda investigação. Vamos demostrar que não houve fraude.

Pergunta: Este seu pedido é para invalidar o chamado a novas eleições?

Morales: Não. Sou sincero: esse chamado já está em caminho. Mas também quero demostrar ao mundo inteiro que a OEA atuou junto com grupos de poder conservadores que nunca quiseram o índio no poder, e que são contra os programas sociais. Nós reduzimos a pobreza. Vamos mostrar a verdade sobre Bolívia ao mundo todo. A OEA não pode ser um instrumento da gente rica.

Pergunta: Você falou de racismo e fascismo. Aumentaram?

Morales: Eu pensei que a opressão e a humilhação haviam acabado. A Bolívia tinha uma nova Constituição. Mas vejo com surpresa as declarações de cidadãos como Luis Fernando Camacho em Santa Cruz. A Bíblia não pode ser usada para odiar. Não todos os habitantes de Santa Cruz são assim. Eles se uniram para identificar inimigos e matá-los, usando assassinos contratados. Reuniram cerca de 20 ou 30 mil pessoas, rezando e gritando: “Evo bastardo”. Isso é racismo. Eles humilham pessoas humildes, chutaram pessoas pobres nas ruas e as chamaram de “colla” (pejorativo usado na Bolívia para ofender indígenas). Assim se chega ao fascismo. Eles identificam a casa de um deputado ou governador do MAS e a queimam. E a polícia não dá nenhuma segurança. A desculpa é que existem cubanos no local. Mas os cubanos trabalham aqui gratuitamente e incondicionalmente, ao contrário dos Estados Unidos, que sempre condicionaram a assistência às políticas do Fundo Monetário Internacional. Construímos hospitais e recebemos a colaboração de médicos cubanos. Me lembro de um diálogo entre Hugo Chávez e Fidel Castro. Fidel disse: “Hugo, vamos fazer um programa para operar 100 mil latino-americanos de graça”. Fidel parecia louco. Eram operações que podiam custar três ou quatro mil dólares. Mas na Bolívia os médicos chegaram e operaram. O Estado fez isso de graça. Agora, grupos racistas não apenas usavam a presença cubana como desculpa. Eles queimaram instituições educacionais criadas com o dinheiro do povo. Como se deve entender isso? Como devemos entender que a perseguição a deputadas e deputados? É uma ditadura. Nossa senadora Adriana Salvatierra teve suas roupas rasgadas quando tentou entrar na Assembleia. Uma jovem de 30 anos… a Praça Murillo (no centro de La Paz) cercada por tanques! Me fez lembrar de quando fiz o recrutamento nas Forças Armadas em 1978, e meu comandante, Daniel Padilla Arancibia, se tornou presidente. Eu não entendi o que aconteceu. Golpes e mais golpes…

Pergunta: Qual seria a forma de reparar as agressões?

Morales: Nós nunca fomos revanchistas. Tupac Katari, durante a luta pela independência, disse que os brancos das cidades que também deveriam se organizar em “ayllus”, que era a estrutura orgânica da época, como hoje seria a união agrária. Juntos, eles lutaram pela nossa independência, por nossa vida em comunidade, em solidariedade. Harmonia entre seres humanos e harmonia com a Mãe Terra. Já durante a República, outro irmão indígena, Zárate Willka, convocou uma aliança com os brancos das cidades para defender os direitos e os recursos naturais. O movimento indígena nunca foi racista, e menos fascista. E quando há pobreza, todos nos reunimos e nos ajudamos. Sempre fomos muito tolerantes. Eles não. Um colega me ligou e me disse que querem eliminar o programa de moradia para as mães solteiras, e também querem privatizar a BOA (Empresa Boliviana de Aviação). Quando a nacionalizamos, o colega Kirchner me enviou técnicos da Argentina para nos ajudar. Nem sabíamos como abrir uma empresa pública. A BOA chegou a ter lucro, e agora eles a querem privatizar. Não é apenas um confronto ideológico. Também programático: este não é um governo de transição, mas um governo de facto, que nem respeitou a sucessão constitucional.

Pergunta: Qual será o eixo da campanha eleitoral do MAS?

Morales: Revisaremos o passado, conversarem sobre o presente e projetaremos a esperança, pensando nas gerações futuras. Depois dos meus quase 14 anos de governo, a Bolívia esteve seis vezes como o país de maior crescimento da América do Sul. Irmão jornalista, duas coisas me machucaram com este golpe de Estado. Os mortos me machucam, pois dói ver como, em pouco tempo, começaram a destruir a economia. Eles já me informaram que houve uma desvalorização. O dólar passou dos sete bolivianos (antes estava em 3). Cuidamos bem da economia graças a técnicos e colegas economistas. Profissionais patriotas. Certa vez, um organismo internacional ofereceu emprego a Lucho Arce, nosso ministro da Economia. Eles pagariam 18 mil dólares por mês. Como ministro, ganhava pouco mais de 2 mil dólares. “Sou a favor do país, fico aqui”, foi a sua resposta. E ele ficou conosco, continuou trabalhando pela Bolívia. O que fizemos foi pelo país, não pelo dinheiro. Muitos membros do gabinete poderiam estar ganhando muito no exterior. Nós não fizemos riqueza no governo. Tenho certeza de que meus irmãos se organizarão. Há muita consciência política para enfrentar esta situação.

Pergunta: Você mencionou o lítio. Acredita que o urânio da Bolívia é um dos alvos do golpe?

Morales: O lítio é o mais importante. Já estávamos completando o ciclo industrial do ferro, para ara terminar com a importação. O mesmo fizemos com os fertilizantes. Antes importávamos 100%. Agora exportamos 350 mil toneladas ao Brasil, ao Paraguai e regiões vizinhas. Estamos terminando a grande planta de carbonato de lítio. Já produzimos 400 toneladas. Os grupos opositores internos não entendem como o índio é capaz de industrializar a Bolívia. Como podem fazer isso com os movimentos sociais e os profissionais patriotas?

Pergunta: Falou com familiares dos mortos?

Morales: Conversei com alguns deles. Escutá-los chorando te faz chorar. Estou longe, mas tentei ajudar, junto com outros amigos e amigas muito solidários. Alguns estão sem dinheiro até mesmo para pagar um caixão. Outros estão hospitalizados. Sempre trabalharemos para ajudar os mais humildes.

Pergunta: E as próximas eleições?

Morales: Ainda não há acordo sobre a questão da Lei de Garantias, mas nossa bancada espera que a Assembleia a aprove e que a autoproclamada Áñez a promulgue. Essa lei garante as novas eleições, e seria um instrumento muito importante para pacificar a Bolívia. Depois, teremos que procurar programas para reconciliar o povo boliviano.

Pergunta: Esperam um compromisso de Áñez sobre frear a repressão?

Morales: Esperamos que, depois de todos esses mortos baleados, exista maior conscientização das autoridades governamentais golpistas. Que a quantidade de detenções ilegais amoleça seus corações. Que não haja mais mortos ou feridos. Que meus companheiros sejam libertados, porque foram presos por provas forjadas. Há um promotor que eu conheço. Ele tinha um salário duplo, um do Ministério Público e outro da embaixada dos Estados Unidos. A embaixada lhe pagou mais. A DEA (Departamento Antidrogas dos Estados Unidos) tinha nele um advogado. E agora ele é vice-ministro da Defesa Social. Talvez seja uma mensagem, eles querem recolocar uma base militar dos Estados Unidos no país. Foi por isso que eu disse a ele que queria refrescar sua memória e ver o que está acontecendo. E quero aproveitar a oportunidade para cumprimentar todos os irmãos e irmãs bolivianos que estão na Argentina. Nós trabalhamos duro nas questões de residência deles, quando o irmão Alberto Fernández era chefe de gabinete de Kirchner e Cristina. Nós sempre apoiaremos os mais humilde da nossa terra amada.

*Publicado originalmente em Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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