Pelo Mundo

Evo Morales alerta para golpe de estado, OEA recomenda segunda volta

O atribulado processo de contagem dos votos das eleições na Bolívia ainda não acabou, mas já incendiou o clima político no país.

24/10/2019 10:24

(Reprodução/Twitter Evo Morales)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter Evo Morales)

 
Três dias após mais de seis milhões de bolivianos terem ido às urnas, o resultado final continua por apurar. Com 97,33% das atas contadas, o partido de Evo Morales lidera com 46,22%, enquanto o de Carlos Mesa regista 37,19%. Esta diferença de nove pontos percentuais fica aquém dos dez necessários para dispensar uma segunda volta. As atas por apurar pertencem aos estados de Chuquisaca — onde Mesa vence com 51.9% face aos 34% de Morales e falta contar cerca de 100 mil votos — e de Potosí — onde Morales vence com 47% face aos 35% de Mesa e há cerca de 60 mil votos por contar.

A ausência de atualização dos resultados preliminares nos dias seguintes à eleição deu lugar a protestos do candidato da oposição com acusações de fraude eleitoral, seguidas de tumultos e ataques às instalações das comissões eleitorais. Esta quarta-feira, o presidente e candidato Evo Morales fez uma conferência de imprensa para se congratular pela vitória do seu partido nas eleições gerais e denunciar “que está em marcha um golpe de estado”, apontando o dedo à “direita, com apoio internacional”, a quem acusa de semear o ódio e o desprezo pelo voto dos setores populares por "racismo".

“Quero que o povo boliviano saiba que até agora, humildemente, aguentámos, suportámos para evitar a violência. Não entrámos em confrontação e nunca iremos entrar em confrontação. Mas quero dizer ao povo boliviano: primeiro, estado de emergência e mobilização pacífica e constitucional”, afirmou Evo Morales. Apesar de os media internacionais terem de imediato citado o presidente boliviano como tendo declarado o estado de emergência, na verdade essa figura não existe na lei constitucional do país.

A tensão política provocada pela forma como as contagens de votos foram anunciadas subiu de tom ao longo dos últimos dias e provocou baixas no próprio organismo que superintende o processo. No entanto, todos rejeitam as acusações de fraude, incluindo a Organização de Estados Americanos, que observou a campanha e a votação e a quem o governo boliviano convidou agora a fazer uma auditoria a todo o processo.

OEA recomenda segunda volta, mesmo que Morales vença à primeira

No relatório preliminar da sua missão eleitoral na Bolívia, a OEA lança as maiores críticas à etapa pós-eleitoral. Ao final da tarde de domingo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou os primeiros dados do sistema TREP (Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares), que davam uma vantagem de 7.87% a Morales face a Carlos Mesa, com 83.85% das atas eleitorais verificadas. Mas essa foi a última vez que o Tribunal divulgou dados nesse dia, “apesar de o sistema ter capacidade para continuar com o processamento das atas”, aponta a OEA.

A primeira justificação da presidente do TSE junto da OEA para a suspensão da transmissão dos resultados do TREP, ainda na noite de domingo, foi que a contagem oficial dos votos já tinha começado, pelo que anunciar mais resultados iria causar confusão. Para além disso, a meta inicial para o TREP era de 80% das atas, terá acrescentado María Eugenia Choque. No entanto, na segunda-feira alguns membros do TSE admitiram junto da OEA alguns problemas técnicos no sistema.

Sem anúncio de novos resultados - da contagem oficial ou preliminar - durante um dia, a oposição começou a mobilizar os seus apoiantes com base na desconfiança em todo o processo e tomando como alvo os tribunais dos várias localidades, o que obrigou a suspender as contagens, atrasando ainda mais o processo. Em Potosí, Pando e Tarija, as sedes dos serviços foram totalmente incendiadas e os observadores evacuados, não regressando depois para o reinício da contagem.

Ao final da tarde de segunda-feira, foi reativada a contagem TREP com novo anúncio que ampliava a vantagem de Morales sobre Mesa para 9.36% com 94.7% das atas verificadas. A maior proximidade da vitória de Evo Morales à primeira volta (precisa de 10 pontos percentuais de diferença face ao segundo candidato mais votado) inflamou ainda mais os ânimos da oposição, com Carlos Mesa a afirmar que não reconhecerá o resultado da eleição que for anunciado.

Nas suas recomendações, e com base no resultado da contagem que dava Evo Morales ainda a meio ponto de distância da reeleição à primeira volta, a OEA recomendou que se organize uma segunda volta da eleição, mesmo que seja ultrapassada essa diferença de 10 pontos, em nome da credibilidade do processo eleitoral.

*Publicado originalmente em esquerda.net



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