Pelo Mundo

Evomania: cinema aymara

25/01/2006 00:00

praça Murillo

Créditos da foto: praça Murillo
Fui ao cinema Plaza, na praça Murillo, a praça mais importante da cidade, onde fica o Palácio Quemado, sede do governo. É um cinema antigo, com um pequeno balcão vendendo as entradas – cerca de um dólar e meio, para todos, com aviso de que crianças de mais de 4 anos pagam entrada.

No jornal, anunciava-se que o filme era American Visa, filme de grande sucesso, com diretor boliviano e co-produção com a Espanha. Um filme sobre os problemas da imigração boliviana. No entanto, o bilheteiro – que se revelou depois ser também o lanterninha – informou que esse filme havia passado até ontem, hoje passavam o filme boliviano de maior sucesso: “Chuquiago”, de Antonio Eguino, filmada em 1977.

Com muita gente entrando depois de começada a sessão, com algumas famílias com seus filhos bem pequenos – na sessão das 3 da tarde, havia cerca de 50 pessoas, todas com traços de origem popular -, inicialmente se projetaram dois videoclipes, um deles de Robin Williams, depois traillers de antigos filmes estadunidenses, até que começou “Chuquiago” – nome aymara de La Paz.

É um filme de quatro histórias, a primeira do menino aymara, trazido pelos pais a La Paz, entregue para uma mulher para quem vai trabalhar, sem nem sequer saber falar castelhano e suas desventuras na cidade grande, especialmente quando foge e vai viver estripulias com amigos que descobre na cidade.

A segunda históia é de um jovem pobre, que não quer seguir sendo operário como o pai. Tenta ir para os EUA, deixando-se levar pelo oferecimento de uma empresa fajuta. Pratica um roubo com um amigo, para ter o dinheiro suficiente, acaba sendo preso, quando a família junta tudo o que tinha e paga para que o delegado o solte, ele vai à empresa, buscar o passaporte e a passagem e se dá conta que a empresa foi fechada por fraude.

A terceira é de um tipo de classe média que entra em negociatas para subir na vida, compromete a família nos seus negócios, até que é vitima das armadilhas que tinha montado e fracassa. A quarta é a história de ume jovem burguesa, que se apaixona por um militante da Universidade, onde ela estuda letras, contra a opinião da família. Quando a polícia cerca a universidade, ela foge com o namorado, mas ele passa à clandestinidade e ela, sob pressão da família, casa com um moço burguês, quando acaba sabendo que seu ex-namorado foi preso e libertado por um seqüestro e levado para o exterior.

Sai às 5 horas, apesar da chuva, seguia havendo muitas barracas vendendo comidas e outras coisas na praça, enquanto se desenvolvia a primeira crise militar do governo Evo Morales. Valendo-se do escandaloso episódio de entrega dos mísseis comprados à China ao governo dos EUA, o governo passou a retiro 28 oficiais, promovendo uma geração nova no Exército boliviano. Como acontece nesses casos, duas mulheres de oficiais passados a retiro foram tentar fazer escândalo no Palácio de governo.

O governo de Evo Morales está precavendo-se assim: buscando limpar as FFAA de alguns dos seus setores mais conservadores, justamente na instituição que têm protagonizado os golpes militares característicos da história do país – que teve até aqui mais presidentes militares do que civis. Evo prepara assim, também no plano militar, as condições dos seus cinco anos de governo.


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