Pelo Mundo

Ex-guerrilheira da FSLN fala da vitória de Ortega e de seu aspecto negativo para a esquerda na Nicarágua

12/01/2007 00:00

Mônica Baltodano durante entrevista aos Latinautas

Créditos da foto: Mônica Baltodano durante entrevista aos Latinautas
Ex-comandante guerrilheira na década de 70, Mônica Baltodano é hoje uma das principais figuras empenhadas na construção de uma nova esquerda na Nicarágua. Ela conversou com exclusividade com os Latinautas sobre o que a Revolução Nicaragüense deixou de legado ao povo, sobre sua participação na Frente Sandinista de Libertação Nacional e sobre a criação da nova frente de esquerda no país.

Carta Maior – Quais foram os ensinamentos da Revolução Nicaraguense para o povo?
Mônica Baltodano - Eu diria que o principal ensinamento é o de que o povo organizou-se, adquiriu consciência de sua situação de humilhado e explorado pela ditadura e, assim, incorporou-se na luta. O mais importante foi isso, um povo sendo ator de suas próprias transformações. E essa incorporação do povo na luta manifestou-se também após a Revolução. Nas principais tarefas, o povo organizou-se de todas as formas: por meio de sindicatos, organizações campesinas, os grupos de jovens, de mulheres. Esses ensinamentos mantêm-se, é o que nos permite ter certeza de que as mudanças necessárias a essa nova fase da historia da Nicarágua vão-se produzir no seio desse mesmo povo.

Outros ensinamentos importantes ainda a conquistar são as necessidades de transformações que devem existir na consciência, não somente nas instituições, no poder conquistado. Antes, tem que se garantir sua permanência na consciência do povo. Essa convicção é que nós não conseguimos acumular o suficiente. Tivemos que enfrentar muito cedo uma guerra de agressões muito duras, e isso afetou os níveis de resistência popular que, no final, terminou na derrota eleitoral dos anos 90. Ou seja, como experiência importante, faltou desenvolver melhor este impulso de trabalho de consciêntização e de afirmação política-ideológica no povo, que poderia ter resistido por muito mais depois dos anos 90.


CM – Por que você entrou na Frente Sandinista e como você avalia sua participação no FSLN, e os motivos de sua saída?
MB - Veja, nossa participação na Frente Sandinista vem desde jovens, quando tínhamos 16, 15, 14 anos. E, quando Carlos Fonseca fundou a FSLN, criou-a como instrumento de mudanças. Não é somente, dizia Carlos, que ‘temos que sacar a ditadura do poder’. Dizia ele que “não se trata somente de mudança de homens no poder, se trata de mudar as estruturas injustas, estruturas econômicas e sociais que existem na Nicarágua”. Não era mais um assunto de acabar com a ditadura e colocar outro governo. Tatava-se de mudanças mais profundas. E esse era o sentido de se ter uma organização revolucionária, que se construiu como vanguarda popular, para guiar, para orientar, para servir todo o povo da Nicarágua. Por isso, quando nos incorporamos, fomos não somente para derrotar a ditadura, mas para realizarmos mudanças econômicas e sociais. Alguns tinham mais consciência que este modelo é o modelo capitalista, outros, todavia, não chegaram a se situar na raíz dos principais problemas do país, no modelo capitalista de denominação. Orientaram-se somente pela superestrutura, pelo aparato de poder, pela gestão das instituições. Mas uma parte importante da FSLN tomou consciência da importância de lutar contra o modelo capitalista.

O que aconteceu é que esse instrumento, esta organização, chamada Frente Sandinista, que foi primeiro uma organização guerrilheira, passou a ser uma organização no poder, e depois da derrota eleitoral teve mudanças muito dramáticas que nos levaram a afirmar que uma base, uma parte importante da base sandinista, seguiu sendo uma base revolucionária, seguiu sendo uma base com aspirações de mudanças mais profundas. A direção do movimento sofreu transformações, uma parte dela transformou-se em empresários, donos dos meios-de-produção e políticos ao estilo tradicional. Portanto seu trabalho, sua ênfase, passou a ser o controle de espaços de poder. Mas não para o benefício da população, mas sim para o benefício de grupos minoritários, dominantes econômicos, que estão utilizando a FSLN como uma escada para atingir suas ambições pessoais. Por isso, dizemos que esta não é mais a FSLN que Carlos Fonseca fundou. Converteu-se num partido tradicional que defende interesses de grupos minoritários, que conserva um discurso revolucionário e, no qual, alguns possuem um discurso bem populista, mas cuja ação política, na prática, difere muito destes discursos. E cada vez mais atuam com uma ação mais de direita. E, desgraçadamente, a maioria da base sandinista não compreende assim, não tem entendido assim. Nós temos feito uma política de denúncia, diferente, sobre essas irreflexões que tem sofrido a direção do movimento.

Tampouco temos a capacidade de organizar e fazer consciência massiva destas mudanças, destas mutações que existem no país. De alguma maneira, todavia, as correlações social e política favorecem de um lado a direita - que segue tendo importante influência sobre o povo, agora muito afirmada nas idéias religiosas mais atrasadas – e, por outro lado, a Frente Sandinista que tão pouco faz trabalho político, que tão pouco faz trabalho ideológico, e mais se preocupa em abraçar idéias religiosas, conservadoras. Então, temos um povo que, podemos dizer, tem sofrido sua própria involução e que tem retrocedido das convicções, da consciência que conseguiram obter na mesma revolução. E, então, temos uma correlação social que, no caso da Nicarágua, possui um panorama desfavorável para as mudanças e idéias transformadoras e também para as idéias revolucionárias.

As idéias revolucionárias, agora, são de grupos muito pequenos. Apostamos de novo na retoma do trabalho de consciência e, por isso, muitos de nós nos retiramos desta Frente Sandinista, mas não do sandinismo, não das idéias que encarnam o sandinismo do Sandino e de Carlos Fonseca, dos fundadores, mas sim da Frente Sandinista como instituição, como aparato que, na nossa visão, não representa mais as idéias de progresso e de mudanças pelas quais, alguma vez, lutou no passado.

CM – Quem foi Herty Lewites? O que mudou na estrutura da Frente Sandinista quando Herty Lewites buscou uma possível candidatura para presidência?
MB - Herty Lewites pertencia a grupos mais moderados da Frente Sandnista, não era um homem com idéias radicais e revolucionárias. No entanto, sendo alcaide de Manágua, conseguiu um grande respaldo das pessoas, então pensou que poderia postular-se candidato à presidência. E o que ocorreu foi que o expulsaram da Frente Sandinista, expulsaram aqueles que o haviam respaldado, gente com muita história na Frente Sandinista. Foi por isso que boa parte deles saíram e fundaram uma organização que se chama Movimiento por el resgate del Sandinismo, organização na qual estão muitos dirigentes históricos, comandantes da revolução, comandantes guerrilheiros, pessoas históricas da Frente Sandinista que pensam que, todavia, é possível, a partir do sandinismo, construir um força democrática tanto externa como interna, numa luta que hoje se distancia muito da que a Frente Sandinista propõe. Então, organizou-se um movimento eleitoral, um partido, e conseguimos levá-lo a candidato à presidência por um alinhamento de organizações sociais e também políticas. Desgraçadamente, Herty Lewites morreu um pouco antes de iniciar a fase culminante da campanha e isso nos afetou. Mas a figura de Herty Lewites contribuiu para o reagrupamento de uma grande quantidade de sandinistas que se sentiam decepcionadas, inativos e, com ele, estávamos apostando na construção de uma nova força. Tocou-nos trabalhar no campo mais difícil para a construção de uma força revolucionária, que era o campo eleitoral, porque o campo eleitoral tem sua própria dinâmica que eu diria diversionista. Mas muito de nós apostamos que essa força que se animou com a luta eleitoral seria capaz de unir-se para outra batalha, a batalha de mudança de transformação que a Nicarágua necessita, e que prossegue e que envolve mais gente agora com a vitória da Frente Sandinista, pois há uma parte das pessoas que tem espectativa que, com a Frente Sandinista no poder, comecem a surgir solução para muitos problemas econômicos e sociais da população.

Então, o que irá suceder? No meu ponto de vista, a Frente Sandinista como está, com o grupo de poder dominante, com as medidas que tem tomado, que estão orientadas fundamentalmente a ficar de bem com o capital, com organismos finaceiros internacionais, com grupos econômicos nacionais, terá dificuldades para cumprir com o verdadeiro anseio das pessoas. Acreditamos que, com isso, abra-se a possibilidade de uma reativação das organizações sociais que consigam romper suas dependências míticas, psicológicas dessa organização chamada Frente Sandinista. Dependência que tem levado a uma fase de grande inatividade e de uma grande cooptação. O movimento popular nicaragüense que não está lutando pelas pessoas, está desmobilizado, está inativo, por isso eu acredito que a vitória da Frente pode gerar um movimento popular que se ative muito mais pela conquista de suas reivindicações e com eles lutem um pouco mais e resistam mais ao neoliberalismo, o que tem sido feito agora pelo movimento popular nicaraguense.


CM – Por que se cria o Movimento Renovador Sandinista, quais são seus valores e se acredita que foi um novo grupo da esquerda nas eleições de 2006?
MB - O Movimento Renovador Sandinista chamou-se assim desde o ano de 1995, e surgiu como uma bandeira de democracia interna. No entanto, muito de nós que permanecemos na Frente não compartilhamos todos os enfoques do MRS. Víamos o MRS como uma organização que atendia uma posição de centro e posições mais sociais democratas que ao nosso julgamento não correspondiam às necessidades de uma organização mais de esquerda na Nicarágua. Então, o MRS teve uma primeira fase que muito de nós não apoiamos. Mas, para esta eleição última, nós tivemos que utilizar um movimento que tivesse personalidade jurídica e por isso estivemos junto com o MRS. Agora, todos os sandinistas que se incorporaram a esta aliança estamos pensando que é necessário realizar um processo de refundação do MRS e que esse processo passa pela revisão de sua proposta programática e de seu planejamento. Nós pertencemos a um grupo que se chamava esquerda democrática dentro da Frente e queremos, dentro do MRS, levá-lo a posições mais de esquerda. Mas essa é somente uma de nossas tarefas, porque eu pessoalmente cheguei à conclusão de que os partidos políticos são somente uma das maneiras de lutar pelas mudanças. Eu penso que tão ou mais importante do que a força partidária e do que os partidos políticos - os quais, em todos estes anos, têm mostrado sérias dificuldades de emcabeçar os movimentos de lutas de mudança - é a reativação em nosso país dos movimentos sociais, relançados como movimentos de resistência e de luta. Então, queremos trabalhar dentro do MRS aspirando à sua radicalização, mas não é nossa ênfase principal, nós acreditamos que, nessa etapa, muitos de nós devemos estar mais envolvidos com o resgate dos movimentos sociais, queremos desenvolver projetos de formação política, aspiramos ao desenvolvimento de uma espécie de escola política, de formação de lideranças populares que andam esvaziados de conteúdo porque não conhecem as lutas que estão acontecendo em outras latitudes da América Latina.

Necessitamos redescobrir novas formas de lutar, aspiramos também à conversão destes movimentos a um esforço que se vincule com a luta social. Esta tem sido nossa proposta dentro do movimento chamado Centro Renovador Sandinista, onde há uma variedade de pensamentos. Há, dentro do Movimento Renovador Sandinista, gente que pensa muito como sendo de centro, com pensamento muito moderado de centro, mas também vemos gente com muito maior compromisso social e pretendemos empurrar essa força política para posições um pouco mais radicais. Eu acredito que Ernesto Cardenal (leia entrevista aqui) que pertence ao Movimento Renovador é também um dos que pensam que deveríamos ter posições ideológicas muitíssimo mais radicais. Esta é uma luta que devemos realizar nos próximos meses.

CM – Quais foram os motivos que fizeram o MRS ter uma boa votação para um partido novo? Você acredita que Daniel ainda seja uma pessoa de esquerda?
MB - Daniel ganhou as eleições com o respaldo principalmente da base histórica sandinista. Nós atraímos para nossas posições a nossa força eleitoral, algo em torno de 25% dos sandinistas. Com os outros 75%, Daniel ganhou as eleições. E é por isso que, na votação total, chegou apenas a 38% do total. Por isso, acreditamos que a vitória de Daniel tem uma explicação muito importante: estamos sendo governados há mais de 16 anos por governos conservadres neoliberais, que têm piorado as condições de vida das pessoas. Víamos que, apesar da Nicarágua ter crescido, ter recebido 30 milhões de ajuda, não tem conseguido superar os níveis de pobreza. Há cinco, seis anos continuamos sendo um país em que 60% da população sobrevive com menos de 2 dólares diários. Isso explica porque uma parte importante dos cidadãos pensa que o Ortega ganhar representa uma esperança, com uma aspiração de que ele poderá enfrentar o problema da pobreza, da exclusão, da falta de emprego que há na Nicarágua e que tem feito imigrar quase 800 mil de uma população de 5 milhões de habitantes. 800 mil nicaraguense que tiveram que imigrar pra El Salvador, Costa Rica e EUA. É muita gente. Assim, a vitória de Daniel representa a necessidade, a ânsia, a esperança de uma parte dos cidadãos de que se possam resolver problemas econômicos e sociais muito graves que existem na Nicarágua esse é o desafio. Quantas dessas pessoas sabem que Daniel Ortega e seu grupo não são mais grandes revolucionários que muitos deles são neoliberais totais? Não era fácil explicar isso às pessoas, não era fácil. Sobretudo por uma razão: se forem perguntar às pessoas se Daniel Ortega é de esquerda, irão dizer sim, que Daniel Ortega é de esquerda. Mas as pessoas que se identificam com a esquerda representam menos de 7% da população. Ou seja, ser de esquerda na Nicarágua não é um valor positivo, pois esta posição está vinculada às ações de Daniel Ortega que, nos 10 últimos anos, tem cogovernado com os governos corruptos, neoliberais e compartilhado o poder na Suprema Corte de Justiça. Tem sido responsável por decisões judiciais aberrantes, ou seja, esses 62% que não votaram em Daniel Ortega não o vinculam a uma figura de esquerda positiva, a um conceito positivo de esquerda. Por isso eu digo que a situação da Nicarágua é complexa, porque o valor de esquerda está vinculada ao Daniel e o valor do Daniel não é um valor positivo. É um valor que, para um setor, recorda um passado vinculado à guerra, no qual se obteve conquistas positivas, mas, para outro setor, Daniel significa corrupção, pacto com os governos corruptos que não realizam a justiça social. Então é complicado explicar o que significa a vitória de Daniel Ortega na Nicarágua, é algo muito complexo e contraditório. Para a direita é negativo, mas para o setor importante do povo também é negativo. Então, terá que transcorrer um período em que as pessoas vejam como ele governa para compreenderem o processo a fundo, e que se possam abrir possibilidades da criação de uma nova esquerda, porque a esquerda, como valor, atualmente, está vinculada ao Daniel Ortega, o que não é um valor positivo.

(*) Latinautas é o apelido dado pela Carta Maior à equipe da expedição "Da América para as Américas", formada por Milena Costa de Souza, Pedro José Sorroche Vieira, Thiago Costa de Souza e Ligia Cavagnari. Eles atravessam as américas, passando por 17 países, percorrendo mais de 25 mil km em busca de uma identidade de resistência à hegemonia política, econômica e cultural exercida pelos EUA.

Leia o especial LATINAUTAS, com a íntegra dos relatos e comentários sobre a expedição "Da América para as Américas". (Leia aqui)


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