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Exército dos EUA alertou no início de fevereiro que o coronavírus poderia matar 150.000 norte-americanos

Enquanto o presidente ainda estava subestimando a epidemia do COVID-19, um breve relato do Exército, compartilhado com 'The Daily Beast', mostra a dimensão do número de mortes, que Trump agora admite, relatada em uma ordem de serviço

02/04/2020 16:03

(Ilustração de The Daily Beast/Getty)

Créditos da foto: (Ilustração de The Daily Beast/Getty)

 

Nesta semana, à medida que as mortes por coronavírus nos EUA subiam em espiral, superando os mortos nos ataques de 11 de setembro, a Casa Branca está admitindo que uma avaliação otimista deixará entre 100.000 e 240.000 norte-americanos mortos. Mas se a Casa Branca tivesse ouvido um aviso do Exército, quase dois meses atrás, poderia ter estimulado ações antecipatórias para evitar um surto que ameaça matar mais americanos do que entre duas a quatro guerras do Vietnã.

Um documento não classificado sobre o novo coronavírus, preparado em 3 de fevereiro pelo Comando Norte do exército dos EUA, projetou que "entre 80.000 e 150.000 poderiam morrer". O documento caracterizava a projeção como pertencente à categoria “Cisne Negro”, o que significa um evento fora dos padrões usuais e de consequências extremas, mas muitas vezes entendido como improvável.

Em outras palavras, as projeções do Exército, em 3 de fevereiro, para o pior cenário do surto de coronavírus tornaram-se, a partir desta semana, o melhor - se não milagroso – cenário.



Um mês após do relato do Exército, em 4 de março, o presidente Trump disse ao apresentador da Fox News, Sean Hannity, que a estimativa de mortes por coronavírus da Organização Mundial da Saúde de 3,4% era um "número falso", pois contradizia um "palpite" que ele tinha. "Não é tão grave", disse o presidente.

O documento chegou a altos níveis no Comando Norte dos EUA (Northcom), o comando militar responsável pelas operações na América do Norte, que ajudou nas primeiras ações das agências civis quanto à evacuação e quarentena dos norte-americanos no exterior.

O documento foi divulgado dois dias depois que o secretário de Defesa, Mark Esper, instruiu o Comando Norte a iniciar um "planejamento prudente" para sincronizar uma resposta militar a um surto doméstico de COVID-19. (Esse planejamento não "indicava uma maior probabilidade de um evento se desenvolver", assegurou um porta-voz do comando à época). Quatro dias antes de 3 de fevereiro, Trump proibiu os não-cidadãos dos EUA, que tivessem estado há pouco tempo na China, de entrar nos Estados Unidos.

O Daily Beast pode confirmar que o documento do exército foi visto pelo comandante do Northcom, Terrence O'Shaughnessy, bem como pela comandante do Exército-Norte, tenente-general Laura Richardson, quem compõe a principal força do comando. O relato também foi encaminhado para a sede do Departamento do Exército no Pentágono. O Chefe do Estado Maior do Exército, James McConville, e o Secretário do Exército, Ryan McCarthy, o receberam.

Mas não se sabe a amplitude da distribuição da estimativa de mortes feita pelo Exército. Os representantes de Esper [secretário de Defesa] e o presidente do Estado-Maior Conjunto, Mark Milley, não responderam às perguntas do site The Daily Beast. Tampouco responderam os representantes do Conselho de Segurança Nacional e da Casa Branca. A CIA e o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional recusaram-se a fazer comentários.

O'Shaughnessy, durante uma coletiva de imprensa na quarta-feira, não discutiu a avaliação, mas disse que ela refletia o planejamento para o "pior caso".

"Como seria de se esperar, fazemos muito planejamento militar, planejamos prudentemente as operações e, claramente, não vou falar sobre detalhes no nível operacional, nem sobre um plano operacional real ou um documento de planejamento" O'Shaughnessy disse quando o Daily Beast o questionou.

“A realidade é que é desejável que planejemos para os piores cenários, que planejemos o que acontecerá - pensando em todas as coisas, com menor ou maior probabilidade de acontecer, e é isso que estamos fazendo, não apenas nesse esforço em particular, mas em uma miríade de ameaças diferentes que enfrentamos no solo pátrio.”

Richardson, comandante do Exército-Norte, concordou, acrescentando: “Queremos pensar no que poderia ser o pior cenário, porque não queremos ser surpreendidos quando entrarmos no ambiente em que temos que operar."

A estimativa de óbito não foi a única parte do relato de 3 de fevereiro que se mostrou presciente.

A estimativa do cisne negro afirmou corretamente que pessoas assintomáticas podem "facilmente" transmitir o vírus – uma descoberta que não fazia parte do consenso médico daquele momento. É possível que as forças militares venham a ser encarregadas de fornecer logística e apoio médico a civis sobrecarregados, alertou o documento. Uma tarefa em potencial prevista foi “fornecer Equipamentos de Proteção Individual (máscara facial N-95, proteção para os olhos e luvas) para pessoas removidas, funcionários e pessoal do Departamento de Defesa”.

A estimativa também supunha que as infecções entre militares ocorreriam "na mesma proporção que a população". Em 31 de março, a taxa de infecção nas tropas ultrapassava a dos civis, segundo o Military Times.

Outra suposição pareceu muito otimista.

Um cenário “mais provável” sustentava que “os departamentos estaduais e locais de Saúde Pública, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), conseguissem rastrear, com sucesso, todos os casos de nCOV [novo coronavírus], dos EUA e Canadá, e conter a propagação do surto”. Fatidicamente, eles não o fizeram e agora os EUA são um dos epicentros do vírus.

Em janeiro, Trump tinha recebido avaliações das agências de inteligência dos EUA e de Alex Azar, secretário de saúde e serviços humanos, que alertavam que o COVID-19 seria uma séria ameaça, de acordo com The Washington Post.

Da mesma forma, o Comitê de Saúde do Senado recebeu um relato em 24 de janeiro, pouco mais de uma semana antes da avaliação do Exército. Embora não se saiba se o comitê recebeu estimativas de mortes, o briefing ocorreu pouco antes de um senador do comitê, Kelly Loeffler (R-GA), vender suas ações antes das quedas do mercado.

Antes e depois do Exército alertar sobre a próxima onda de morbidade, Trump insistiu publicamente que o novo coronavírus não era grande coisa e que sua resposta era adequada. No dia anterior à avaliação do Exército, Trump se gabou: "Nós praticamente bloquemos a vinda [do vírus] da China". Em 24 de fevereiro, ainda sem testes substanciais ou rastreamento de contatos, Trump tuitou: "O Coronavírus está sob controle nos EUA".

Em uma entrevista coletiva, dois dias depois, Trump garantiu que os 15 casos conhecidos de coronavírus nos EUA "em alguns dias serão reduzidos a quase zero, que é um trabalho bastante bom que já fizemos".

Da mesma forma, a resposta dos militares não refletiu a urgência do documento do Exército de 3 de fevereiro.

No final de janeiro, cinco dias antes da avaliação do Exército, o Pentágono concordou em colocar quarentena de americanos evacuados da China e de outros lugares em bases militares até 15 de fevereiro. No dia 3 de fevereiro, no mesmo dia do briefing, Esper aprovou um pedido adicional de assistência, feito pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) que estendeu o alojamento de indivíduos em quarentena até 29 de fevereiro.

No final daquele mês, quando o novo coronavírus se espalhou pela Itália, os funcionários dos EUA na base de Vicenza usada pelo Exército se aquartelaram. "Nos reunimos diariamente, minha equipe", para tratar do coronavírus, Esper disse em uma audiência no Congresso em 26 de fevereiro. Mas ele disse que não sabia se precisaria de financiamento adicional para responder ao vírus.

De fato, as principais respostas do Pentágono ao coronavírus - limitações de viagens militares e dependentes para o exterior, quarentenas de 14 dias para as tropas que retornassem do exterior, os preparativos de navios-hospitais militares e do Corpo de Engenheiros do Exército para reforçar os hospitais civis - começaram apenas em março. Não foi até a primeira semana de março que os militares receberam testes para o COVID-19.

Durante a epidemia, Esper e outros líderes seniores do Pentágono enfatizaram manter a prontidão para operações militares não relacionadas. No final de fevereiro, depois que as forças armadas da Coreia do Sul, aliadas dos EUA, foram tão fortemente afetadas pelo coronavírus, o cancelamento de um grande exercício, Esper garantiu: "Tenho certeza de que continuaremos totalmente prontos para lidar com qualquer ameaça que possamos enfrentar juntos". Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto, disse em 2 de março que o impacto nas forças armadas era "muito mínimo" e ele e Esper contavam com os comandantes para "tomarem boas decisões" sobre a redução do treinamento ou outros compromissos militares.

Sua priorização da prontidão, contrapartida com a ajuda na resposta ao coronavírus foi questionada na segunda-feira pelo comandante do porta-aviões dos EUA, devastado pelo COVID-19, Theodore Roosevelt, que defendia que o navio cessasse as operações e descarregasse sua tripulação em Guam para combater o surto. A liderança civil e militar da Marinha disse quarta-feira que agora está tendo "discussões" sobre como manter navios nos portos para evitar o próximo surto a bordo.

O breve relato do Exército em 3 de fevereiro também avaliou que até 80 milhões poderiam ser infectados, com 15 a 25 milhões exigindo cuidados, já que entre 300.000 e 500.000 indivíduos poderiam precisar de hospitalização.

No momento, mais de 173.000 pessoas nos EUA testaram positivo para o coronavírus, de acordo com The New York Times, embora os testes permaneçam mínimos. Um modelo do Institute for Health Metrics and Evaluation projeta a necessidade de 260.000 leitos hospitalares até o pico de meados de abril.

*Publicado originalmente em 'Dailly Beast' | Tradução de César Locatelli

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