Pelo Mundo

Expandindo a crise: a hora e a vez da Síria

30/06/2005 00:00

Ricardo Stucker/Radiobrás

Créditos da foto: Ricardo Stucker/Radiobrás

14 de fevereiro: fez-se noite sobre Beirute, embora fossem 13:00 horas. O chão tremeu, enquanto chovia vidro picado e incandescente, abrindo uma imensa cratera na rua em frente do Hotel St. George: um carro-bomba, com 300 quilos de explosivos, havia matado o líder da oposição Rafik al-Hariri.

A morte do ex-primeiro ministro e líder da oposição libanesa Rafik al-Hariri (60 anos) acrescentou mais um fator de alto risco ao cenário já explosivo do Oriente Médio. A chave de compreensão da tragédia libanesa remete diretamente para a presença da Síria no país dos cedros. Com 14 000 soldados, além de um atuante serviço de espionagem, e de alguns milhares de trabalhadores, a Síria - com quase 19 milhões de habitantes, pouco mais de 185 mil km2 e um PIB de quase US$ 20 bilhões, em 2001 – é o principal fator de poder na política libanesa.

Desde 1975 a Síria interviu na guerra civil libanesa, desencadeada pela exaustão do regime político criado ao fim do mandato francês, em 1947. Havia até então um difícil equilíbrio entre os grupos muçulmanos, cristão maronita e druzo (também muçulmano). A chegada de milhares de refugiados palestinos e os ataques constantes de Israel aceleraram a ruína do sistema político libanês, abrindo um largo período de instabilidade.

O papel da Síria
Com a invasão do Kwait pelo Iraque, em 1990, e a formação de uma larga coligação liderada pelos EUA, o governo de Damasco ensaiou uma nova política externa, acentuada. depois da primeira Guerra do Iraque, em 1991. Nesse mesmo ano deu-se a dissolução da URSS, o grande aliado de Damasco no Oriente Médio, que garantia apoio econômico e militar.

Hafez al Assad, o ditador em Damasco, passa a apioar a ação dos Estados Unidos e seus aliados contra Saddan Hussein. Expulsa do seu território importantes terroristas, como o colombiano Carlos, o Chacal, e o líder curdo Abdullah Ocalam. Ao mesmo tempo, iniciou esforços de liberalização econômica e de abertura ao Ocidente. Os Estados Unidos, por sua vez, aceitaram os termos de uma “paz síria”no Líbano, permitindo a pacificação do país, encerrando uma longa guerra civil (1975-1990), com a instalação de um governo pró-sírio em Beirute.

A Síria nunca aceitou o desfecho da época colonial dominada pela França, com a formação de dois estados (Líbano e Síria), exigindo a restauração da chamada Grande Síria da época dos califas de Bagdá. A França e, mais tarde os EUA, tornaram-se garantes da independência do Líbano, criando-se então uma forte tensão regional. A guerra civil libanesa foi vista, por Damasco, como uma oportunidade única para a restauração da Grande Síria.

Crise e Isolamento de Damasco
A doença constante do ditador sírio, bem como a eclosão da Segunda Intifada (2000-2005) e a ascensão de Bush ao poder paralisou a abertura do país. No mesmo ano do início da nova Intifada, em 2000, morre o ditador sírio Hafez al-Assad. Abriu-se assim a sucessão, com o aparato do partido do governo - o Partido Baath sírio, grande rival do Baath iraquiano – optando pela sucessão familiar, com a indicação de Bachir al-Assad – um culto médico formado em Londres filho de Hafez al-Assad – como novo presidente da Síria.

Tratava-se de evitar um amplo debate, ou mesmo um longo período de instabilidade política, num momento extremamente tenso na região, quando já se desenhava no horizonte a nova guerra no Iraque. Da mesma forma, temia-se uma explosão religiosa, posto que a cúpula do Baath sírio, e das forças armadas, é composta por alauítas – uma minoria xiíta de seguidores do imã Ali, considerado o fundador da dissidência xiíta no século VII – odiados pela maioria sunita do país. Durante o ano de 1982 a Fraternidade Muçulmana – uma antiga organização fundamentalista sunita de origem egípcia – organizou uma série de atentados contra o regime baasista e seus dirigentes alauítas.

A resposta foi uma brutal represália de al-Assad, que culmina no massacre de mais de 20 mil pessoas por parte das tropas governamentais. A partir deste momento, malgrado a brutal repressão de Damasco, o sunismo fundamentalista declarou guerra ao governo sírio, multiplicando suas ações visando desestabilizar o clã al-Assad. Em 2004 um grupo armado – segundo Damasco proveniente da Arábia Saudita, via Jordânia – tentou tomar o bairro das embaixadas, ocasionando uma longa batalha de rua bem no centro da capital síria.

O regime sírio, malgrado seu caráter ditatorial, distingue-se claramente dos regimes islâmicos radicais, por ser laico, auto-denominado “socialismo árabe”, aproximando-se destes apenas por sua oposição inflexível ao Estado de Israel. Neste sentido, Damasco apoiou, e mesmo ainda financia, organizações terroristas palestinas em luta contra Israel. Para Damasco estes militantes são considerados “resistentes”e não como “terroristas”. Particularmente ativo é o Hezbollah – o Partido de Deus, xiita, apoiado pelo Irã – que manteve uma ação continua de fustigamento dos israelenses na região sul do Líbano, ocupada por Israel. A intensa ação do Hezbollah acabou por levar a retirada unilateral das tropas israelenses do sul do Líbano em 2000.

Desde 1991, malgrado a aparente pacificação do Líbano, o país tornou-se um campo de enfrentamento entre Israel e Síria, com a multiplicação de ações que atentam contra a soberania libanesa, muitas vezes através de atores sobrepostos, como o Hezbollah.

O fator Hezbollah
Mesmo sem uma ressonância muito grande na imprensa ocidental, tal acontecimento – a retirada de Israel – tornou-se um marco na formulação política e no imaginário dos nacionalistas e fundamentalistas árabes, em especial os palestinos. Muitos resistentes – em especial no Hamas e na Jihad Islâmica – assumiram claramente a idéia de que a ação armada (mesmo que desigual ou assimétrica) poderia levar Israel à exaustão e redundar na expulsão dos ocupantes da Palestina. Assim, ao mesmo tempo que se dava uma angustiante paralisia das negociações de paz e a exaustão da Segunda Intifada (2000-2005), a ação do Hezbollah surgia como um caminho possível para vencer Israel.

Evidentemente os interesses em jogo são incrivelmente diferenciados, e embora Israel pudesse estar interessado em manter o controle da água no sul do Líbano (rio Wazzani), o preço da ocupação tornara-se por demais elevado. Assim, a ação do Hamas na Faixa de Gaza, com fustigamento permanente dos assentamentos judeus na região com mísseis manufaturados Qassan, obedece a uma lógica libanesa.

A chegada de Bush ao poder e sua política de Reconfiguração do Oriente Médio alterou de forma brusca o jogo de poder local. Ficou claro para os dirigentes de Damasco que o objetivo dos EUA consistia numa radical mudança de regimes, visando o Iraque, mas também o Irã e a própria Síria. O elemento em comum era, claro, a radical oposição contra Israel, o ativismo anti-americano e a impossibilidade dos EUA garantir o fluxo mundial de petróleo, num custo razoável para Ocidente.

Tais países, englobados no Eixo do Mal, radicalizaram suas posições face a uma provável intervenção americana. A Síria, durante as tensas negociações na ONU, entre janeiro e abril de 2003, apoiou fortemente o Iraque. Ao final do conflito, o então secretário de Estado, Colin Powell, acusou duramente a Síria de abrigar terroristas e de possuir (vocês acreditam?) armas de destruição em massa. Alguns, como o Secretério de Defesa, Donald Rumsfeld, acusaram a transferência das inencontráveis armas do Iraque para a Síria e, por um momento – durante a euforia curtíssima da vitória americana -, pensou-se em acabar a missão em Damasco.

Al-Hariri: uma carta americana?
A emergência da resistência iraquiana – inimaginável para os Estados Unidos até tornar-se óbvia – acabou por levar os americanos a acusar a Síria de abrigar “santuários”da resistência, além de fornecer armas e permitir a passagem dos combatentes iraquianos. Todas acusações sem provas, malgrado a excelência técnica da inteligência americana e do controle de terreno da inteligência israelense.

A bem da verdade, a Síria não se encontra preparada para enfrentar uma ação punitiva americana, não só não possui os meios militares e financeiros, como ainda não possui nada em comum com o tipo básico de combatente iraquino: sunita, clerical, fundamentalista. Bem ao contrário, o regime de Damasco é odiado pelos fundamentalistas e estaria na condição de “apóstata”, conforme a linguagem de bin Laden, Al Zarqaui ou do Mulá Omar. Assim, as acusações americanos denotam duas possibilidades: ou pura e simples má fé das autoridades americanas, do mesmo tipo usado para justificar a guerra contra o Iraque (armas de destruição em massa e ligações com a Al-Qaeda), ou bem péssima qualidade dos serviços de inteligência americanos.

A política de Reconfiguração do Oriente Médio formulada por Washington foi entendida, também, por outras forças políticas na região. Ariel Sharon, por exemplo, entendeu que seria o momento de por em prática uma política de força contra a resistência palestina, culminando em momentos dramáticos. Também no Líbano a oposição teve um entendimento especioso da nova política americana. Acreditou que os EUA pressionariam tão fortemente a Síria que esta, temerosa por sua própria sobrevivência, abria mão de seu controle sobre o país. Al-Hariri lançou-se, então, a uma campanha contra a presença síria, como ponto de partida de uma ação que permitiria aos interesses libaneses (do qual al- Hariri era um dos grandes representantes) nos setores imobiliários, financeiros e securitários desempenhar um largo papel num Oriente Médio reconfigurado conforme os interesses dos EUA e de Israel.

É neste contexto que deve ser analisada a brutal ação terrorista contra o ex-premier libanês.

Fabricando um culpado
Tanto os Estados Unidos, como Israel apressaram-se – ainda no dia do atentado – a declarar a ação como de autoria ou instigação de Damasco, abrindo uma nova porta para a generalização da crise no Oriente Médio.Claro que a Síria ocupa o Líbano, mantendo uma tutela que afronta a soberania nacional do país, inclusive contrariando a Resolução 1559, da ONU (exigência da retirada de tropas estrangeiras do país). Contudo, o que poderia levar Damasco a um passo tão arriscado, num momento em que estava sob pressão direta dos Estados Unidos e do Conselho de Segurança da ONU?

Para a Síria, os seus interesses estratégicos implicariam em manter uma significativa presença no Líbano, de forma efetiva e discreta, evitando chamar a atenção internacional para suas tropas ou atrair a ira popular libanesa contra os ocupantes. A bem da verdade, uma parcela ponderável da população libanesa – preocupada com as ameaças constantes de invasão de Israel e da ação dos cristãos maronitas – a presença síria era bastante bem-vinda. O atentado seria desta forma um verdadeiro suicídio estratégico de Damasco, contrariando o costumeiro maquiavelismo baasista.

Assim, uma ação tão brutal como o assassinato de al-Hariri, deveria obedecer a outros interesses. Quais? Evidentemente devemos descartar a conexão israelense. Israel poderia fazê-lo; tinha os meios, a experiência e possivelmente já o fez anteriormente. Contudo al-Hariri poderia vir a ser uma carta importante no plano de Reconfiguração do Oriente Médio, proposto por Washington, e do qual Israel é um dos principais beneficiários.

Assim, descartam-se os suspeitos de sempre (de um lado e de outro das forças em presença, Síria e Israel). Quais outros atores poderiam ser os protagonistas do drama de Beirute?

Teríamos que nos voltar para aqueles com os maiores interesses em simultaneamente levar o Líbano pacificado à beira de nova guerra civil, colocar Damasco na mira de Washington, abrindo um novo campo de guerra no Oriente Médio e enterra ainda mais os americanos numa guerra assimétrica. Neste caso, estaríamos face aos velhos inimigos do Baath sírio (tal qual foram inimigos do Baath iraquiano): o fundamentalismo sunita. 

Sintomaticamente foi a tevê Al-Jazzeera, a mesma que regularmente tem acesso aos vídeos e fitas da resistência iraquiana e da Al-Qaeda, que divulgou um vídeo no qual uma organização até então desconhecida - Brigada para a Defesa e a Guerra Santa no Levante, sunita e fundamentalista – assumiu a autoria do atentado. Seu porta-voz, Ahmed Abu Adef, mencionou claramente a “ajuda”de nossos irmãos mujahedeens da Arábia Saudita, utilizando o mesmo jargão do Ansar el-Islan ou da Al-Qaeda: ...este é apenas o início de muitas operações de martírio contra os infiéis e apóstatas no Levante.

Somente uma grave cegueira por parte dos EUA (e de Israel) poderia levar a descartar a conexão islâmica do atentado. Para as redes terroristas islâmicas, a extensão da Jihad por todo o Oriente Médio e Ásia Central é o único caminho para evitar a concentração da guerra no Iraque, onde americanos possuem o seu maior e mais forte esquema militar, expandindo o conflito até engolfar toda a região. Ao multiplicar as ações em diversos países – tal como o voluntarismo marxista dos anos ’60 falava em “um, dois, três Vietnães” – o fundamentalismo armado islâmico fala em “um, dois, três Afeganistães”.

Hoje, já se luta da fronteira da China Popular (Xinjiang e Caximira), no Uzbequistão, Quirguízia, Afeganistão, Baluchistão (sul do Paquistão); Tchechênia, Abkhazia, Iraque, Palestina e agora no Líbano. Os reflexos atingem, ao norte, da Turquia até o sul da Rússia, Bósnia e Kossovo; ao Sul, o islamismo militante ameaça o Egito, a Arábia Saudita e o Sudão formando, ao longo da Ásia Central até o Mediterrâneo, um longo arco das crises e da instabilidade, que coincide largamente com as maiores jazimentos de petróleo e gás natural do planeta.

Assim, escolher a Síria como o próximo alvo pode acelerar a desestabilização de toda a região, transformando o país – hoje uma ditadura laica, alvo e resistente frente à maré islâmica – em um campo de proliferação do terrorismo. Sem dúvida, no meio da tsunami, o Líbano seria arrastado na enxurrada. Em fim, seria “um, dois, três Iraques”.

* Francisco Teixeira, colunista da Agência Carta Maior, é professor titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade do Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


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