Pelo Mundo

Explicando o drama TikTok-Microsoft-Trump

Trump diz que não vai banir o aplicativo - por enquanto - porque ele está aberto à opção de a Microsoft comprar o aplicativo.

04/08/2020 13:33

O presidente Donald Trump deve emitir uma ordem obrigando o aplicativo de mídia social TikTok a vender suas operações nos EUA. (Anna Moneymaker/Getty Images)

Créditos da foto: O presidente Donald Trump deve emitir uma ordem obrigando o aplicativo de mídia social TikTok a vender suas operações nos EUA. (Anna Moneymaker/Getty Images)

 

O presidente Trump não tentará banir o TikTok nos EUA - pelo menos por enquanto. Na segunda-feira, ele inverteu sua posição sobre o popular aplicativo de streaming de vídeo e disse em uma coletiva de imprensa da Casa Branca que, em vez de bani-lo, ele permitiria que uma empresa sediada nos EUA comprasse o aplicativo.

"Não me importo se - seja a Microsoft ou outra pessoa - uma grande empresa, uma empresa segura, uma empresa muito americana, o compre", disse Trump sobre o TikTok. Trump também alertou que o TikTok estará "fora do mercado dos Estados Unidos" até 15 de setembro se não chegar a um acordo para vender a empresa até lá.

Embora o TikTok, que pertence à empresa chinesa ByteDance, seja mais conhecido como um lugar onde os adolescentes compartilham vídeos musicais curtos e muitas vezes leves, tornou-se o centro de controvérsias geopolíticas entre os EUA e a China sobre o poder tecnológico.

Durante meses, Trump e outros políticos, dos dois partidos, têm periodicamente levantado preocupações sobre o TikTok como uma potencial ameaça à segurança nacional, preocupados que a empresa-mãe chinesa do aplicativo possa censurar conteúdo nos EUA ou acessar dados confidenciais dos usuários norte-americanos a mando do Partido Comunista Chinês.

A empresa negou veementemente essas acusações. Mas relatos no ano passado mostraram a falta de conteúdo do TikTok sobre assuntos controversos com o governo chinês — como vídeos dos protestos de Hong Kong. Esses relatórios alimentaram as suspeitas do governo dos EUA de que a empresa seja influenciada pelo governo chinês, especialmente porque a China vem expandindo seu estado de vigilância nos últimos anos e as relações diplomáticas EUA-China tornaram-se mais tensas.

Nos últimos dias, o TikTok reentrou nos holofotes quando Trump disse a repórteres, na noite de sexta-feira (31/7) que planejava banir "imediatamente" o aplicativo — dizendo que o faria usando poderes econômicos de emergência ou uma ordem executiva.

Mas se livrar de um aplicativo usado por cerca de 100 milhões de norte-americanos não é fácil, mesmo que você seja o presidente. De acordo com uma reportagem do New York Times, depois que os assessores de Trump o convenceram de que uma ação executiva para banir o TikTok enfrentaria consequências legais e políticas, Trump concordou que, em vez de emitir uma proibição, permitiria que a gigante de tecnologia Microsoft continuasse suas conversas anteriores para comprar o TikTok, que supostamente estaria em andamento há semanas. Como a Microsoft é uma empresa sediada nos EUA, a ideia é que, se a Microsoft assumisse o controle, garantiria que todos os dados de usuários do TikTok fossem armazenados nos EUA, seguros dos olhos potencialmente curiosos do governo chinês. O CEO da Microsoft, Satya Nadella, falou com Trump sobre o caso no fim de semana, de acordo com uma publicação no blog da Microsoft publicado na noite de sábado, e concordou em chegar a um acordo — ou não — até 15 de setembro.

Aqui está um resumo da recente controvérsia em torno do TikTok e o que se espera que aconteça a seguir:

Os problemas políticos do TikTok

O TikTok enfrenta intenso escrutínio político há meses, muito antes do último pedido de proibição de Trump.

Os republicanos intensificaram seus ataques ao TikTok neste verão, com algum apoio bipartidário dos democratas também. Quinta-feira passada, os Senadores Richard Blumenthal (Democrata-Connecticut) e Josh Hawley (Republicano-Missouri) enviaram uma carta ao Departamento de Justiça exigindo que a agência abrisse uma investigação sobre o TikTok e o Zoom sobre violações relatadas das "liberdades civis dos norte-americanos" e preocupações de segurança nacional sobre as relações entre essas empresas e a China. A isso se seguiram declarações, em julho, de Trump e do secretário de Estado Mike Pompeo, em que ambos disseram que o governo Trump estava considerando banir completamente o TikTok.

No último ano, especulou-se que o aplicativo estivesse sob revisão do governo por razões de segurança nacional. O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, confirmou na semana passada, e disse que espera que a revisão seja concluída em breve. O comitê governamental responsável por esta revisão, o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS), tem o poder de recomendar ao presidente que obrigue o TikTok a vender a operação norte-americana para uma empresa dos EUA.

Mesmo que Trump não emita uma proibição total, uma decisão do governo que force a empresa-mãe do TikTok a vendê-lo seria um divisor de águas para a indústria de mídia social, e ameaçaria interromper a extraordinária popularidade do aplicativo. E para os gigantes de mídia social estabelecidos Facebook e Google, a decisão poderia enfraquecer significativamente seu novo concorrente mais feroz.

Uma venda forçada do TikTok pode ter consequências negativas para outras pessoas, além das que dirigem o TikTok, também. A mudança ameaça comprometer o sucesso de um aplicativo que teve uma ascensão meteórica, ao se transformar, de um relativo azarão, em um dos aplicativos mais baixados do mundo. E como o TikTok é uma das únicas startups recentes de mídia social a competir com gigantes da tecnologia como o Facebook, enfraquecer o TikTok poderia concentrar ainda mais o poder entre alguns gigantes da tecnologia nos EUA.

"Embora não comentemos rumores ou especulações, estamos confiantes no sucesso a longo prazo do TikTok", disse um porta-voz da empresa à Recode na sexta-feira, acrescentando que a empresa está "comprometida em proteger sua privacidade e segurança à medida que continuamos trabalhando para trazer alegria às famílias e carreiras significativas para aqueles que criam em nossa plataforma".

Como uma venda funcionaria

Você pode estar perguntando como Trump pode forçar uma empresa tão popular como o TikTok a se vender, ou ir tão longe quanto tentar bani-la. A resposta é complicada e burocrática.

Para forçar uma venda, Trump poderia emitir uma ordem para a ByteDance se desfazer do TikTok através do CFIUS, um comitê interagências que revisa aquisições estrangeiras e investimentos em empresas dos EUA que podem ameaçar a segurança nacional. O comitê, presidido por Mnuchin, tem o poder de bloquear ou reverter fusões e aquisições envolvendo empresas americanas e estrangeiras.

Cada vez mais, a agência vem exercendo sua autoridade sobre empresas de tecnologia estrangeiras que operam nos EUA. No ano passado, o CFIUS ajudou a bloquear um dos maiores negócios da história da tecnologia, depois que Trump seguiu suas recomendações para impedir a Broadcom, com sede em Cingapura, de adquirir a empresa de semicondutores norte-americana Qualcomm. O comitê também forçou os proprietários chineses a se desfazerem do aplicativo de namoro Grindr e da startup de saúde PatientsLikeMe.

Mas como o membro da Brookings Institution, Geoffrey Gertz, escreveu, as empresas de tecnologia nem sempre foram alvo do CFIUS. No passado, o comitê "tendia a se concentrar em empresas com conexões militares ou de inteligência", mas, mais recentemente, dados pessoais e propriedade intelectual de alta tecnologia tornaram-se um foco maior para o comitê.

No ano passado, a CFIUS começou a investigar a ByteDance, que havia comprado a plataforma chinesa de vídeo de sincronia labial Musical.ly em 2017 e, em seguida, renomeou e lançou um aplicativo semelhante nos EUA sob o nome TikTok. Quando essa investigação chegar ao fim, as recomendações do comitê supostamente levarão à ordem de Trump para que a ByteDance venda o TikTok ou desista de suas operações nos EUA.

Não está claro como a CFIUS imporia um possível desenrolar da ByteDance e do TikTok, mas no ano passado, o comitê emitiu uma multa de US$ 1 milhão a uma empresa não revelada por não seguir adiante com um acordo de mitigação, sua primeira penalidade desse tipo. Também poderia multar o TikTok — ou Trump poderia continuar a enviar ameaças de banir completamente o TikTok, não se importando com o quanto o processo seja legal ou politicamente controverso.

Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, Trump disse que quem acabar sendo dono do TikTok deve pagar ao Departamento do Tesouro do governo dos EUA uma "quantia substancial de dinheiro" como parte do acordo. Como alguns apontaram, incluindo Dan Primack, da Axios, os comentários de Trump podem estar "escorregando para muito perto do anúncio de uma extorsão". Não está imediatamente claro como Trump tentaria garantir que o governo dos EUA recebesse uma parte da venda ou se é até mesmo legal fazer isso.

O que vem depois

Se a Microsoft ou outra grande empresa dos EUA comprar o TikTok, é provável que a empresa, como a conhecemos, permaneça em grande parte inalterado.

O TikTok é uma marca valiosa em uma indústria lucrativa com uma base de usuários maciça e dedicada — portanto, para a Microsoft, comprar o TikTok seria uma oportunidade de competir seriamente com outras grandes empresas de tecnologia como Facebook e Google no espaço de mídia social.

A Microsoft também tem experiência quando se trata de comprar empresas já bem sucedidas e permitir que elas mantenham sua independência — como aconteceu quando adquiriu a plataforma para desenvolvedores de software, o GitHub, em 2018, e o videogame Minecraft em 2014.

Dependendo da forma como a Microsoft optar por operar o TikTok - se o adquirir - o aplicativo poderá continuar a crescer e, com o apoio de uma grande empresa de tecnologia dos EUA, poderá levar mais a sério a competição com outras empresas de mídia social, incluindo o Facebook. A Microsoft não é o único comprador em potencial — outras empresas podem tentar comprar o TikTok ou compartilhar a propriedade. Segundo o Wall Street Journal, a Microsoft pode convidar investidores externos a se juntarem a eles no negócio.

É muito cedo para dizer o impacto que uma venda teria na popularidade e crescimento do aplicativo. Mas enquanto isso, há muitas piadas do Clippy para se fazer.

Na segunda-feira, um porta-voz do TikTok disse à Recode em um comunicado que a empresa está "comprometida em continuar a trazer alegria às famílias e carreiras significativas para aqueles que criam em nossa plataforma à medida que construímos o TikTok a longo prazo. O TikTok estará aqui por muitos anos."

*Publicado originalmente em 'Vox' | Tradução de César Locatelli

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