Pelo Mundo

Fantasma da crise social volta a assombrar a Argentina

25/08/2004 00:00

Porto Alegre - Após um período de relativa trégua entre o governo de Néstor Kirchner e os movimentos de trabalhadores desempregados, nas últimas semanas o clima político vem esquentando na Argentina com o crescimento de protestos de ruas em Buenos Aires e em outras cidades do país. Apesar de apresentar alguns indicadores positivos nos últimos meses, a economia argentina não vem conseguindo dar conta do grave problema de desemprego no país. Os números do quadro de pobreza no país continuam eloqüentes e graves. Para piorar, nas últimas semanas, os argentinos começaram a se defrontar com um novo problema: os cortes de energia elétrica, que lembram o período dos apagões vividos no Brasil durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Uma pesquisa divulgada terça-feira mostra bem o tamanho do problema. A distância entre ricos e pobres na Argentina aumentou 34,4 vezes nos últimos 30 anos, conforme levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). Na capital argentina e na região da Grande Buenos Aires, área mais povoada do país com cerca de 12,5 milhões de habitantes, 1 milhão e 833 mil pessoas vivem com apenas 46 pesos por mês (cerca de 15 dólares), enquanto 1 milhão e 703 mil vivem com 98 pesos mensais (cerca de 32 dólares). Esses números divulgados pelo Indec correspondem ao último trimestre de 2003.

O levantamento também registrou a desigualdade na distribuição de renda no país. Cerca de 20% dos 4 milhões de famílias tem uma renda 23,8 vezes maior do que as 80% restantes. O Indec admitiu que essa diferença deve ser ainda maior, levando em conta o fato de que as famílias com maior poder aquisitivo declaram menos do que recebem, enquanto os mais pobres fazem o contrário, declarando mais do que recebem de fato, por sentirem vergonha da sua condição. Segundo o instituto, os indicadores sociais vem se deteriorando progressivamente no país, com o aumento do desemprego e do trabalho informal.

Exportações crescem, mas desemprego é de 20%
No mesmo dia em que o estudo do Indec era divulgado, o ministro da Economia, Roberto Lavagna, comemorava o crescimento das exportações argentinas. Após um período de sete anos de estagnação, as exportações do país devem crescer 28,8% em 2004 atingindo a casa dos 33,5 bilhões de dólares, um novo recorde. Segundo Lavagna, nos últimos 18 meses, cerca de 2.500 empresas passaram a vender seus produtos para o exterior, elevando o total de exportadores para 13.700. Os principais produtos dessa pauta são de origem agropecuária, como carnes processadas, e manufaturados industriais, setores que apresentaram crescimento de 60% entre janeiro e julho deste ano. A China foi apontada pelo ministro argentino como o mercado mais estratégico a ser conquistado, já que seu crescimento se reflete também no desempenho da economia mundial.

Esse desempenho, porém, vem junto com indicadores sociais alarmantes, conforme indica o levantamento do Indec. Os mais ricos têm uma renda 50 vezes maior do que os mais pobres. Cerca de 50% dos trabalhadores estão no mercado informal e mais de 70% deles têm rendimentos abaixo da linha da pobreza. O desemprego segue firme na casa dos 20%.

“Piqueteros” aumentam pressão
Esse quadro de instabilidade está levando o movimento dos "piqueteros" a intensificar suas mobilizações e pressões sobre o governo Kirchner. Nesta quarta-feira, o Bloco Piquetero Nacional inaugurou uma nova modalidade de protestos: acampamentos em frente às sedes de empresas. Programados para durar pelo menos 48 horas, acampamentos foram instalados diante dos prédios das empresas petrolíferas Repsol-YPF e Shell. As empresas energéticas privadas Edesur e Edenor também serão alvo do mesmo tipo de protesto. Os “piqueteros” pedem a restituição do direito à energia elétrica e o fim dos apagões que vêm afetando o país nas últimas semanas.

A Frente de Trabalhadores Combativos (FTC) também convocou uma grande manifestação na Praça de Maio para reivindicar a criação de "empregos genuínos", numa referência ao quadro de crescimento do trabalho informal e precário. Participam dessa mobilização, organizações como o Movimento Teresa Rodriguez (MTD), o Movimento Popular 29 de Maio (M29), o Movimento de Unidade Popular 20 de dezembro (MUP20), a Frente de Desempregados Unidos (FDU) e o MTD Unidade e Luta. Além de emprego e direito à energia, elas reivindicam também a universalização das políticas sociais e o aumento do volume de recursos destinados à assistência dos trabalhadores desempregados. A articulação de todos esses movimentos vem aumentando o nível das críticas ao governo Kirchner que, por sua vez, também vem reagindo com maior força aos protestos.

Prisão de Raul Castells
A rota de colisão entre o governo federal e esses movimentos ficou ainda mais forte nesta quarta com a prisão do líder "piquetero" Raúl Castells, na província de Santa Fé. Sua captura foi solicitada pela Justiça da província do Chaco, que o investiga por suposta prática de extorsão. Castells foi detido pela polícia no início da manhã, sem opôr resistência. Ele liderou a ocupação de uma empresa, na província do Chaco, que durou várias horas. Nesse protesto, os “piqueteros” conseguiram que a empresa pagasse 11 mil pesos, destinados a compra de alimentos, fato que originou a acusação de extorsão.

Ao saber da notícia, dirigentes do movimento piquetero anunciaram uma marcha à Casa Rosada (sede do governo argentino), para exigir que cesse o que considera ser uma perseguição política contra Castells. No início da semana, Castells havia acusado o presidente Néstor Kirchner de estar tramando a sua prisão. Outros três líderes “piqueteros”, também acusados de extorsão, compareceram à Justiça para se defender da acusação. Castells recusou-se a fazer o mesmo e acabou detido. Um porta-voz da Casa Rosada limitou-se a dizer que se trata de uma decisão da esfera da justiça e que o governo federal não tem nada a ver com a detenção do líder piquetero. O episódio, porém, acirrou o clima de conflito entre os “piqueteros” e o governo, o que deve se traduzir nas manifestações de prot


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