Pelo Mundo

Fascismo neoliberal e o crepúsculo do social

A adoção de Trump de um terror impensável assume um tom ainda mais oneroso quando a linguagem de desumanização e crueldade se materializa em políticas que têm o objetivo de eliminar nas pessoas qualquer senso de comunidade, senão da própria humanidade

27/09/2018 13:50

Donald Trump carrega dois bonés ao chegar no palco para um comício de campanha no Ford Center em Evansville, Indiana, em 30 de agosto de 2018 (MANDEL NGAN/AFP/GETTY IMAGES)

Créditos da foto: Donald Trump carrega dois bonés ao chegar no palco para um comício de campanha no Ford Center em Evansville, Indiana, em 30 de agosto de 2018 (MANDEL NGAN/AFP/GETTY IMAGES)

 

__________

∴ Leia mais no especial "Trump's Crisis"

__________

Os ataques cada vez mais perigosos e incendiários de Donald Trump à mídia, seu empenho em separar crianças de seus pais na fronteira sul, seus esforços para retirar a cidadania de cidadãos naturalizados e deportar cidadãos dos EUA sob a alegação infundada de que teriam certidões de nascimento falsas, e suas incansáveis tentativas de pressionar o procurador geral Jeff Sessions e outros para que obstruam o estado de direito, tudo isso junto equivale a uma tomada ilegal do poder que está levando os EUA ainda mais em direção ao abismo do fascismo.

Os horrores do fascismo do século XX surgiram novamente nos Estados Unidos, mas menos como um aviso sobre não se repetir os erros passados e mais como uma medida do quanto as lições da história se tornam irrelevantes. A política agora transita entre o que a filósofa Susan Sontag uma vez chamou de “banalidade incessante e terror inconcebível”. A “banalidade incessante” é evidente na torrente diária de tuítes irresponsáveis de Trump nos quais a linguagem torna-se uma arma para caluniar, humilhar e demonizar autoridades do governo, jornalistas e meios de comunicação críticos. Uma banalidade maldosa também está presente em sua estigmatização de imigrantes não documentados, chamando-os de “assassinos e ladrões”, “estupradores” e criminosos que querem “infestar nosso país”.

Há mais acontecendo aqui do que o uso de linguagem grosseira ou a demonstração sem precedentes de incivilidade por um presidente em exercício; há também um flerte com a violência, com a retórica da supremacia branca e com a linguagem de expulsão e eliminação. A adoção de Trump de um terror impensável assume um tom ainda mais oneroso quando a linguagem de desumanização e crueldade se materializa em políticas que têm o objetivo de eliminar nas pessoas qualquer senso de comunidade, senão da própria humanidade.

Tais políticas são evidentes na sistêmica política de “tolerância zero” de Trump, agora revogada, que separa à força crianças imigrantes de seus pais e as encarcera em gaiolas semelhantes a prisões onde muitas delas foram abusadas física e sexualmente. Esses ataques não foram limitados a crianças. Aida Chavez relata no The Intercept que assédios tanto físicos quanto sexuais a imigrantes em centros de detenção tornaram-se o lugar-comum e são documentados por uma série de fontes confiáveis. Por exemplo, o The Intercept obteve registros públicos que revelam que mais de 1.000 reclamações foram feitas sobre abuso sexual em instalações de detenção de imigrantes. A natureza e escopo sistêmico da violência e abuso sexual também aumenta o reino de terror infligido aos imigrantes nas mãos dos agentes da Imigração e Alfândega dos EUA. O escritório do Procurador-Geral recebeu mais de 33.000 reclamações aterrorizantes de imigrantes feitas contra a Imigração e Alfândega, revelando os fundamentos e a arbitrária ilegalidade de um Estado policial fascista. A senadora Kirsten Gillibrand chamou a Imigração e Alfândega de “força de deportação” e junto com vários políticos proeminentes, como o prefeito de Nova York Bill de Blasio, defendeu que deveria ser abolida. Cynthia Nixon, a personalidade progressista que entrou na corrida para o governo de Nova York, chamou a Imigração e Alfândega de “organização terrorista” e insistiu em sua extinção.

A propensão de Trump para a crueldade também está completamente manifesta em sua remoção do status temporariamente protegido de centenas de milhares de refugiados de El Salvador, Honduras e Haiti, assim como sua revogação de proteções “para 800.000 jovens imigrantes não documentados, conhecidos como Sonhadores”. E fica ainda pior: o governo Trump defendeu privar imigrantes sem documentos do devido processo e ameaçou deportá-los imediatamente assim que cruzarem a fronteira “sem um julgamento ou um comparecimento frente a um juiz”.

O grau de transparência do racismo de Trump é ainda mais bem definido em seu plano de punir imigrantes legais por aceitarem os benefícios públicos aos quais têm direito, como auxílio-alimentação e moradia pública. Além disso, sua regra permitiria que autoridades federais revogassem o status de residente legal de imigrantes que aceitassem essa assistência. A força impulsionadora por trás desse movimento anti-imigrantes no governo Trump é o linha-dura e simpatizante da supremacia branca Stephen Miller, que se regozija em propor legislações que fazem com que seja “mais difícil para imigrantes legais tornarem-se cidadãos ou conseguirem green cards se já tiverem em algum momento usado uma gama de programas populares de bem-estar social público, incluindo o Obamacare.”

Uma legislação que nega a cidadania para imigrantes porque recebem assistência pública revela um nível de violência do Estado, se não uma forma de terrorismo doméstico, que cada vez mais caracteriza o massacre das políticas de Trump. Mais recentemente, ele sugeriu a existência de pena de morte para traficantes de drogas, um plano inspirado na guerra às drogas do presidente filipino Rodrigo Duterte, o que resultou em mortes de mais de 20.000 supostos usuários e traficantes de drogas desde 2016, muitos dos quais vivem em comunidades pobres.

Enquanto isso, como parte de seu ataque mais amplo à vida humana e às condições que a tornam possível, Trump reduziu muitas das políticas da era Obama projetadas para refrear a mudança climática; ele reverteu proteções ambientais, como o banimento de pesticidas em refúgios de vida selvagem, e desmantelou regras federais que regulam plantas de carvão estadunidenses, que são “projetadas para limitar as emissões de dióxido de carbono e metano a partir do carvão, que contribuem para a mudança climática”.

Em um caso que destaca a guerra de Trump contra a juventude e suas tentativas constantes de destruir as ligações sociais que mantêm a democracia, o governo dos EUA tentou acabar com uma resolução baseada em pesquisas científicas da Organização Mundial da Saúde da ONU que encorajava a amamentação. Apoiando os interesses de fabricantes de leite artificial, autoridades estadunidenses primeiramente buscaram usar uma linguagem que “diluiria” a resolução. Quando isso fracassou, eles ameaçaram países menores como o Equador para que demonstrem apoio. Patti Rundall, uma diretora de políticas que apoia a resolução, observou que as ações tomadas pelo governo Trump eram “equivalentes a chantagem”. O criticismo de Rundall torna-se ainda mais alarmante quando se considera que um estudo de 2016 publicado na The Lancet documentou como a “amamentação universal preveniria 800.000 mortes infantis por ano por todo o globo e causaria uma economia de 300 bilhões de dólares devido à redução de custos de assistência médica e a resultados econômicos melhores para aqueles que foram criados com leite materno”.

Violência lenta, violência rápida

O discurso e as políticas de Trump representam um ataque profundo aos valores coletivos cruciais para uma democracia e apresentam uma agressão constante não só às instituições econômicas e políticas, mas também à cultura formativa, às fundações públicas e aos aparatos sociais necessários para criar cidadãos criticamente ativos e engajados. O ataque de Trump às obrigações sociais, à responsabilidade social e ao tecido social é um elemento fundamental de seu casamento com o fascismo neoliberal. Esse novo arranjo político opera em sua forma mais letal como uma forma de “violência lenta”, que o acadêmico da Universidade de Princeton, Rob Nixon, define como sendo “uma violência que ocorre gradualmente e fora de vista, uma violência de destruição atrasada que é espalhada pelo tempo e espaço, uma violência de atrito que tipicamente nem é vista como violência”.

A “violência lenta” destrói as culturas formativas que tornam o sofrimento humano visível, encobre impulsos autoritários por trás de pedidos por grandiosidade nacional, e expõe o perigo de trocar a liberdade por segurança. No cerne desta violência, que foi intensificada sob o fascismo neoliberal, está um ataque àquelas forças sociais que defendem o Estado de bem-estar social e se envolvem em uma batalha constante para tornar concretas as possibilidades do socialismo democrático. Sob o fascismo neoliberal, o chauvinismo e o militarismo trabalham de mãos dadas com o endurecimento da cultura, com o desencadeamento de forças de um interesse próprio brutal e com um crescente analfabetismo que prejudica tantos os valores públicos quanto uma luta coletiva contra o que o sociólogo C. Wright Mills uma vez chamou de “uma política de irresponsabilidade organizada”. A “violência lenta” é difícil de medir porque está frequentemente escondida sob políticas que promovem o que pode ser chamado de violência rápida.

A violência rápida vem como um golpe duro imediato, exibe o drama transformado em espetáculo dos tuítes imperiosos e ofensivos de Trump, e produz agressões de grande importância a instituição democráticas, como os tribunais, a mídia e o estado de direito. Tal violência abarca o teatral, alimenta-se do espetáculo e tem como alvo chocar intensamente. Um exemplo recente de violência rápida de políticas culturais foi o quase inimaginável anúncio do governo Trump de que Betsy DeVos, a Ministra de Educação, estava planejando — em um momento onde escolas carentes não têm os recursos e serviços de suporte mais básicos — usar fundos federais, reservados para programas de auxílio com foco em estudantes carentes, para treinar e armar professores, apesar da existência de uma política federal estabelecida que proíbe o uso de tais fundos para armar educadores. Evidentemente, a pauta escondida legitimada em sua política proposta é que as escolas frequentadas em grande parte por estudantes pobres são locais que lembram a guerra, que deveriam ser projetadas com inspiração no modelo de prisões, e que necessitam ser governadas com políticas de tolerância zero que frequentemente alimentam a canalização escola-para-prisão. O ponto final de tais políticas fica entre forçar a juventude pobre negra e de pele escura para o sistema criminal de justiça e extinguir essas instituições públicas ou transformá-las em minas de ouro ao privatizá-las. A meta geral é destruir a educação como uma esfera democrática pública cuja missão é criar um povo educado para o funcionamento de uma democracia vivaz. A violência patrocinada pelo Estado que está ocorrendo aqui põe em risco o estado de direito e trabalha para desfazer as instituições supostamente democráticas, como os tribunais e a mídia que alguns acreditam fornecer uma barreira inexpugnável contra o autoritarismo de Trump. As violências “lenta” e rápida juntas sob o regime de Trump compartilham uma política cultural que corrói a memória, substitui a emoção por razão, adota o anti-intelectualismo, aumenta a dureza do sólido individualismo e prospera na incandescência do que o economista Paul Krugman chama de “nacionalismo branco sem coleira”.

A violência do Estado tem se tornado o princípio organizacional que molda todos os aspectos da sociedade estadunidense. No cerne de tal violência está um completo ataque a noções do espaço público e do social que tornam possíveis o pensamento crítico, o diálogo e a busca individual e coletiva pelo bem comum. Sob tais circunstâncias, problemas sociais urgentes são removidos do inventário de preocupações públicas e considerações éticas. O ponto final é a substituição do Estado de bem-estar social e investimentos sociais pelo Estado punitivo e o que Jonathan Simon chamou de “governar através de crimes”. Isso tudo é bastante evidente no modo de governança da administração Trump fundado em um duro e racialmente carregado regime da lei e ordem que é tão repressivo quanto é corrupto. Preso em um “abismo de sociabilidade fracassada”, o público estadunidense acha cada vez mais difícil se opor ao pressuposto de que os mercados e o domínio de homens fortes é tudo o que é necessário para resolver todos os problemas individuais e sociais. Quando valores públicos são evocados, para parafrasear Walter Benjamin, eles aparecem menos por sua capacidade de ser reconhecidos e sua relevância em relação ao presente e mais como símbolos do que foi irrevogavelmente perdido.

Valores públicos e o bem público foram reduzidos a lembranças nostálgicas de outra era — associada, por exemplo, com o New Deal (Novo Acordo) ou a Grande Sociedade — na qual o contrato social era visto como sendo algo crucial para cumprir as necessidades dos estadunidenses no pós-guerra e fundamental para uma ordem democrática substancial. Em vez de vistas como um legado que precisa ser adotado novamente, reimaginado e renovado, visões do bem público são destinadas ao passado distante, uma curiosidade passageira como uma peça de museu que talvez valha a pena ver, mas pela qual não vale a pena lutar para reviver tanto como um ideal quanto como uma realidade. O que é “novo” em relação ao longo declínio dos valores públicos na sociedade dos EUA não é o fato de que estejam novamente sob ataque, mas que se tornaram enfraquecidos a um ponto de não provocar mais um movimento social opositor em face a ataques mais ousados e destrutivos do governo Trump. Quando tais valores são atacados, os alvos são grupos que por décadas têm sido em grande parte imunes a tais ataques porque eles incorporam os ideais mais apreciados associados com o serviço público democrático — imigrantes, professores de escolas públicas, servidores públicos, a juventude pobre de cor e sindicatos trabalhistas. Isto sugere que a condição prévia para qualquer senso viável de resistência individual e coletiva deve reivindicar a parte social de um imaginário democrático que faz com que a educação e a aprendizagem não sejam somente o centro da mudança social, mas também a luta para democratizar o próprio caráter da política, do poder institucional e do discurso público estadunidense.

Ataque do neoliberalismo aos vínculos sociais

No rescaldo dos horrores da Segunda Guerra Mundial, o teórico crítico Theodor Adorno observou que apesar de se tornar difícil viver nas sobras de uma história na qual parecia não haver fim ao terror, é impossível fugir do passado porque ele tanto “permanece” depois de sua própria suposta morte quanto porque uma “disposição de perpetrar o inominável sobrevive nas pessoas assim como nas condições que as envolvem”. Adorno, neste caso, estava se referindo à sobrevivência de elementos fascistas dentro de democracias consoladas pela crença falsa de que a história não poderia se repetir. Com o crescimento da “democracia intolerante”, e uma adoção ressurgente de um autoritarismo indesculpável por todo o mundo, é claro que não só a luta sobre as leis, regras e direitos democráticos tem se tornado mais urgente do que nunca, mas a cultura formativa que cria o tecido social e os agentes críticos, os hábitos e as disposições necessárias para apoiar e fortalecer tal democracia estão em perigo. A crise da democracia deu uma guinada letal nos Estados Unidos.

Durante os últimos 40 anos, o neoliberalismo produziu elementos mais extremos de capitalismo de cassino, enfatizando políticas de autoridade projetadas para acumular riqueza e lucros para a elite financeira e corporativa indiferente aos custos sociais e ao enorme preço pago em sofrimento e miséria humana. Ao mesmo tempo, o neoliberalismo desencadeou e legitimou os paroxismos mobilizadores do discurso neofascista. O neoliberalismo une uma forma cruel de capitalismo contemporâneo com elementos da supremacia branca, do ultranacionalismo e de políticas de eliminação que ecoam os horrores de um passado fascista. O ataque do neoliberalismo à justiça social e ao bem comum, junto com sua produção de condições econômicas que esmagam as necessidades humanas e produzem uma desigualdade massiva em termos de riqueza e poder, mobiliza as energias violentas de um populismo de direita e das angústias dos supremacistas brancos “sobre a perda de status e da dominação social”.

Na narrativa neoliberal, as pessoas são reduzidas a mercadorias e espera-se que imitem em vez de desafiar os valores corporativos. Nesta visão, a cultura torna-se uma arma pedagógica cujo objetivo é convencer as pessoas de que imaginar um futuro diferente é impossível. Nesta versão fascista do script, as pessoas são em grande parte consideradas ou extensões do capital ou descartáveis, e por fim submetidas a limpeza racial, a exclusão terminal ou pior. Dentro desta convergência da racionalidade neoliberal e ecos alarmantes da história fascista, Trump deixou mais ousado o discurso sobre fronteiras, paredes, limpeza racial e militarismo junto com ataques contínuos às pessoas de cor, imigrantes, mulheres, LGBTQ e ambientalistas, entre outros.

Com a intensificação da guerra de Trump contra a democracia, a velocidade e as investidas de políticas que carregam os fantasmas de um passado monstruoso tornam-se mais difíceis de perceber dado os choques sem fim ao corpo político e à infinidade de terremotos transformados em espetáculos que vem em seguida de cada golpe aos valores, relações sociais e instituições que tornam a democracia possível. Enquanto que os horrores de um passado fascista são fáceis de lembrar, é muito mais difícil no atual momento aprender da história como resistir a uma cultura presa a formas extremas de nacionalismo, supremacia branca, racismo sistêmico, militarismo, violência policial, políticas do descartável e uma crescente cultura de crueldade. Igualmente difícil é entender como os mecanismos do fascismo neoliberal trabalham para prejudicar modos de solidariedade social, o contrato social, obrigações sociais e relações sociais, enquanto mantém na mente pública “condições que são hostis a qualquer tipo de liberdade democrática”.

Como uma cultura cuja missão é manter a democracia viva dá lugar a arranjos políticos, econômicos e pedagógicos que normalizam um ódio pela democracia? Qual papel a cultura neoliberal desempenha como uma força educacional para construir políticas que prejudicam os direitos humanos e representam uma ameaça às políticas de dignidade? Como o neoliberalismo usa os aparatos culturais controlados pelo setor corporativo para destruir a coesão comunal necessária para nutrir o apoio ao bem comum, aos bens públicos e a uma compaixão pelos outros? Como os postos de trabalho do fascismo neoliberal trabalham para configurar toda a vida social em termos econômicos? Como a adoção reacionária do neoliberalismo de responsabilidade individual trabalha para reduzir todos os problemas sociais a fracassos pessoais e, ao fazer isso, esvazia a política de qualquer conteúdo enquanto prejudica uma gramática da ética e o suporte moral necessários para distinguir o bem do mal?

Essas questões apontam o terror do imprevisto que está no cerne da formação neoliberal que emergiu sob o governo Trump como um desenvolvimento político novo e ameaçador. Como a esfera política está corrupta por causa das cada vez maiores concentrações de riqueza e poder, as instituições, culturas, valores e princípios éticos que tornam a democracia possível começam a desaparecer. A teórica política Wendy Brown é esclarecedora em relação ao desmembramento da democracia no problemático presente e aponta as forças que ameaçam a democracia por dentro ao esvaziar suas instituições públicas mais cruciais. Ela escreve:

O neoliberalismo gera uma condição de políticas sem instituições democráticas que apoiam um público democrático e tudo o que tal público representa de melhor: paixão informada, deliberação respeitosa, uma soberania ambiciosa, contenção intensa de poderes que poderiam dominá-la ou prejudicá-la…. A democracia é uma era de constelações e poderes enormemente complexos e requer um povo que é educado, atencioso e democrático de forma sensível. Isso quer dizer um povo que modestamente conhece essas constelações e poderes; um povo com capacidades de discernimento e julgamento em relação ao que lê, assiste ou ouve sobre uma ampla gama de acontecimentos em seu mundo; e um povo orientado a favor de preocupações comuns e de se autogovernar.

A ideologia neoliberal e seu ataque aos vínculos sociais, ao pensamento crítico e aos valores democráticos tem um longo legado e acelerou-se com intensidade desde o final dos anos 1970. A educação na cultura mais ampla é dominada por interesses corporativos e tornou-se uma arma e máquina de desimaginação. Como uma forma de opressão pedagógica, o neoliberalismo instrumentaliza o aprendizado, reduz a educação a treino, e produz estudantes definidos pelas relações sociais e valores do mercado. Colocando os valores do mercado no lugar dos valores democráticos, ele tornou econômicas e comerciais todas as relações sociais e subordinou as necessidades humanas aos imperativos da geração de lucro. Em uma era na qual o interesse próprio e o individualismo incontrolado são anunciados como a essência do livre arbítrio, relações e ideais democráticos, se não a natureza humana, tornaram-se difíceis tanto de imaginar quanto de reconhecer. Com os anseios por riqueza, status e poder sendo elevados ao status de ideias nacionais, o ânimo nos EUA tornou-se sombrio em um clima marcado pelo desespero, por uma cultura de medo com foco em populações transformadas em bode expiatórios, por desigualdades cada vez mais acentuadas em termos de riqueza e poder, e por uma visão que se transformou em cinismo, raiva e ressentimento. O “sonho americano” deu lugar a uma ilusão cruel quanto às esperanças de mobilidade social, e um melhor futuro e a prosperidade econômica para todos desapareceram no rescaldo da crise financeira de 2008.

Com a deterioração dos vínculos sociais sob as noções obscenas de privatização, desregulação de negócios e expansão do precariado, há um pânico moral crescente projetado pelos nacionalistas brancos e aqueles que substituem formas tradicionais de nacionalismo econômico pelo que pode ser chamado de soberania cultural. Neste caso, a comunidade é agora definida através de uma “mistura de neoliberalismo, chauvinismo cultural, raiva anti-imigrantista e ódio majoritário como o principal modelo” de governança. Um ataque às diferenças culturais tornou-se a força motriz de uma forma tóxica de fascismo neoliberal que mistura a crueldade de um sistema dirigido pelo mercado com uma adoção da pureza racial e da limpeza social.

Esta demagógica busca pelo poder impulsionada por um ódio pela democracia é reforçada pelo desfinanciamento de bens públicos, pelas políticas de impostos que produzem massivas desigualdades, pela expansão do poder militar, pelas políticas de supressão de eleitores e pela destruição do equilíbrio entre liberdade e segurança, e também através de uma cultura formativa neoliberal que redefiniu a própria natureza da subjetividade, do desejo e do livre arbítrio em redutivos termos de mercado. Isso se torna evidente na força educacional de uma cultura neoliberal que define o cidadão como o consumidor de commodities, usa cálculos econômicos para medir o valor de uma boa vida, recompensa o empreendedorismo como a força motriz da atividade humana, e reduz a política a um espetáculo vazio de votação em ciclos eleitorais. Sob o fascismo neoliberal, somos cidadãos com supostos direitos individuais e políticos, mas sem direitos econômicos e sociais.

Com a normalização do neoliberalismo, autoassegurado em seu lema proclamado e profecia autorrealizável de que não existe alternativa, torna-se difícil imaginar uma sociedade, relações sociais e um eu que não sejam definidos através da racionalidade, lógica e valores do mercado. Nessa concepção, o capitalismo e o mercado são sinônimos, e seres humanos só podem ser entendidos como capital humano. Em vez de serem convidados para pensar criticamente, compartilhar o poder, usar a imaginação e cobrar do poder, seres humanos são reduzidos a peões para serem manipulados pelos mercados financeiros. O crítico literário e analista político Anis Shivani corretamente observa que o neoliberalismo defende que tudo deve ser imaginado e construído através das lentes do mercado e dos desejos da elite financeira. Ele escreve:

Uma forma de resumir o neoliberalismo é dizer que tudo — tudo — deve ser feito à imagem do mercado, incluindo o Estado, a sociedade civil, e é claro, os seres humanos. A democracia torna-se reinterpretada como o mercado, e a política sucumbe à teoria econômica neoliberal, então estamos falando do fim da política democrática como a conhecemos há dois séculos e meio. Como o mercado torna-se uma abstração, o mesmo ocorre com a democracia, mas o real campo de jogo está em outro lugar, no âmbito da real troca econômica — que não é, entretanto, o mercado. Podemos dizer que toda troca ocorre na superfície neoliberal.

O cinismo agora substitui a esperança quando assuntos de responsabilidade são reduzidos exclusivamente a assuntos de escolha individual, se não de caráter, alimentados por noções retrógradas de autoenriquecimento enquanto qualquer noção do social, da dependência ou do cuidado por outros é vista tanto como fraqueza quanto como algo desprezível. Uma mistura de amnésia social, justiça punitiva e um teatro de crueldade agora impulsiona as decisões políticas cada vez mais aceitas por segmentos do público que ou se recusam a, ou são incapazes de conectar problemas e preocupações privadas com as forças sistêmicas mais amplas. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, o que está quebrado sob tais circunstâncias é

a conexão entre os objetivos públicos e as preocupações privadas, o próprio eixo do processo democrático … com cada uma das duas esferas rotacionando agora em espaços mutuamente isolados, dando início a fatores e mecanismos mutuamente desconectados e não-comunicantes (apesar de certamente não independentes!). Para dizer de forma simplificada, é uma situação na qual as pessoas que foram agredidas não sabem quem as agrediu — e têm poucas chances de descobrir.

Sob o fascismo neoliberal, a praga da privatização enfraquece a cultura democrática e promove uma luta de todos os sentidos de responsabilidade política e social. Como o papa de um neoliberalismo sob efeito de esteróides, Trump encarna a ideologia do interesse próprio e apoia os interesses corporativos, para quem o bem público é visto como um local para ser colonizado e a democracia como a inimiga dos interesses privados e das liberdades do mercado.

O neoliberalismo alimenta o discurso neofascista do governo Trump

Políticas que conduzem aos elementos mais extremos do capitalismo de cassino tornaram-se o terreno de experimentação para se ver quão longe, por exemplo, o governo Trump consegue avançar em seu discurso neofascista. Soluções que ecoam a crueldade extrema de um passado sórdido impulsionaram os Estados Unidos para um estado mais próximo de um completo fascismo estadunidense que deixa claro seu ódio por imigrantes, pobres, negros, indígenas, muçulmanos e outros que não se encaixam na lógica racista que ocorre no grito de Trump pela “América Primeiro” (“America First”).

Ainda assim, há mais ocorrendo aqui do que a proliferação de políticas neoliberais que insuflam novas vidas a ideologias de supremacia branca, de privatização de bens, de limitação do poder dos sindicatos, de desregulação da esfera pública e de esvaziamento do Estado por se deslocarem quantias massivas de capital em direção a grandes corporações e os ultra-ricos

através de políticas de impostos regressivos.

Sob o neoliberalismo, a política está presa ao discurso de exclusão e impotência e é vista junto com a democracia como a inimiga de um mercado que se vê acima da influência do estado de direito, da responsabilização, da ética, da governança e do bem comum. Assim como a intelectual legal Eva Nanopoulos observa, no atual momento histórico, as formas específicas de fascismo contemporâneo têm que ser entendidas “no contexto mais amplo de sua relação com o neoliberalismo e a crise neoliberal”. O que é especialmente importante compreender é como o neoliberalismo reconfigurou o Estado para maximizar a desintegração de laços e obrigações sociais democráticas, especialmente através de políticas neoliberais que testam quão longe o governo Trump consegue forçar um público a aceitar práticas que são tão cruéis quanto inimagináveis. Esta lógica está agora sendo levada aos extremos sob Trump por estar constantemente redesenhando as linhas do que é possível em termos de violação dos direitos humanos e promoção de um labirinto cada vez maior de crueldade, destruição e descartabilidade.

Algumas das características mais distintivas do fascismo neoliberal incluem a desintegração do social, o colapso de uma cultura de compaixão e uma dissolução das esferas públicas que tornam a democracia possível. A existência individual que agora é definida como a circulação de commodities e a elevação do interesse próprio a ideias nacionais equivale ao que Marx uma vez chamou de “a água gélida do cálculo egoísta”. Uma consequência é a expansão de uma praga contínua de atomização social, desespero existencial e uma noção coletiva de impotência. As evidências para o último podem ser encontradas na contínua crise de opioides, que matou 42.000 pessoas em 2016, o aumento da taxa de mortalidade de homens brancos sem educação formal, a crescente falta de confiança nas instituições estadunidenses, o desespero sentido por famílias que vivem na iminência da pobreza e estão tentando sobreviver de mês a mês, e a mágoa e desespero das 6,5 milhões de crianças e de suas famílias que estão vivendo em extrema pobreza. Além disso, as forças mutuamente informantes do desespero e da impotência produzem as condições para o crescimento de um populismo, racismo, ultranacionalismo, militarismo e fascismo de direita.

Com o alcance da ideologia neoliberal se estendendo pela sociedade, ela trabalha para trivializar os valores democráticos e as preocupações públicas, consagrando um individualismo militante, celebrando a busca abrangente pelo lucro, e promovendo uma forma de darwinismo social na qual os infortúnios são vistos como fraqueza e a regra hobbesiana de uma “guerra de todos contra todos” substitui qualquer vestígio de responsabilidade compartilhada e compaixão por outros. Esse script punitivo constitui uma forma frequentemente não reconhecida de terrorismo sancionado pelo Estado que entorpece muitas pessoas ao liquidar as faculdades criativas da imaginação, memória e pensamento crítico. Sob um regime de utopias privatizadas, hiperindividualismo e valores centrados no ego, os seres humanos caem em um tipo de sonolência ética, indiferentes à situação e sofrimentos de outros. O neoliberalismo produz uma forma singular de terrorismo moderno. O teórico Leo Löwenthal da Escola de Frankfurt refere-se a isso como uma forma de opressão em massa e dormência de autopreservação que ele defende que equivale “à atomização do individual”. Ele escreve:

O indivíduo que está sob condições de terrorismo nunca está sozinho e sempre está sozinho. Ele torna-se dormente e rígido não somente em relação ao seu vizinho, mas também em relação a si mesmo; o medo rouba-lhe o poder de reação emocional ou mental espontânea. Pensar torna-se um crime estúpido; põe em risco a vida. A consequência inevitável é que a estupidez espalha-se como uma doença contagiosa entre a população aterrorizada. Seres humanos vivem em um estado de estupor, em um coma moral.

Implícito no comentário de Lowenthal está o pressuposto de que quando a democracia torna-se uma ficção, os mecanismos morais da linguagem e significados são comprometidos. Além disso, uma cultura de atomização, precariedade, intolerância e brutalidade reforça um caráter de indiferença cruel promovido através de uma torrente de políticas cruéis que testam quão longe os elementos mais extremos na convergência de neoliberalismo e fascismo podem ser promovidos pelo governo Trump sem provocar indignação e resistência em massa.

Como mencionei anteriormente, a desintegração de laços sociais, vínculos sociais e os modos emancipatórios de solidariedade e luta coletiva são intensificados através de uma série sem fim de choques políticos e éticos produzidos pelo governo Trump. Tais choques são projetados para enfraquecer a capacidade dos cidadãos de resistir à torrente contínua de ataques aos indicadores morais e valores democráticos que são centrais à democracia. Eles também são projetados para normalizar as táticas terroristas fascistas neoliberais, dissipando a noção de que tais práticas são efêmeras ao século XX.

Em sua disposição de demonstrar tal terror, o Estado mobiliza o medo e as exibições descontroladas de poder de forma a convencer as pessoas de que o presidente está acima da lei e que a única resposta viável para estas políticas cada vez mais cruéis é a submissão individual e coletiva. Esse é um exercício de poder sem uma consciência — uma forma de violência que revela a passividade, se não o infantilismo moral, que deseja causar em seus cidadãos. Ecos desta visão são óbvios no comentário de Trump, que depois foi alegado ter sido uma piada, de que ele quer que “[seu] povo” o ouça da mesma forma que os norte-coreanos ouvem ao ditador da Coreia do Norte Kim Jong Un. Como o presidente declarou no programa da Fox News Channel “Fox & Friends,” “Ele fala e seu povo se senta com atenção. Eu quero que meu povo faça o mesmo.” A guerra de Trump contra a imaginação social e ética é parte de uma política mais ampla projetada para destruir esses vínculos sociais e esferas públicas que encorajariam uma noção de responsabilidade e compaixão a outros, especialmente àqueles considerados ser mais vulneráveis. Essa é uma forma de terrorismo que celebra o interesse próprio, a sobrevivência vazia, e uma regressão a um tipo de darwinismo social e infantilismo político. O teórico Leo Löwenthal acerta em seu comentário de que é uma forma de terrorismo equivalente a uma forma de autoaniquilação. Ele escreve:

O terrorismo liquida a relação casual entre conduta social e sobrevivência, e confronta o indivíduo com a força bruta da natureza — isto é, da natureza desnaturalizada — na forma de uma toda-poderosa máquina terrorista. O que o terror quer causar, e faz cumprir através de suas torturas, é que as pessoas ajam em harmonia com a lei do terror, ou seja, que seu cálculo inteiro deva ter somente uma meta: autoperpetuação. Quanto mais pessoas se tornam buscadoras impiedosas de sua própria sobrevivência, mais elas se tornam peões marionetes psicológicos de um sistema que não tem outro propósito senão se manter no poder.

Certamente, isso é óbvio hoje com todos os vestígios de camaradagem social dando lugar a hipermodos de masculinidade e um desdém por aqueles considerados fracos, dependentes, estrangeiros ou economicamente improdutivos.

Central ao desenvolvimento de qualquer noção viável do social está uma reformulação das instituições críticas e espaços compartilhados nos quais assuntos de moralidade, justiça e igualdade se tornam centrais a um novo entendimento da política. Há uma necessidade de reimaginar onde os espaços públicos, conexões e compromissos públicos ficam além do domínio do privado e como podem ser construídos como parte de um esforço mais amplo de criar cidadãos engajados e críticos dispostos a lutar por uma política democrática emergente. Em jogo aqui está um entendimento renovado da educação como o local crucial no qual a dinâmica entrelaçada da atividade individual e da política democrática se fundem. A política, nesse sentido, está conectada a um discurso de crítica e possibilidade no qual uma pluralidade de memórias, narrativas e identidades se juntam em defesa de um bem comum e de uma política abrangente que junta significados, discursos e conexões pessoais e públicas.

O medo da filósofa política Hannah Arendt sobre a extinção do âmbito público, junto com a apreensão do pragmatista John Dewey sobre a perda de uma esfera pública na qual visões, poder, política e imaginação ética podem ganhar vida, não são mais uma preocupação simplesmente abstrata. Tais trepidações se tornaram uma realidade na era de Trump. Entre o atual ataque às fundações da solidariedade social e aos laços de obrigação social, valores públicos estão sob risco de se tornar irrelevantes. Em uma sociedade na qual tornou-se lugar-comum acreditar que não se tem responsabilidade por ninguém além de si mesmo, o social é reduzido para acomodar uma cultura de ódio, intolerância e crueldade.

Mantendo viva a luta por uma democracia radical

Não haverá democracia sem uma cultura formativa para construir os agentes questionadores capazes de discordar e de agir de forma coletiva. Nem a luta por uma democracia radical chegará longe sem uma visão que possa substituir a política representativa por um modo de política de governo baseada em uma política participativa. Wendy Brown menciona alguns dos elementos de uma política visionária na qual o poder e a governança são compartilhadas coletivamente. Ela escreve:

… uma visão de esquerda da justiça se focaria em práticas e instituições de poder popular; uma distribuição modestamente igualitária de riqueza e acesso às instituições; um manuseio constante de todas as formas de poder — social, econômico, político, e até psíquico; uma visão de longo alcance da fragilidade e finitude da natureza inumana; e a importância tanto de atividade significativa quanto de habitações hospitaleiras para o florescimento humano... O ímpeto de promulgar tal racionalidade contrária — uma diferente figuração de seres humanos, cidadania, vida econômica, e política — é crítico tanto para o longo trabalho de se construir um futuro mais justo quanto para a tarefa imediata de desafiar as políticas mortais do Estado imperial estadunidense.

O grande filósofo da democracia, Cornelius Castoriadis, adiciona a essa perspectiva a ideia de que para uma democracia funcionar as pessoas têm que ter uma paixão por valores públicos e uma participação social junto com a capacidade de acessar espaços públicos que garantam direitos de liberdade de discurso, discordância e diálogo crítico. Castoriadis reconheceu que no cerne de tais espaços públicos está uma cultura formativa que cria cidadãos que são pensadores críticos capazes de “colocar instituições existentes sob questionamento de forma que a democracia novamente se torne [possível] no sentido completo do termo.” Para Castoriadis, às pessoas não deveria simplesmente ser dado o direito de participar na sociedade; elas também deveriam ser educadas para que participem nela de uma forma significativa e relevante. De acordo com Castoriadis, o espaço protetor do social torna-se crucial quando funciona como um espaço educacional cuja meta é criar agentes críticos que possam usar seu conhecimento e habilidades de forma a participar de uma luta mais ampla pela justiça e liberdade. No centro da defesa da educação de Castoriadis está uma defesa do âmbito público onde, para parafrasear Hannah Arendt, a liberdade pode “encontrar o espaço mundano para aparecer”. De acordo com Castoriadis, a educação não é somente uma dimensão essencial da justiça e política, mas também a democracia em si.

Uma precondição para paralisar o fascismo neoliberal de Trump é o reconhecimento de que a democracia não consegue existir sem cidadãos informados que têm uma paixão por questões públicas, e que acreditam que a consciência pública é uma precondição através da qual a política deve passar de forma a criar indivíduos capazes para o tipo de lutas coletivas que oferecem a possibilidade para mudança. É difícil falar sobre produzir os laços sociais necessários em qualquer democracia sem ver a educação cívica, literária e o aprendizado como atos de resistência. A educação se tornou central para a política na qual novas narrativas podem ser desenvolvidas que rejeitem igualar o capitalismo à democracia, a esperança ao medo de perder e sobreviver, e a separação de igualdade política da igualdade econômica.

Ao fazer isso, a educação deve ser transformada em um “instrumento de poder político”, uma forma de se ler contra as condições que produziram um passado fascista e estão conosco novamente. No atual momento histórico, uma sociedade de condomínios fechados, paredes e prisões despedaçaram qualquer noção de comunidade compartilhada, tornando cada vez mais difícil imaginar um senso de identidade coletiva enraizada na compaixão, empatia, justiça e obrigações compartilhadas de uns com os outros. Contra esse processo de se esfarrapar o espaço público, é crucial cultivar uma visão nobre que se recusa a desistir da imaginação radical e da disposição de lutar por um mundo no qual um tipo de luta e política emancipatórias é possível.

Tal política deve fazer mais do que exibir o ultraje com o regime de fascismo neoliberal que está emergindo nos Estados Unidos e por todo o mundo como um modelo de futuro. Ela deve levar a sério a noção de que não há democracia sem uma cultura formativa crítica que possa capacitar o poder crítico e os modos de apoio coletivo necessários para sustentá-la. Ou seja, ela deve desenvolver um relacionamento entre a educação cívica e a atividade política, uma na qual as capacidades libertadoras da linguagem e políticas estão inextricavelmente conectadas com as crenças cívicas, espaços públicos e valores que marcam uma adoção democrática do social. Isso é especialmente urgente em um tempo em que a cultura cívica está sendo erradicada e visões comandantes de um futuro alternativo estão desaparecendo. A política deve novamente tornar-se educativa e a educação deve se tornar central para a política.

Como um veículo para mudança social, a educação registra os elementos políticos, econômicos e culturais que podem ser usados para retomar uma noção crítica e democrática de comunidade e as relações sociais e valores que tornam essas comunidades possíveis. Com o desafio de se criar uma nova e revitalizada linguagem política, o bem social e comum pode se mover do abstrato para o prático através do poder de um movimento social de massa que reconheça a importância tática do que Pierre Bourdieu descreve em Atos de Resistência como “as dimensões simbólicas e pedagógicas da luta” e resistência.

Não estou sugerindo que a educação ou a pedagogia pública no sentido mais amplo irão oferecer as garantias políticas de criar indivíduos e movimentos que possam lutar contra os atuais ataques à democracia, mas não haverá resistência sem que a educação se torne central a qualquer luta política. Em seu ensaio “Sobre Política” em The Sociological Imagination (A Imaginação Sociológica), o sociologista C. Wright Mills captura o espírito deste sentimento em seu comentário sobre o valor das ciências sociais:

Eu não acredito que a ciência social “salvará o mundo” apesar de não ver nada errado com “tentar salvar o mundo” — uma frase que aqui considero significar a evitação da guerra e a reorganização de assuntos humanos de acordo com os ideais da liberdade e da razão humana. O conhecimento que tenho me leva a adotar estimativas pessimistas das possibilidades. Mas mesmo se for neste estágio que estamos agora, ainda assim devemos questionar: se existem formas de sair das crises de nosso período através do intelecto, não seria responsabilidade dos cientistas sociais dizer quais são elas?… É no nível da consciência humana que praticamente todas as soluções dos grandes problemas devem agora estar.

Se os progressistas vão redimir uma noção democrática do social, precisamos construir um ativismo que repense o que significa assumir o desafio de mudar como as pessoas se relacionam umas com as outras e as condições que pressionam suas vidas. Tais esforços falam de uma noção de esperança educacional e das possibilidades de modos instrutivos de alfabetização civil e modos críticos de aprendizado e atividade. Eles também apontam, como o historiador Tony Judt observou, a necessidade de forjar uma “linguagem de justiça e direitos populares [e] uma nova retórica de ação pública”. A revitalização um discurso progressista pode ser abordada como parte de um movimento social mais amplo capaz de reimaginar uma democracia radical na qual os valores públicos importam, a imaginação ética floresce, e a justiça é vista como uma luta constante. Em um momento de pesadelos distópicos, um futuro alternativo somente é possível se pudermos imaginar o inimaginável e pensar o contrário para agir de forma contrária. Essa não é mais uma esperança abstrata, mas uma necessidade radical.

Henry A. Giroux atualmente é presidente da Bolsa de Interesse Público no Departamento de Estudos Ingleses e Culturais da Universidade McMaster e é o Eminente Acadêmico Paulo Freire em Pedagogia. Seus livros mais recentes incluem: Neoliberalism’s War on Higher Education (Haymarket 2014), The Violence of Organized Forgetting (City Lights 2014), Dangerous Thinking in the Age of the New Authoritarianism (Routledge, 2015), America’s Addiction to Terrorism (Monthly Review Press, 2016), America at War with Itself (City Lights, 2017), The Public in Peril (Routledge, 2018) e American Nightmare: Facing the Challenge of Fascism (City Lights, 2018). Giroux também é membro do Conselho Administrativo do Truthout. Seu website é www.henryagiroux.com.

*Publicado originalmente em truthout.org | Tradução: equipe Carta Maior

Conteúdo Relacionado