Pelo Mundo

Fidel Castro encontra o "ponto fraco" de George W. Bush

06/06/2005 00:00

Granma

Créditos da foto: Granma

Havana – Sentado atrás de uma das mesas do palco do imenso auditório do salão de convenções de Havana, uma construção modernosa dos anos 1970, Fidel Castro leva o indicador esquerdo em direção à sua testa, enquanto estica o longo braço direito para o escritor argentino Miguel Bonasso, que tinha a palavra. Aparentando cansaço, pedira um aparte que se estenderia por mais de quinze minutos. Carregando na pronúncia das consoantes, o líder cubano parecia ditar o que falava. “Ele saiu do Panamá em 16 de março. Em menos de dois meses desatamos uma batalha que está revolvendo os crimes políticos cometidos em mais de meio século, na América Latina, desde a invasão da Guatemala pelos Estados Unidos, em 1954”. O pronome na terceira pessoa tem uma referência: Luís Posada Carriles. Em torno dele, montou-se uma ousada operação política.

“Creio na possibilidade de atuar não apenas por nós, mas por toda a América Latina”, diz Fidel, quase soletrando, enquanto Bonasso aguarda o fim da interrupção. Na platéia, nessa tarde chuvosa de 3 de junho, estão 680 participantes de 67 países, convidados cinco dias antes. Entre eles estão o cineasta Walter Salles Jr., a cantora Beth Carvalho, o poeta Thiago de Mello, Hebe de Bonafini, das Mães da praça de Maio, José Vicente Rangel, vice-presidente da Venezuela, Chafic Handal, dirigente da Frente Farabundo Martí, de El Salvador, o belga François Houtart e muitos outros. O evento chama-se “Encontro internacional contra o terrorismo, pela verdade e a justiça” e fora preparado a toque de caixa. Livros, filmes e documentários foram editados literalmente de um dia para outro, numa urgência típica de grandes confrontos.

Ponto fraco
Fidel encontrou o ponto fraco do discurso antiterrorismo do governo estadunidense, brandido a quatro ventos desde 11 de setembro de 2001. Trata-se do discurso da guerra preventiva, a justificar ataques ao Afeganistão e Iraque e ameaças à Cuba, Venezuela, Coréia do Norte, Síria e Irã, da materialização do Plano Colômbia e da manutenção dos cárceres em Guantánamo, além de restrições de toda ordem na OEA, na atividade de imprensa e nos direitos civis nos próprios Estados Unidos.

O elo débil é o abrigo dado até agora à permanência impune do ex-agente da CIA e terrorista Luís Posada Carriles nos EUA. Nascido em Cuba e naturalizado venezuelano, Carriles, de 77 anos, exibe uma invejável folha corrida, que inclui pelo menos duas tentativas comprovadas de tentar assassinar Fidel Castro, além do planejamento e execução da explosão em pleno ar de um DC-8 da Cubana de Aviación procedente de Caracas, em 6 de outubro de 1976.

Morreram na ocasião 73 pessoas, entre elas, toda a equipe juvenil de esgrima de Cuba, sagrada pouco antes campeã centro-americana, na capital venezuelana. A carreira de Carriles vem de longe. Já em 1961, pouco depois da malograda invasão da baía dos Porcos, ele recebia treinamento militar nos EUA para futuras ações em território cubano. “A CIA nos ensinou tudo, como usar explosivos, como matar, fazer bombas e nos treinaram em atos de sabotagem”, relatou ao The New York Times, em 12 de julho de 1998.

Preso na Venezuela, no início dos anos 1980, Carriles fugiu da cadeia em 1985. Reapareceu ilegalmente nos EUA há alguns meses, vindo do Panamá, passando pelo México. Detido como imigrante ilegal, em 17 de maio, aguarda agora a decisão de seu pedido de asilo por parte de um juiz federal, em El Paso, Texas, no próximo dia 13 de junho.

Batalha de idéias
Nas últimas semanas, toda a energia da diplomacia cubana voltou-se para esta luta, “uma batalha de idéias, antes de mais nada”, sublinha Fidel. Uma gigantesca marcha de 2 milhões de pessoas tomou a avenida costeira, o Malecón, há poucos dias. Manifestação igual aconteceu em Caracas. E agora a administração cubana vale-se de uma prova mais profunda na tentativa de reunir uma frente continental pela extradição de Carriles.

Trata-se da descoberta de seu envolvimento no assassinato do chanceler chileno Orlando Letelier, em Washington, em 21 de setembro de 1976. A operação fora tramada como parte da Operação Condor, a coalizão entre os serviços de repressão das ditaduras chilena, argentina, uruguaia, brasileira e paraguaia, estabelecida em novembro de 1975. Como graduado agente da CIA, seu envolvimento na Condor evidencia que a extradição de Carriles interessa não apenas à Cuba e Venezuela, mas aos demais países do continente que vivenciaram ditaduras patrocinadas pela Casa Branca.

Demanda venezuelana
Ainda na tarde do dia 3, José Vicente Rangel subiria à tribuna para, num discurso de uma hora e 20 minutos, detalhar sua demanda. ”A Venezuela reivindica a extradição de Posada Carrilles por existir um acordo nesse sentido entre nosso país e os EUA datado de 1922”. Recorrendo a uma infinidade de dados, o alto e fleumático vice-presidente de 76 anos ressaltou que a pendência envolve diversas facetas.

“Queremos o cumprimento de um acordo entre duas nações soberanas. Mas esse também é um ato político, que compete, em última instância, ao Departamento de Estado. Estamos dispostos a desmascarar a cínica doutrina antiterrorista de George W. Bush”.

Carriles foi diretor da Disip, a polícia política venezuelana nos anos 1970. E, por fim, acusou: “Eles patrocinaram o golpe de 2002, atentaram contra a democracia venezuelana. Se esse golpe e o paro petroleiro de fins do mesmo ano não são terrorismo, não sei o que é terrorismo. Não estamos enfrentando um estado democrático, mas um estado terrorista!”.

O caso é tão gritante, que até a Folha de S. Paulo, nada simpática aos governos de Cuba e Venezuela, publicou um editorial favorável à extradição, no dia 25 de junho. Classificando o discurso de George W. Bush como “sujeito ao critério de dois pesos e duas medidas”, o jornal tem uma opinião clara: “Qualquer solução que não resulte no julgamento de Posada pelo crime de terrorismo na Venezuela ou em Cuba, as duas jurisdições primárias, representará um golpe contra o direito internacional”.

Sobreviventes
O evento se estendeu por três dias. Sucessivas vítimas de ditaduras tomaram do microfone para relatar o horror a que estiveram submetidos nos anos de chumbo na América Latina. Posada Carriles, entre outros agentes da CIA, assessoraram as máquinas de tortura em diversos países, que literalmente arrebentaram milhares de militantes e ativistas populares. Sobreviventes e filhos, irmãos, mães, pais, avós de desaparecidos tocavam num ponto comum: não se falava ali de dramas e dores individuais, mas de uma máquina de terror a serviço de um tipo de dominação.

As principais energias políticas do Estado cubano voltam-se para essa batalha. A programação das emissoras de TV agora exibe, além de novelas e shows, um ciclo de filmes como “Estado de sítio”, de Costa-Gavras, e “A história oficial”, de Luís Puenzo.

O Condor não passa
Quando Fidel termina seu longo aparte, relatado no início, Miguel Bonasso passa a mão em seus ralos cabelos e lembra ao Comandante: “A repressão não acabou em nossos países. Ela foi substituída pelas democracias controladas e o genocídio agora é social, cometido pelos planos de ajuste”. Virando-se para a platéia, completa: “O desaparecimento físico de militantes é agora substituído pelo desemprego, uma espécie de desaparecimento social”. Para ele, essa é uma espécie de continuação da Operação Condor. “Margareth Tatcher dizia preferir um trabalhador desempregado a um empregado. E explicava. O primeiro, se trata com políticas compensatórias, mas o segundo reivindica e se organiza”.

Mas a frente continental que se forma – e que envolverá tribunais sobre o terror em diversos países – não está comprando uma briga genérica. Aposta num alvo concreto e determinado que pode desarmar toda a pregação belicista do governo Bush.



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