Pelo Mundo

Finalmente, a resistência consegue votar

Agora é nossa chance de pôr um fim a essa presidência

30/10/2020 11:27

(Doug Mills/The New York Times)

Créditos da foto: (Doug Mills/The New York Times)

 
 
Estamos agora entrando na reta final. Os eleitores finalmente terão voz sobre se o reinado de terror e idiotice de Donald Trump continua ou termina.

Centenas de milhões de estadunidenses já fizeram suas escolhas pelo que conhecemos como “votação antecipada”.

Para muitos de nós, esse dia demorou para chegar. Muitos de nós, literalmente não tinham certeza se nós, ou o país, ou até o mundo, poderíamos sobreviver a quatro anos de uma presidência Trump.

Eu ainda consigo lembrar da noite da eleição em 2016. Eu estava no meu escritório do The New York Times na 8ª Avenida em Manhattan. Eu estava preparado para escrever algo sobre os resultados, como eu havia feito em 2008 depois da primeira vitória de Barack Obama.

Mas enquanto as notícias chegavam e as redes e jornais começaram a nomear os estados, caiu a minha ficha de que as coisas estavam indo na direção errada. Eu deixei o prédio. Andei pela 8ª Avenida, depois pela 7ª.

Ocasionalmente eu parava em algum restaurante ou bar que tinham televisões ligadas nos canais que mostravam os resultados. Cada vez que um estado era nomeado em favor de Trump, as pessoas reagiam em horror.

Eu acabei ficando em um restaurante conhecido e pedi o jantar no bar para que eu pudesse acompanhar o resto dos resultados na televisão que estava logo acima.

A corrida ainda não tinha acabado quando eu cheguei em casa no Brooklyn. Eu não esperei acordado. Eu sabia que não ia acabar bem. Fui dormir.

Quando acordei, a corrida tinha acabado, e um Trump espantado teve sua vitória. Eu estava chocado e boquiaberto. “Isso está realmente acontecendo? Como isso está acontecendo?” eu não consegui mascarar a descrença.

Hillary Clinton realizou seu discurso de concessão um pouco antes do meio-dia. Sim, estava acontecendo.

Eu saí para comprar café no meu bairro bastante liberal. As pessoas andavam, em silêncio, de luto, como em um sonho sinistro. Havia um trauma mensurável. Persistiu por semanas no meu bairro e, de fato, no país.

As pessoas doaram milhões para a iniciativa de Jill Stein de recontagem dos votos em Wisconsin, Pennsylvania e Michigan. Esse esforço esfriou.

Nos familiarizamos com a 25ª Emenda, que permitia que o presidente fosse removido do cargo pelo seu gabinete e pelo vice-presidente se ele for tido como “incapaz de cumprir com os poderes e tarefas do seu cargo.” Isso nunca iria acontecer.

Contamos com Robert Mueller, que eventualmente fez muito pouco e não foi muito longe.

Esperamos por um impeachment, um que veio eventualmente, mas àquela altura Trump já havia consumido todo o Partido Republicano. Os Senadores Republicanos já haviam se tornado seus submissos. Eles não iriam removê-lo do cargo, independentemente de sua culpa e do dano que ele havia causado.

Então, de uma maneira ou de outra, todos aprendemos a lidar. Alguns de nós abraçaram a batalha e se tornaram parte do que chamamos de Resistência. Outros, sobrecarregados e consumidos por um sentimento de impotência, simplesmente focaram em coisas que podiam controlar: o amor pela família, ação comunitária, jardinagem, gastronomia, qualquer coisa que poderia manter a mente fora da loucura.

Tentamos não ficar dormentes com a constante enxurrada de mentiras e absurdos. Nós gastamos a palavra “normalizar”. Como reportou Emily Dreyfuss na revista Wired:

“Kory Stamper, lexicógrafo do Merriam Webster, examinou uma gama de fontes e descobriu que as pessoas usaram a palavra duas vezes mais online em 2016 do que em 2015, e que esse uso teve um pico de 50% depois do dia da eleição.”

Amplificamos nossos protestos. Tivemos a Marcha das Mulheres. Aparecemos em aeroportos para protestar pelos imigrantes e refugiados detidos. Marchamos pelos direitos dos imigrantes. Protestamos em oposição à política de separação familiar de Trump. Até os protestos do Black Lives Matter no verão foram contaminados pelo descontentamento com o clima político atual.

Mas nenhuma dessas ações carregava a possibilidade de remover Trump do cargo ou de fundamentalmente transferir o poder. elas estavam, no entanto, construindo comunidades entre os descontentes, energizando-os, demonstrando o poder espiritual coletivo da ação direta.

Agora, finalmente, depois de esperar por anos, membros da Resistência e outros infelizes com o estado das coisas estão conseguindo agir de modo a impactar diretamente o presidente e o poder em Washington: eles podem votar.

E, que se exploda a pandemia, é precisamente isso que milhões de estadunidenses estão fazendo, o mais rápido que podem. Há uma energia e urgência no ar. Aqui na Georgia, as pessoas só falam de votar: “Já votou?” “Quando você vai votar?” “Quer ir votar comigo?”

Essa energia é diferente da energia da era Obama, que, particularmente durante seu primeiro mandato, era repleta de esperança e entusiasmo. Essa energia é energia de guerreiro. É desafiadora e determinada. É a energia Davi-veio-para-matar-Golias.

E é muito bom fazer parte disso, sentir que podemos estar à beira de inspirar e exclamar: “Conseguimos. Sobrevivemos!”

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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