Pelo Mundo

Finalmente a união: O povo palestino se levanta

 

20/05/2021 11:17

(Matt Hrkac)

Créditos da foto: (Matt Hrkac)

 
Para começar, alguns esclarecimentos sobre os termos usados para descrever a violência em curso na Palestina ocupada, e também em Israel. Não se trata de um “conflito”, nem de uma “disputa”, nem de “violência sectária”, nem mesmo de uma guerra em sentido tradicional.

Não se trata de um conflito porque Israel é um poder ocupante e o povo palestino é uma nação ocupada. Não é uma disputa porque liberdade, justiça e direitos humanos não podem ser tratados como se fosse um mero desacordo político. Os inalienáveis direitos do povo palestino estão consagrados na lei internacional e humanitária, e a ilegalidade das violações israelenses dos direitos humanos na Palestina é reconhecida pela própria ONU.

Se fosse uma guerra, seria então uma guerra unilateral israelense, que é enfrentada com a humilde, mas real e determinada resistência palestina.

Na verdade, se trata de um levante palestino, uma Intifada sem precedentes na história da luta palestina, tanto em natureza quanto em alcance.

Pela primeira vez em muitos anos vemos o povo palestino unido, de Al Quds Jerusalém a Gaza, a Cisjordânia e, ainda mais dramático, a comunidades palestinas, cidades e vilas dentro da Palestina histórica – hoje de Israel.

Esta unidade é o mais importante, tem maiores consequências do que alguns acordos entre facções palestinas. Ela faz sombra sobre a Fatah o Hamas e todo o resto, porque sem uma união do povo não pode haver uma resistência significativa, nenhuma visão de libertação, nenhuma luta por justiça pode ser vencida.

O direitista primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nunca poderia ter antecipado que um ato rotineiro de limpeza étnica na vizinhança de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, provocaria um levante palestino, unindo de forma sem precedentes todos os setores da sociedade palestina.

O povo palestino decidiu deixar para trás suas divisões políticas e brigas de facções. Ele passou a cunhar novas terminologias, centradas na resistência, na libertação e na solidariedade internacional.

Em consequência, eles estão desafiando o faccionalismo, junto com qualquer tentativa de tornar a ocupação e o apartheid israelense normais. Igualmente importante, uma forte voz palestina está agora desafiando o silêncio internacional, forçando o mundo a ouvir um canto unido por liberdade.

Os líderes desse novo movimento são jovens palestinos que tiveram negada a participação em qualquer forma de representação democrática, que são constantemente marginalizados e oprimidos por sua própria liderança e pela incansável ocupação militar israelense. Eles nasceram em um mundo de exílio, destituição e apartheid, incitados a acreditar que eram inferiores, uma raça menor. O direito deles à autodeterminação e todos os outros direitos foram postergados indefinidamente. Eles cresceram vendo sem esperanças suas casas serem demolidas, suas terras sendo roubadas, seus parentes sendo humilhados.

Finalmente, eles se ergueram.

Sem coordenação prévia e sem um manifesto político, essa nova geração palestina está fazendo agora sua voz ser ouvida, enviando uma mensagem inconfundível e retumbante para Israel e para sua sociedade direitista chauvinista, dando conta que o povo palestino não é uma vítima passiva, que a limpeza étnica em Sheikh Jarrah e no resto de Jerusalém Oriental, o prolongado cerco de Gaza, a ocupação militar em curso, a construção de assentamentos judaicos ilegais, o racismo e o apartheid não mais vão passar em branco. Apesar de cansados, pobres, sem posses, cercados e abandonados, os palestinos vão continuar defendendo seus direitos, seus lugares sagrados e a própria santidade de seu povo.

Sim, a violência em curso foi instigada pela provocação israelense em Sheikh Jarrah. Entretanto, a história nunca foi apenas sobre a limpeza étnica no bairro de Jerusalém Oriental. A sitiada vizinhança é apenas um microcosmo da luta palestina mais ampla.

Netanyahu pode ter pensado em usar Sheikh Jarrah como meio de mobilizar seu eleitorado direitista buscando formar um governo de emergência ou aumentar suas chances de vencer uma nova quinta eleição. Seu imprudente comportamento, compelido inicialmente por razões meramente egoístas, deflagrou uma rebelião popular entre os palestinos, expondo Israel pelo o que sempre tem sido: um Estado violento, racista e promotor de apartheid.

A unidade palestina e a resistência popular foram bem sucedidas também de outras formas. Nunca antes vimos esta onda de apoio à libertação da Palestina, não apenas por parte de milhões de pessoas comuns em todo o mundo, mas também de celebridades – astros de cinema, esportistas, intelectuais e ativistas políticos convencionais, e mesmo modelos e influenciadores de mídias sociais. As hashtags #SaveSheikhJarrah e #FreePalestine, entre outras, estão agora interligadas e são destaques em todas as plataformas há semanas. A persistente tentativa de Israel de se apresentar como vítima perpétua de imaginárias hordas árabes e muçulmanas não tem mais dado frutos. O mundo pode finalmente ver, ler e ouvir a trágica realidade da Palestina e a necessidade de trazer esta tragédia a um fim imediato.

Nada disso seria possível se não fosse pelo fato de que todos palestinos têm razões legítimas e estão falando em uníssono. Em sua reação espontânea e solidariedade genuína e comunitária, todos os palestinos estão unidos, de Sheikh Jarrah, a toda Jerusalém, a Gaza, a Nablus, a Ramallah, a Al-Bireh e mesmo a comunidades palestinas dentro de Israel – Al-Lud, Umm Al-Fahm, Kufr Qana, etc. Na nova revolução popular palestina, facções, geografia e divisões políticas são irrelevantes. Religião não é fonte de divisão, mas de unidade espiritual e nacional.

As atrocidades israelenses em Gaza continuam, com crescente número de mortos. Esta devastação persistirá enquanto o mundo tratar o cruel cerco da empobrecida, pequena Faixa de Gaza como algo irrelevante. O povo de Gaza estava morrendo bem antes de os ataques aéreos israelenses começarem a explodir suas casas e suas vizinhanças. Ele estava morrendo por falta de medicamentos, pela água poluída, pela falta de energia elétrica e por uma infraestrutura dilapidada.

Temos de salvar Sheikh Jarrah, mas temos também de salvar Gaza; exigimos o fim da ocupação militar israelense da Palestina e, com ela, o sistema de discriminação racial e de apartheid. Grupos de direitos humanos internacionais estão agora corretos e decisivos em sua definição desse regime racista, com o Human Rights Watch – e mesmo o grupo israelense B’tselem – unindo-se a pedidos pelo desmantelamento do apartheid em toda Palestina.

Levantem a voz. Os palestinos se ergueram. Chegou a hora de estarmos com eles.

Ramzy Baroud é jornalista e editor do The Palestine Chronicle e autor de cinco livros. O último é “These Chains Will Be Broken: Palestinian Stories of Struggle and Defiance in Israeli Prisons” (Clarity Press, Atlanta). Dr. Baroud é pesquisador no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA, na sigla em inglês),na Istanbul Zaim University (IZU). Seu website é www.ramzybaroud.net.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Carlos Alberto Pavam





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