Pelo Mundo

Fogo, peste e um país em guerra consigo mesmo: a presidência de Trump acabou

Uma pandemia inabalável, uma economia em colapso, cidades em caos com assassinatos policiais. Tudo o que o nosso suposto líder faz é tuitar

31/05/2020 18:25

(Patrick Semansky/AP)

Créditos da foto: (Patrick Semansky/AP)

 
Você estaria perdoado se não tivesse notado. Suas bombas verbais estão mais altas do que nunca, mas Donald J Trump não é mais o presidente dos EUA.

Ao não ter resposta construtiva para nenhuma das crises monumentais que agora convulsionam os EUA, Trump abdicou do seu mandato.

Ele não está governando. Ele está jogando golfe, assistindo TV e tuitando.

Como Trump respondeu à inquietação disseminada que seguiu o assassinato de George Floyd em Mineápolis, um homem negro que morreu depois de um policial branco ajoelhar em seu pescoço por minutos enquanto ele estava algemado no chão?

Trump chamou os manifestantes de “criminosos” e ameaçou baleá-los. “Quando o saqueio começa, os tiros começam”, ele tuitou, repetindo as palavras do ex-chefe de polícia de Miami cujas palavras incitaram protestos raciais nos anos 60.

No sábado, ele se gabou dos “cães mais ferozes e das armas mais ameaçadoras” que esperavam os manifestantes do lado de fora da Casa Branca, caso eles ultrapassassem o Serviço Secreto.

A resposta de Trump aos últimos três meses de doenças e mortes tem sido descuidada, também. Desde que alegou que a Covid-19 era “uma farsa Democrata” e amordaçou oficiais de saúde pública, ele delegou o gerenciamento do coronavírus aos estados.

Os governadores tiveram que encontrar ventiladores para manter pacientes vivos e equipamentos de proteção pessoal para hospitais e outros trabalhadores essenciais que precisam, frequentemente competindo uns contra os outros. Eles tiveram que decidir como, quando e onde reabrir as economias.

Trump alegou que “não é responsável” pelos testes e pelo rastreamento de casos – fatores principais para conter o vírus. Seu novo “plano” coloca a responsabilidade nos estados para realizarem seus próprios testes e rastreamentos.

Trump também está sumido na pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Mais de 41 milhões de estadunidenses estão sem emprego. Nas próximas semanas moratórios de despejo temporários vão acabar em metade dos estados. Um quinto da população não pagou o aluguel esse mês. O seguro desemprego adicional está para acabar no final de julho.

Qual é a resposta de Trump? Como Herbert Hoover, que em 1930 disse “o pior ficou para trás” enquanto milhares passavam fome, Trump diz que a economia vai melhorar e não faz nada sobre o sofrimento crescente. A Câmara liderada pelos Democratas aprovou um pacote de auxílio de três trilhões em 15 de maio. Mitch McConnell botou o Senado em recesso sem agir sobre isso e a lei foi declarada por Trump como destinada a fracassar.

E sobre outros assuntos pendentes que um verdadeiro presidente estaria abordando? A Câmara aprovou quase 400 leis nesse mandato, incluindo medidas para reduzir a mudança climática, aumentar a segurança nas eleições, exigir histórico pessoal para compras de armas, re-autorizar a Lei de Violência Contra a Mulher e reformar finanças de campanha. Todas estão marinando no inbox de McConnell. Trump não parece estar ciente de nenhuma delas.

Não há nada inerentemente errado com o golfe, assistir TV ou tuítes. Mas se isso é tudo o que um presidente faz quando a nação está imersa em crises, ele não é um presidente.

Os tuítes de Trump não substituem a governância. São, em sua maioria, sobre ajuste de contas.

Quando ele não está fomentando a violência contra manifestantes negros, ele está acusando uma personalidade midiática de cometer assassinato, retuitando xingamentos sobre o peso de uma legisladora negra, conjurando conspirações contra ele mesmo supostamente organizadas por Hillary Clinton e Barack Obama, e encorajando seus seguidores a “liberarem” seus estados das restrições de confinamento.

Ele tuita ameaças que não possui poder suficiente para conduzir – travar financiamento de estados que ampliem o número de eleitores ausentes, “depor” governadores que não permitam que locais religiosos reabram “imediatamente”, e punir o Twitter por checar os fatos das informações que ele escreve.

E ele mente incessantemente.

Na realidade, Donald Trump não governa os Estados Unidos. Ele não gerencia nada. Ele não organiza ninguém. Ele não administra ou supervisiona. Ele não lê memorandos. Ele odeia reuniões. Não tem paciência para conferências. Sua Casa Branca é um caos perpétuo.

Seus conselheiros não são honestos. São lacaios, bajuladores e parentes.

Desde que entrou no Salão Oval em janeiro de 2017, Trump não mostrou um pingo de interesse em governar. Ele é obcecado por ele mesmo.

Mas foram necessárias as crises atuais para revelar a profundidade de sua abnegação – seu repúdio total à sua administração e seu imenso desprezo pelo seu trabalho.

Sua má conduta vai além de um líder ausente ou de uma desatenção à normas tradicionais. Em tempos de trauma nacional, ele renunciou a tarefas importantes e responsabilidade presidenciais.

Ele não é mais o presidente. Quanto antes pararmos de tratá-lo como tal, melhor.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



Conteúdo Relacionado