Pelo Mundo

Foi a ascensão da classe de Davos que selou o destino dos EUA

A aceitação do neoliberalismo por Clinton foi desastrosa. A única resposta agora é atacar os bilionários. Vamos deixar de lado o que estiver nos atrasando.

11/11/2016 18:02

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Créditos da foto: Divulgação

Eles irão culpar James Comey e o FBI. Irão culpar a contenção dos eleitores e o racismo. Eles irão culpar “Bernie or Bust” e a misoginia. Eles irão culpar outros partidos e candidatos independentes. A mídia corporativa por ter dado à ele a plataforma, as redes sociais por serem amplificadores, e o WikiLeaks por arejar a roupa suja.

Mas isso deixa de fora a força mais responsável por criar o pesadelo no qual nos encontramos agora e bem acordados: o neoliberalismo. Essa visão mundial – personificada completamente por Hillary Clinton e sua máquina – não combina com o estilo extremista de Trump. A decisão de concorrerem um contra o outro foi o que selou nosso destino. Se não aprendemos mais nada, podemos, por favor, aprender com esse erro?

Aqui está o que temos que entender: muita gente está sofrendo. Com as desregulações das políticas neoliberais, privatizações, austeridade e comércio corporativo, seus padrões de vida decaíram muito. Perderam empregos. Perderam aposentadorias. Perderam boa parte da rede de segurança que deixava essas perdas menos assustadoras. Eles vêem um futuro para suas crianças bem pior do que o presente precário.

Ao mesmo tempo, testemunharam a ascensão da classe de Davos, uma rede hiper conectada de bilionários de tecnologia e dos bancos, líderes eleitos que estão terrivelmente confortáveis com esses interesses, e celebridades de Hollywood que fazem tudo parecer tão glamuroso. O sucesso é uma festa para a qual eles não foram convidados, e eles sabem em seus corações que esse poder e riqueza em crescimento estão, de algum modo, conectados às suas dívidas crescentes e sua impotência.

Para as pessoas que viram segurança e status como direito de nascença – e isso significa, homens brancos, em sua maioria – essas perdas são insuportáveis.

Donald Trump fala diretamente com essa dor. A campanha do Brexit falou com essa dor. Bem como todos os partidos de extrema direita em ascensão na Europa. Eles respondem com nacionalismo nostálgico e raiva para com as burocracias econômicas remotas – sejam Washington, Acordo de Livre Comércio da América do Norte, Organização Mundial do Comércio ou a União Européia. E, é claro, eles respondem destruindo imigrantes e negros, difamando muçulmanos e menosprezando mulheres. A elite do neoliberalismo não tem nada a oferecer à essa dor, porque o neoliberalismo libertou a classe de Davos. Pessoas como Hillary e Bill Clinton são o brinde da festa de Davos. Na realidade, eles que deram a festa.

A mensagem de Trump foi: “Tudo está um inferno”. Clinton respondeu: “Tudo está bem”. Mas não está nada bem – e longe disso.

Respostas neo-nazistas à insegurança e desigualdade excessivas não vão embora. Mas pelo o que sabemos de 1930 é que o que precisamos para batalhar contra o fascismo é uma esquerda de verdade. Uma boa parte do apoio de Trump poderia ter sido retirado se existisse uma agenda de redistribuição genuína na mesa. Uma agenda para atacar os bilionários com mais do que retórica, e usar o dinheiro para um “new deal” verde. Tal plano poderia criar uma maré de empregos bem remunerados, poderia levar recursos necessários e oportunidades às comunidades negras, e insistir que os poluidores paguem para seus trabalhadores serem reeducados e totalmente incluídos no futuro.

Poderia moldar políticas que lutam contra o racismo estrutural e institucionalizado, desigualdade econômica e mudança climática ao mesmo tempo. Poderia atacar acordos comerciais ruins e violência policia, e honrar pessoas indígenas como os verdadeiros protetores de suas terras, água e ar.

As pessoas têm o direito de ficar com raiva, e uma agenda poderosa e interseccional de esquerda pode direcionar essa raiva para onde ela merece, enquanto luta por soluções holísticas que unirão a sociedade.

Tal coalizão é possível. No Canadá, começamos a remendar tudo isso sob o banner de uma agenda popular chamada The Leap Manifesto, endossado por mais de 220 organizações desde o Greenpeace Canadá até o Black Lives Matter Toronto, e alguns dos maiores sindicatos.

A impressionante campanha de Bernie Sanders foi em direção da construção desse tipo de coalizão, e demonstrou que o apetite por um socialismo democrático está vivo. Mas houve uma falha na campanha em se conectar com com pessoas negras idosas e eleitores latinos que são mais abusados demograficamente pelo nosso modelo atual de sistema econômico. Essa falha não permitiu que a campanha alcançasse todo seu potencial. Esses erros podem ser corrigidos e uma coalizão forte e transformadora ainda está presente para ser construída.

Essa é a nossa próxima tarefa. O Partido Democrata necessita ser arrancado dos neoliberais pró-corporações ou deve ser abandonado. Desde Elizabeth Warren até Nin Turner, ao Occupy de antigos estudantes que tomaram a campanha de Bernie, há um campo forte de líderes progressistas inspirados nessa coalizão, como nunca houve antes. Estamos com “muitos líderes”, como muitos do movimento Black Lives Matter dizem.

Então vamos sair do choque e construir um tipo de movimento radical que tenha uma resposta genuína ao ódio e medo representados pelos Trumps do mundo.

Vamos deixar de lado o que quer seja que esteja nos dividindo e vamos começar agora.



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