Pelo Mundo

Forças Armadas do Chile se negam a novo Estado de Exceção, obrigando Piñera a convocar policiais reformados para promover sua agenda de segurança

 

14/11/2019 14:14

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
O governo de Sebastián Piñera teve uma grande derrota nesta semana, quando foi impedido de anunciar a retomada do Estado de exceção, devido a que não contava com apoio das Forças Armadas para tal medida. Tal situação dá a entender que os protestos continuarão no Chile, durante os próximos dias.

Na noite de terça-feira (12/11), os noticiários de televisão estenderam sua duração até as 23h, esperando a palavra do presidente, enquanto mostravam imagens de saques, incêndios e violência. No mesmo momento, no Palácio de La Moneda, telefonemas urgentes entre assessores presidenciais e representantes militares, davam o tom da situação tensa do momento.

Segundo a imprensa local, La Moneda teria decidido decretar um novo Estado de Exceção no país, colocando novamente os militares nas ruas, devido aos numerosos casos de vandalismos – como a queima da sede governamental na Província de Concepción, o incêndio do quartel militar de Tejas Verdes.

Em algum momento, chegou a cogitar-se um decreto de Estado de Sitio, algo que, no fim das contas, era um pouco mais improvável, já que uma medida como essa, que inclui a censura prévia à imprensa – deve contar com a aprovação do Congresso.

Finalmente, às 22h30 daquela terça, Piñera falou em rede nacional, ao lado do ministro do Interior, Gonzalo Blumel, e da porta-voz do governo, Karla Rubilar, para criticar a situação de segurança pública e anunciar que poderia convocar policiais reformados (aposentados) para reforçar a segurança pública nas ruas. Em seguida, o presidente afirmou que a agenda social proposta há duas semanas iria se intensificar. Também se comprometeu a realizar um processo para uma nova Constituição, mas sem maiores detalhes sobre qual seria a fórmula para se chegar a ela.

Esta atitude do governo, novamente atrasada com relação ao avançar dos acontecimentos, levou a oposição a divulgar um comunicado conjunto de todos os partidos, incluindo a Democracia Cristã, exigindo passos concretos do governo de Piñera.

Outro problema de Piñera é a falta de apoio institucional. Segundo informações da imprensa local, a decisão das Forças Armadas com respeito a situação atual é diferente da que tomou quando foi convocado o primeiro Estado de exceção, em outubro. Para os altos comandantes militares chilenos, a solução para a crise no país deve ser política. As autoridades policiais também estão sendo muito questionados, devido à violência extrema utilizada contra a população civil, e teme que alguns de seus efetivos possam começar a desertar, especialmente por temor a consequências judiciais.

Anúncios vazios

Enquanto isso, do lado da oposição, houve uma postura transversal – da Frente Ampla, mais à esquerda, até a Democracia Cristã, mais de centro – de exigir de Piñera medidas radicais para acalmar o mal-estar da cidadania. Além disso, há opiniões críticas mesmo dentro do partido governista, como as de Mario Desbordes, presidente do partido Renovação Nacional (o mesmo de Piñera), e as do senador Manuel José Ossandón.

Em seu discurso de terça-feira, após perder o apoio dos militares, o presidente fez três grandes anúncios:

1) Um acordo pela paz e contra a violência: segundo ele, para condenar a violência que se vive no país nos últimos dias, buscado condenar diretamente “quem a realiza, quem é cúmplice e quem a tolera”. Entretanto, em nenhum momento se referiu à violência policial, e tampouco falou em medidas concretas sobre o tema.

2) Um acordo pela justiça social: Piñera afirmou que pretende “uma robusta agenda social, para criar um Chile mais justo, com equidade e menos abusos, com maior igualdade de oportunidades e menos privilégios”. Mas, novamente, não entregou os detalhes específicos sobre como faria isso.

3) Um acordo pela nova Constituição: um tema que, há três semanas atrás, não estava nem perto de fazer parte do horizonte do governo, mas que agora se tornou inevitável. Piñera deu um passo na direção de uma nova carta magna, porém “dentro do marco da nossa institucionalidade democrática, e com clara e efetiva participação da cidadania”. Como nos outros dois anúncios, ele não especificou o mecanismo para se elaborar essa nova Constituição, apenas disse que haveria um “plebiscito de ratificação, para que os cidadãos tenham a última palavra”.

Os anúncios do mandatário não produziram grandes efeitos. Depois do seu discurso, no centro de Santiago, houve nova jornada de panelaços.

Após quase um mês de iniciados os protestos no país, o país registrou uma das maiores mobilizações durante o período, na terça-feira 12 de novembro, embora novamente marcada pelo uso de gases lacrimogêneos e balas de borracha por parte da polícia. As centenas de milhares de pessoas que se manifestaram nas ruas do país nos últimos dias sofreram forte repressão. “Renuncia Piñera” foi o grito mais escutado em todas as cidades de norte a sul do Chile.

*Publicado originalmente em Interferencia.cl | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado