Pelo Mundo

Francisco foi até a Sierra Maestra

O papa se despediu de Cuba com uma missa próxima à legendária Sierra Maestra, de onde Fidel desceu, em 1959, para fazer a Revolução.

23/09/2015 00:00

Ismael Francisco / Cubadebate

Créditos da foto: Ismael Francisco / Cubadebate

Francisco encerrou nesta terça-feira (22/9) sua viagem de cinco dias a Cuba, celebrando uma missa em um povoado encravado em plena Sierra Maestra, de onde os vitoriosos guerrilheiros barbudos, encabeçados por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, partiram para conquistar o país.
 
Foi a primeira missa realizada por um sumo pontífice no santuário da padroeira nacional – Nossa Senhora da Caridade do Cobre – no sudeste da ilha que tem forma de lagarto, e que se localiza perigosamente perto da Flórida.
 
A maior das antilhas é “um ponto de encontro entre o norte e o sul”, disse o papa, com uma parábola sobre a aproximação entre cubanos e estadunidenses, anunciada em dezembro e formalizada com a abertura das embaixadas, em julho.
 
No bonito santuário da Virgem do Cobre, Jorge Mario Bergoglio propôs, diante de centenas de fiéis e do presidente Raúl Castro que os cubanos apostem na “revolução da ternura”.
 
Também fez um apelo à militância católica (semelhante ao que realizou em 2013, no Rio de Janeiro, quando pediu que “façam barulho”) ao dizer que “queremos ser uma Igreja que sai de casa para criar pontes, romper os muros, semear reconciliação”. O chamado foi a construir “uma Igreja comprometida com a vida, a cultura, a sociedade, saindo sem medo a caminhar junto com nossos irmãos”.
 
Fora do relativamente pequeno templo do povoado do Cobre, a cerca de 25 kms de Santiago de Cuba, milhares de fiéis acompanhavam a liturgia com balões azuis e vermelhos, entrelaçados com outros amarelos e brancos, simbolizando a boa relação entre os estados de Cuba e do Vaticano.
 
Na catedral da cidade de Santiago, Francisco disse que “a família nos salva de dois fenômenos atuais, como a fragmentação e a massificação. As sociedades divididas, fraturadas, separadas ou altamente massificadas são consequência da ruptura dos laços familiares, quando se perdem as relações que nos constituem, que nos ensinam a ser pessoas”.
 
Esse sermão foi uma antecipação do que dará em Filadélfia, no próximo domingo, quando encabeçará a Jornada Mundial da Família, pondo fim a sua passagem pelos Estados Unidos, que começa nesta quarta-feira (22/9).
 
Ao chegar, Francisco foi recebido por Barack Obama, em Washington, onde pronunciará um discurso no Capitólio, antes de partir a Nova York, para falar durante a Assembleia da ONU.
 
Um detalhe: Obama e Raúl Castro estarão nos eventos pelo 70º aniversário da ONU, e não se descarta que ambos voltem a se encontrar, como fizeram em abril, na Cúpula das Américas, no Panamá. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, admitiu que essa reunião é possível, agora que as relações estão retomadas, graças à mediação de Francisco.
 
Opção preferencial pela América Latina
 
Antes de aterrizar em Havana, Holguín e Santiago de Cuba, Francisco realizou uma peregrinação por outros países latino-americanos, com a qual mostrou sua opção preferencial por este continente majoritariamente católico – apesar da pequena guerra religiosa promovida pelos pastores neopentecostais, os novos marines da espiritualidade.
 
Em março de 2013, poucos dias depois de ser eleito no Conclave dos Cardeais, Francisco recebeu a presidenta Dilma Rousseff no Vaticano.
 
A mandatária brasileira o felicitou por ser o primeiro papa latino-americano e o anfitrião acrescentou que também era o primeiro jesuíta e o primeiro “peronista”.
 
Uma das poucas testemunhas desse diálogo entre Bergoglio e Dilma foi Gilberto Carvalho, ex-secretário geral da Presidência e ex-seminarista, que relatou a cena a este repórter, durante uma entrevista no Palácio do Planalto, em fevereiro de 2014.
 
Em sua condição de papa peronista, e de figura política, Bergoglio se encontrou com a governante do maior país latino-americano, com a população católica mais numerosa do mundo, antes de receber os atributos de papa.
 
A reverência a Dilma, assim como o fato de escolher o cardeal Paulo Hummes para que o acompanhe em sua primeira aparição na varanda do Vaticano, foram movimentos significativos. Indicavam o rumo desta nova geopolítica da Fé, rompendo com o eurocentrismo hegemônico que imperou durante dois milênios na hierarquia eclesiástica, do qual o alemão Joseph Ratzinger (2005-2013) e o polaco Karol Wojtyla (1978-2005) foram representantes.
 
Restabelecidos os vínculos com o governo do PT – que haviam se quebrado desde o apoio de Ratzinger a José Serra nas eleições presidenciais de 2010 – o papa Francisco contou com todo o apoio de Dilma para organizar uma missa de mais de 2 milhões de fiéis em Copacabana, em julho de 2013, quando também visitou uma favela e passeou com o seu “Papamóvel” sem proteção.
 
Seu discurso contra a desigualdade, a exclusão e o capitalismo ateu facilitou o diálogo com a Teologia da Libertação, favorecido pelos dois eventos com os movimentos populares realizados no Vaticano e na Bolívia – o mesmo país onde foi acolhido este ano, se encontrando com o presidente indígena Evo Morales.
 
Cúpula de jesuítas
 
Enquanto Bergoglio mostrava seu carisma, com o qual cativou as almas de milhões de latino-americanos que estavam desencantados com a Igreja. Paralelamente, entre bastidores, realizava conversações discretas com emissários chegados de Cuba, contando com a colaboração de Havana e do cardeal Jaime Ortega, com quem estreitou relações no Conclave de março de 2013, na Santa Sé.
 
O cardeal Ortega foi saudado calorosamente por Francisco, quando este desembarcou em Havana, e esteve sempre ao lado do papa durante a viagem dele pelo país.
 
Bergoglio nasceu e cresceu no bairro portenho de Floresta, um setor popular da capital argentina, onde ele aprendeu o valor da lealdade, o que depois foi reforçado por sua formação jesuíta. Os que conhecem o papa portenho dizem que ele sabe premiar aqueles que são leais a ele, como foi Ortega, quem, para isso, rompeu seus laços com os antigos aliados da comunidade contrarrevolucionária de Miami.
 
Nos discursos e sermões que pronunciou em Cuba, o último realizado nesta quarta-feira, em Santiago, Bergoglio não se prestou ao jogo promovido por Miami, pela endinheirada comunidade de exilado e seus órgãos de imprensa, como o diário de ultradireita Miami Herald.
 
Pelo contrário: no balance destes cinco dias em Cuba, o sumo pontífice foi respeitoso com o governo revolucionário e sua legitimidade, ao mesmo tempo que reafirmou seu respaldo aos entendimentos entre Havana e Washington, que leva implícita uma crítica ao bloqueio.
 
Bergoglio celebrou uma missa na Praça da Revolução, com tom austero, pastoral, eludindo as consignas incendiárias do anticomunista João Paulo II.
 
Se encontrou com Fidel, de quem recebeu um exemplar do livro “Fidel e a religião”, escrito por Frei Betto, outro gesto em favor do progressismo católico e da Teologia da Libertação.
 
Ele também presentou o comandante com discos e textos do padre Armando Llorente, que foi professor do líder da Revolução, em seus anos de estudante da escola jesuíta de Belen.
 
Anos atrás, Castro se referiu à sua passagem pela escola Compañía de Jesús, e disse que ela havia contribuído a formar seu espírito revolucionário.
 
“O feto de que Fidel e Raúl tenham estudado em colégios jesuítas e que Bergoglio seja dessa ordem ajudou a criar um clima de confiança política entre eles?” perguntou Carta Maior ao diplomata Eduardo Félix Valdés, que trabalha no Vaticano.
 
“Não tenha a menor dúvida de que esse elemento teve muito a ver com tantos progressos nas relações entre Cuba e o Vaticano, e em tantos progressos no descongelamento das relações entre Estados Unidos e Cuba”, respondeu Valdés, um dos diplomatas que desembarcou em Havana.
 
A biógrafa do papa, a escritora italiana Francesca Ambrogetti concordou com a opinião de Eduardo Valdés.
 
“O fato de que Francisco seja jesuíta e que Fidel e Raúl Castro tenham sido educados em escolas jesuítas pode ser a grande coincidência dessa relação” respondeu Ambrogetti, em conversa com Carta Maior, e acrescentou: “eu diria, sem ser categórica, que a formação jesuíta dos três pode ter ajudado ao entendimento entre eles. A formação jesuíta os levou a ter alguns códigos em comum, e essa formação é algo que sobressai claramente no caráter de Francisco – tanto que a biografia que estamos escrevendo dele leva o título de `O Jesuíta´”.
 
Tradução: Victor Farinelli





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