Pelo Mundo

G-8: Vitória dos manifestantes, dúvida sobre o resultado

08/06/2007 00:00

ROSTOCK (Alemanha) - Nesta sexta-feira, 8 de junho, sob forte calor, começou o último dia de trabalho da reunião do G-8, a cúpula que reúne anualmente os sete países mais industrializados do mundo (EUA, Reino Unido, Franca, Japão, Canadá, Itália, a anfitriã Alemanha) e a Rússia.

Na parte da manhã a reunião inaugurou o encontro do G-8 com o agora chamado G-5, o grupo de países especialmente convidado para esta rodada: Brasil, África do Sul, China, Índia e México. O presidente Bush não esteve presente na abertura da reunião, por volta das 10h30 da manhã, devido a um leve mal-estar estomacal, segundo porta-voz da presidência. Mas pela uma da tarde ele já estava presente à reunião.

Na pauta da reunião de sexta-feira, como na maior parte dos encontros de quarta e quinta-feira, está o complexo tema de como deter o aquecimento global e que tipo de compromisso obter entre essas e outras nações.

Os Estados Unidos trouxeram, como novidade, uma declaração do presidente Bush de que o país trabalharia na direção de um acordo paralelo ao Protocolo de Quioto, mas sem compromissos ou metas claramente definidos. Depois de uma semana em que manifestou pessimismo, a primeira-ministra alemã Angela Merkel manifestou ter obtido uma vitória parcial, fazendo (com pressão também do primeiro-ministro britânico Tony Blair) com que o presidente Bush se manifestasse pelo menos inclinado a considerar propostas de redução das emissões de gás carbônico na atmosfera. A imprensa conservadora alemã saudou em grandes manchetes essa alegada “vitória” de Merkel. O jornal sensacionalista e conservador Bild chegou a apresentá-la como “Miss Mundo”. Jornais mais à esquerda foram mais céticos, ressaltando que a declaração de propósitos comuns tinha por objetivo muito mais salvar o G-8 do que propriamente o mundo, uma vez que os termos do compromisso obtido são vagos e distantes.

O acordo de princípios fala numa redução de 50% das emissões de gás carbônico em relação aos índices de 1990, até 2050. Mas não há cronograma ainda (embora os chefes de estado tenham declarado que isso é assunto para ministérios do meio ambiente ou órgãos assemelhados). E fica de pé a questão de se esse índice será negociado com os países do G-5, sobretudo com a China, que até o momento vem se mantendo numa posição tão recalcitrante em relação a acordos internacionais nessa área quanto os Estados Unidos.

O acordo também foi criticado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que reclamou da necessidade dos países mais ricos estabelecerem compromissos mais claros, uma vez que eles foram os maiores responsáveis pela poluição do planeta e ainda são, tendo responsabilidade por 60% das emissões de gás carbônico no mundo. Além disso, ainda em Berlim, antes de chegar a Heilingendamm, local da reunião, o presidente Lula criticou a falta de um cronograma preciso, argumentando que a meta de redução de 50% nas emissões até 2050 pode significar que até 2049 ninguém vai fazer nada.

Por seu lado, o ex-assessor do presidente Bill Clinton e ganhador do prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, em entrevista ao Spiegel On-Line, criticou duramente a política de Bush, dizendo-a diretamente responsável pelo aquecimento global e afirmando, além disso, que o presidente norte-americano é refratário a uma “linguagem civil” e precisa ser confrontado com atitudes mais dramáticas do que apenas declarações de princípio.

Numa outra frente, houve uma grande surpresa quando o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, ofereceu ao presidente Bush a possibilidade de ambos, seu país e os Estados Unidos, construírem uma base militar antimíssil conjunta na República do Azerbaijão, ex-integrante da finada União Soviética. A proposta de Putin surpreendeu a todos num momento em que se falava de um retorno aos tempos da guerra fria, depois de o primeiro-ministro ter feito declarações no passado recente dizendo que os mísseis do seu país poderiam se voltar de novo para a Europa e de o presidente Bush ter reafirmado o compromisso com o governo da República Tcheca e da Polônia no sentido de construir uma rede de radares e bases antimísseis nos dois países.

Bush tentou amenizar as declarações, feitas na véspera da reunião do G-8, dizendo que “o inimigo” não era a Rússia, numa alusão talvez ao Irã ou mais remotamente à Coréia do Norte. Mas a declaração não surtiu efeito nem rompeu o azedume da diplomacia russa diante dessa nova ameaça de bases militares com baterias voltadas para o leste e tão perto de seu país. Ao contrário, o movimento de Putin sinalizou a possibilidade de novas conversações. Disse o primeiro ministro que já há uma base no Azerbaijão, que antes era parte do sistema defensivo da União Soviética, e que ela poderia ser utilizada para a nova instalação conjunta. Como tudo no G-8, não houve um compromisso definido, mas Bush declarou que os analistas norte-americanos iriam considerar a proposta.

Numa terceira frente das discussões multi ou bilaterais, os países do G-8 se comprometeram na quinta-feira a repassar uma ajuda de 60 bilhões de dólares à África. Mas mesmo esse movimento gerou novas dúvidas, pois em 2005 o mesmo grupo de países comprometeu-se com o envio de 25 bilhões de dólares em ajuda ao continente africano, mas apenas um terço dessa quantia foi de fato liberada.

Enquanto isso, as manifestações e protestos continuaram na cidade vizinha de Rostock e nas imediações de Heiligendamm. Na tarde de quinta-feira 80 mil manifestantes, segundo os organizadores, reuniram-se para um show de rock com estrelas famosas na Alemanha, entre elas o holandês Youssou N´Dour e o compositor e cantor alemão Herbert Grönemeyer, que prometeu fazer duras cobranças em relação às promessas de Angela Merkel de aumentar a ajuda alemã ao continente africano.

Os confrontos entre policiais e manifestantes foram menos dramáticos do que os de sábado (com um saldo de 1000 feridos) ou de segunda-feira, quando foram dominados pelo grupo dos autoproclamados Chaoten, Caóticos, ou Autonomen, Autônomos. Tanto na quarta quanto na quinta-feira os manifestantes bloquearam estradas de acesso a Heiligendamm, e tentaram se aproximar da cerca de 12 km. Que impede o acesso à cidade-balneário onde se realiza o encontro, por vezes marchando e cantando bucolicamente entre trigais quase prontos para a colheita. Houve confrontos em que a polícia chegou a usar jatos de água, gás lacrimogêneo e a efetuar algumas detenções. Mas de um modo geral os manifestantes cantaram vitória, pois a polícia, pateticamente, reconheceu não estar preparada para lidar com protestos pacíficos daquela natureza, e os organizadores da reunião em Heiligendamm reviram seus planos originais, fazendo o pessoal de serviço, de tradutores a copeiros e carregadores de mala, ter acesso ao hotel do encontro através do mar e do uso de barcas. Ainda assim, no mar, dois barcos do Greenpeace conseguiram entrar nas águas próximas do hotel, sendo perseguidos durante dez minutos e finalmente detidos (um deles foi praticamente abalroado) por embarcações da marinha alemã, mas sem maiores conseqüências.

Uma coisa é certa, independentemente do fracasso ou do sucesso dos resultados da reunião oficial do G-8 e daquela com o G-5 e outros países pobres da África também convidados: esse encontro em Heiligendamm propiciou o reforço do movimento altermundista na Alemanha. Num primeiro momento os protestos ameaçaram perder seu conteúdo político em favor de uma idéia do confronto pelo confronto, imposta pela ação tão dramática quanto destituída de propostas explícitas dos Chaoten. Embora, seja necessário reconhecer, a ação dos Chaoten não seja destituída de significado político – tema para uma futura matéria. Mas na medida em que os protestos e o encontro avançou, o sentido político de contestar que os destinos do mundo sejam decididos num clube tão pequeno e tão desprovido de compromissos concretos com o resto do mundo ao longo de sua história.


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