Pelo Mundo

General, ex-secretário de Defesa, acusa Trump

Em uma extraordinária condenação, o ex-secretário de Defesa apoia manifestantes e diz que o presidente está tentando virar os norte-americanos uns contra os outros

04/06/2020 14:26

(Christie Hemm Klok)

Créditos da foto: (Christie Hemm Klok)

 

James Mattis, o estimado general da Marinha, que renunciou ao cargo de secretário de Defesa em dezembro de 2018 para protestar contra a política de Donald Trump na Síria, tem, desde então, mantido um silêncio cuidadoso sobre o desempenho de Trump como presidente. Mas agora ele quebrou seu silêncio, escrevendo uma nota extraordinária na qual denuncia o presidente por dividir a nação e o acusa de ordenar que os militares dos EUA violem os direitos constitucionais dos cidadãos americanos.

“Eu assisti aos eventos que se desenrolaram nesta semana, zangado e horrorizado”, escreve Mattis. “As palavras ‘Iguais perante à Lei’ estão gravadas no frontão da Suprema Corte dos Estados Unidos. É exatamente isso que os manifestantes, com razão, exigem. É uma demanda saudável e unificadora - uma demanda que todos nós deveríamos ser capazes de apoiar. Não devemos nos distrair com um pequeno número de infratores da lei. Os protestos são definidos por dezenas de milhares de pessoas conscientes, que insistem em que cumpramos nossos valores - nossos valores como pessoas e nossos valores como nação.” Ele continua “Devemos rejeitar e responsabilizar aqueles em cargos públicos que zombarem da nossa Constituição.”

Em seu ‘j’accuse’, Mattis critica o presidente por colocar os norte-americanos, uns contra os outros.

“Donald Trump é o primeiro presidente da minha vida que não tenta unir o povo americano - nem mesmo finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir. Estamos testemunhando as consequências de três anos desse esforço deliberado. Estamos testemunhando as consequências de três anos sem uma liderança madura. Podemos nos unir sem ele, aproveitando as forças inerentes à nossa sociedade civil. Isso não será fácil, como mostraram os últimos dias, mas devemos isso aos nossos concidadãos; às gerações passadas que sangraram para defender nosso compromisso; e aos nossos filhos."

Ele continua contrastando o ethos americano da unidade com a ideologia nazista. “As instruções dadas pelos departamentos militares a nossas tropas, antes da invasão da Normandia, lembraram aos soldados que ‘o slogan nazista para nos destruir ... era 'Dividir e Conquistar'. Nossa resposta americana é 'Na união há força'. Devemos convocar essa unidade para superar essa crise - confiantes de que somos melhores que nossa política."

A insatisfação de Mattis com Trump não era segredo dentro do Pentágono. Mas após sua renúncia, ele argumentou publicamente - e sob grandes críticas - que seria inapropriado e contraproducente para um ex-general e um ex-funcionário do gabinete criticar um presidente em exercício. Fazer isso, disse ele, ameaçaria a natureza apolítica dos militares. Quando o entrevistei no ano passado sobre esse assunto, ele disse: “Quando você deixa um governo com claras divergências políticas, precisa dar às pessoas que ainda estão lá o máximo possível de oportunidades para defender o país. Eles ainda têm a responsabilidade de proteger esse nosso grande experimento.” Ele acrescentou, no entanto: “Há um período em que devo manter meu silêncio. Não é eterno. Não vai ser para sempre."

Esse período terminou definitivamente. Mattis chegou à conclusão, no fim de semana passado, que o experimento americano está diretamente ameaçado pelas ações do presidente que ele serviu. Em sua declaração, Mattis deixa claro que a resposta do presidente ao assassinato de George Floyd, pela polícia, e os protestos que se seguiram, desencadearam essa condenação pública.

“Quando entrei para o exército, há 50 anos”, escreve ele, “jurei apoiar e defender a Constituição. Nunca sonhei que, às tropas que prestaram o mesmo juramento, fosse ordenado, em circunstância alguma, violar os direitos constitucionais de seus concidadãos - muito menos para fornecer uma foto bizarra do comandante em chefe eleito, com a liderança militar do seu lado.”

Ele passa a criticar implicitamente o atual secretário de defesa, Mark Esper, e outros altos funcionários também. "Temos que rejeitar qualquer pensamento de nossas cidades como um ‘espaço de batalha’ que nossos militares uniformizados são chamados a ‘dominar’. Em casa, devemos usar nossas forças armadas somente quando solicitado, em raras ocasiões, pelos governadores estaduais. Militarizar nossa resposta, como testemunhamos em Washington, D.C., cria um conflito - um conflito falso - entre a sociedade militar e a sociedade civil. Corrói o terreno moral que garante um vínculo confiável entre homens e mulheres de uniforme e a sociedade que eles juraram proteger e da qual eles próprios fazem parte. Manter a ordem pública cabe aos líderes civis estaduais e locais que melhor entendem suas comunidades e são responsáveis perante elas.”

Aqui está o texto da declaração completa.

“Na união há força

Eu assisti aos eventos que se desenrolaram nesta semana, zangado e horrorizado. As palavras ‘Iguais perante à Lei’ estão gravadas no frontão da Suprema Corte dos Estados Unidos. É exatamente isso que os manifestantes com razão, exigem. É uma demanda saudável e unificadora - uma demanda que todos nós deveríamos ser capazes de apoiar. Não devemos nos distrair com um pequeno número de infratores da lei. Os protestos são definidos por dezenas de milhares de pessoas conscientes que insistem em que cumpramos nossos valores - nossos valores como pessoas e nossos valores como nação.

Quando entrei para o exército, há 50 anos, jurei apoiar e defender a Constituição. Nunca sonhei que, às tropas que prestaram o mesmo juramento, fosse ordenado, em circunstância alguma, violar os direitos constitucionais de seus concidadãos - muito menos para fornecer uma foto bizarra do comandante em chefe eleito, com a liderança militar do seu lado.

Temos que rejeitar qualquer pensamento de nossas cidades como um ‘espaço de batalha’ que nossos militares uniformizados são chamados a ‘dominar’. Em casa, devemos usar nossas forças armadas somente quando solicitado, em raras ocasiões, pelos governadores estaduais. Militarizar nossa resposta, como testemunhamos em Washington, D.C., cria um conflito - um conflito falso - entre a sociedade militar e a sociedade civil. Corrói o terreno moral que garante um vínculo confiável entre homens e mulheres de uniforme e a sociedade que eles juraram proteger e da qual eles próprios fazem parte. Manter a ordem pública cabe aos líderes civis estaduais e locais que melhor entendem suas comunidades e são responsáveis perante elas.

James Madison, escreveu no Federalist 14 ,que ‘a América unida com um punhado de tropas, ou sem um único soldado, exibe uma postura mais proibitiva à ambição estrangeira, do que a América desunida, com cem mil veteranos prontos para o combate’. Não precisamos militarizar nossa resposta aos protestos. Precisamos nos unir em torno de um propósito comum. E isso começa garantindo que todos nós somos iguais perante a lei.

As instruções dadas pelos departamentos militares a nossas tropas antes da invasão da Normandia lembraram aos soldados que ‘o slogan nazista para nos destruir ... era 'Dividir e Conquistar'. Nossa resposta americana é 'Na união há força’.’ Devemos convocar essa unidade para superar essa crise - confiantes de que somos melhores que nossa política.

Donald Trump é o primeiro presidente da minha vida que não tenta unir o povo americano - nem mesmo finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir. Estamos testemunhando as consequências de três anos desse esforço deliberado. Estamos testemunhando as consequências de três anos sem uma liderança madura. Podemos nos unir sem ele, aproveitando as forças inerentes à nossa sociedade civil. Isso não será fácil, como mostraram os últimos dias, mas devemos isso a nossos concidadãos; às gerações passadas que sangraram para defender nosso compromisso; e aos nossos filhos.

Podemos passar por esse período difícil, com um renovado senso de propósito e respeito um pelo outro. A pandemia nos mostrou que não são apenas nossas tropas que estão dispostas a oferecer o sacrifício máximo pela segurança da comunidade. Americanos em hospitais, supermercados, correios e outros lugares colocaram suas vidas em risco para servir seus concidadãos e seu país. Sabemos que somos melhores do que o abuso de autoridade executiva que testemunhamos na Praça Lafayette. Devemos rejeitar e responsabilizar aqueles em cargos públicos que zombarem da nossa Constituição. Ao mesmo tempo, devemos lembrar os ‘melhores anjos’ de Lincoln e ouvi-los enquanto trabalhamos para nos unir.

Somente adotando um novo caminho - o que significa, na verdade, retornar ao caminho original de nossos ideais fundadores - seremos novamente um país admirado e respeitado em casa e no exterior.”

*Publicado originalmente em 'The Atlantic' | Tradução de César Locatelli

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