Pelo Mundo

Go, America, Go!

10/05/2011 00:00

Reginaldo Nasser e Marina Mattar Nasser

Se a Al-Qaeda, como muitos estudos indicam, não constitui uma organização extensa e nem mesmo possui vínculos diretos com grupos islâmicos ao redor do mundo; se a Al-Qaeda, ao que tudo indica, está mesmo enfraquecida, por que a morte de Bin Laden ainda reverbera, fazendo com que grupos, como o Talibã, possuam ainda mais motivações em sua luta? O caso do Talibã é fundamental para compreendermos isto.

As origens do Talibã, ao contrário do que muitos podem imaginar, não estão relacionada a Al-Qaeda; pelo contrário, os objetivos, propostas e ideais que influenciaram a criação do Talibã explicitam suas diferenças com a organização de Bin Laden. O Talibã surgiu no início dos anos 1990 como reação à crise econômica, política e social que envolvia o Afeganistão há mais de décadas e que não foram solucionadas pelo governo pós-soviético do partido Jamaad Islami, predominantemente dominado pela etnia dos tarjiques. O sentimento de injustiça foi combinado com uma motivação étnica e tribal do Talibã de retomar o poder para sua etnia, os pashtuns.

Os talibãs, assim como Bin Laden, compartilham a crença salafista de que por meio da aplicação da “shariah” será possível chegar a um mundo justo e perfeito. No entanto, o grupo, ao contrário da Al-Qaeda, não possui caráter internacionalista de modo que não pretende expandir isso para além das fronteiras dos pashtun. O Talibã é um grupo tribal e provinciano que nem mesmo evoca sentimento nacionalista pelo Afeganistão tanto que seu líder, o mulá Omar, nos sete anos de governo talibã, foi a Cabul apenas duas vezes.

A luta talibã pela conquista do poder no Afeganistão teve início em 1994 e dois anos depois, o grupo já se estabelecia no governo após a tomada de Cabul. Neste mesmo ano, Bin Laden se refugiou no país, mas, até então, nunca tinha tido contato com o Talibã. Bin Laden encontrou no Afeganistão a oportunidade de desenvolver campos de treinamento para ativistas islâmicos de todo o mundo, captar recursos e desenvolver sua propaganda, inclusive dando entrevistas à mídia ocidental. Mas seus planos atrapalhavam os do governo talibã que buscava reconhecimento internacional e nem mesmo coincidiam com as ambições do grupo pashtun. Mula Omar expressou seu descontentamento com Bin Laden diversas vezes.

O encontro do Talibã com a Al-Qaeda, que hoje observamos, foi muito mais uma decorrência das ações dos EUA e da ONU. Após os atentados às embaixadas na África Oriental, atribuído a Al-Qaeda, em 1998, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, ordenou que o Afeganistão fosse bombardeado numa tentativa de pressionar o governo a entregar Bin Laden. Três semanas após o ataque dos EUA, Mula Omar se encontrou com o príncipe saudita para desfazer o acordo que tinham realizado, no qual o Talibã tinha prometido entregar Bin Laden à Arábia Saudita.

O Afeganistão sofreu sanções militares e financeiras pela ONU por se recusar a entregar o terrorista saudita em 1999. Neste mesmo ano, o grupo havia proibido toda a produção de ópio do Afeganistão, maior renda do país, para obter o reconhecimento da comunidade internacional. Apenas a Arábia Saudita, o Paquistão e os Emirados Árabes Unidos reconheciam seu governo. O que os EUA e a ONU pareciam não compreender era que se o Talibã expulsasse Bin Laden após suas coerções, pareceria um fantoche dos norte-americanos, como todos os governos que criticavam.

As ações dos EUA e da ONU não só afastaram o Talibã de sua promessa de entregar-lhes Bin Laden, mas fizeram com que a única aliança possível aos talibãs fosse a Al-Qaeda. O grupo afegão se aproximou do líder saudita, pois todas as portas lhe foram fechadas. A invasão do Afeganistão em 2001 fez com que a aliança estratégica entre os dois grupos se concretizasse: agora, o Talibã compartilhava os mesmos inimigos e objetivos que a Al-Qaeda, expulsar os EUA e seus aliados de suas terras.

Em 2003, Bin Laden explicou sua luta: “Um fato fundamental e realista é que a terra (dos dois lugares sagrados, isto é, a Arábia Saudita) está ocupada – e se está ocupada (pelos militares norte-americanos), o maior mandamento depois da própria fé é repelir o inimigo agressivo”. Em carta endereçada ao povo americano, o saudita lhes aconselha “a fazer as malas e saírem das nossas terras”. A Al-Qaeda nunca realizou atentados contra Israel e apenas uma vez atentou contra objetivos judeus (Istambul, novembro de 2002); seus atentados contra os EUA tiveram início depois de 1990, quando os norte-americanos enviaram tropas a Arábia Saudita, Qatar e Bahrein e não décadas anteriores, quando os Estados Unidos começou a exportar valores culturais que repugnavam o fundamentalismo islâmico.

Se buscamos as respostas pelas quais o terrorismo ainda persiste no Oriente Médio, na Ásia Central e na África, basta olhar para as tropas norte-americanas presentes nas regiões: os EUA ocupam, hoje, o Afeganistão e o Iraque; possuem bases militares ou tropas no Egito, na Arábia Saudita, em Omã, Qatar, Israel, Jordânia, Kuwait, Paquistão, Afeganistão, entre outros. Se os norte-americanos desejam compreender por que muitos o odeiam ou por que não podem vencer a guerra contra o terror, precisam escutar as ruas do mundo árabe e islâmico.

No Líbano, um clérigo islâmico sintetizou a indignação de muitos muçulmanos quanto ao modo pelo qual Osama foi enterrado: “essa é uma forma dos EUA humilharem os muçulmanos”. Em Jacarta, os posters afirmam: Obama é um terrorista. E, nas ruas do Paquistão, em manifestações contra a morte de Bin Laden, lemos o claro recado: Go, America, Go!

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