Pelo Mundo

Golpe expresso à paraguaia e a lembrança de Honduras

23/06/2012 00:00

Darío Pignotti

O mais recente golpista paraguaio, Federico Franco, instalado desde ontem no Palácio de Lopez (sede da Presidência, em Assunção), enfrentará sua primeira prova de fogo diplomático na próxima semana, na Cordilheira dos Andes, que será a sede da reunião semestral dos presidentes do Mercosul, onde todos os seus membros, com a agora exceção guarani, foram eleitos em processos democráticos.

Cristina Fernandez de Kirchner analisou o quadro paraguaio em contatos com Dilma Rousseff e o presidente uruguaio José Mujica. Após essas conversas, avisou que franco, empossado após a derrubada de Fernando Lugo, é persona non grata na região.

“A Argentina não vai validar o golpe de Estado no Paraguai”, disse ontem a anfitriã da cúpula de presidentes do Mercosul da próxima semana, acrescentando que a posição dos países do bloco será consensuada, um requisito para dotá-la de mais força política e diplomática frente os golpistas paraguaios e, por tabela, o Departamento de Estado norteamericano.

“Vamos tomar o curso de ação que nossas chancelarias delinearam e atuaremos conjuntamente”, disse a presidenta, reafirmando a unidade da região, enquanto fontes de seu governo anteciparam que, segunda-feira, as Câmaras de Deputados e de Senadores se reunirão, por separado, para emitir uma declaração sobre a deposição de Fernando Lugo, a um ano do final de seu mandato.

Os chanceleres da Unasul (União Sul-americana de Nações), inclusive Antonio Patriota, desembarcaram em Assunção, na noite de quinta-feira, para tentar dissuadir a tentativa golpista que foi consumada na noite de sexta após um julgamento sumaríssimo no parlamento, o que representa uma aberração institucional que nenhum analista sério, de direita ou de esquerda, poderia considerar como equivalente a um processo de impeachment. Foi claramente um golpe de Estado. Talvez daqui a algumas décadas os cientistas políticos caracterizem essa derrubada como um novo formato de sedição, uma espécie de “Golpe Express”, protagonizado pelos congressistas.

O respaldo dado a Lugo, durante suas últimas horas no poder, foi um dado que marcou o comportamento dos presidentes sulamericanos. Dilma, Cristina Fernández de Kirchner, Evo Morales e Rafael Correa telefonaram para expressar-lhe seu apoio quando a crise institucional se agravou esta semana.

O ex-bispo e agora ex-presidente Lugo havia acumulado popularidade na opinião pública em 1999, durante as jornadas lembradas como “março paraguaio”, quando foram assassinados cerca de uma dezena de jovens militantes que se concentraram frente ao Congresso após o assassinato do então vice-presidente Luis Maria Argaña. A direita aprendeu a lição de 1999 e desta vez apurou o golpe contra Lugo antes que milhares de camponeses procedentes do interior chegassem à praça em frente ao Congresso.

Dilma acompanhou de perto a evolução (ou melhor dizendo, a involução) dos acontecimentos no Paraguai que desembocaram no golpe branco de sexta, aplaudido pela Associação Rural do Paraguai, pela cúpula da Igreja Católica e pelas forças de segurança. A notícia da derrubada de Lugo chegou ao Brasil pouco antes de a presidenta Dilma fazer o discurso de encerramento da Conferência Rio+20.

Segundo uma repórter da Globo News, que acompanhava a Rio+20 no Riocentro, o secretário geral da presidência, Gilberto Carvalho, comentou (a gravação não foi ao ar) que o mais recomendável é avaliar com atenção os passos a serem dados frente ao golpe de Estado que, de fato, restitui o poder institucional (nunca se afastaram do poder real) ao cartel militar-empresarial criado sob a ditadura de Alfredo Stroessner, falecido em Brasília há seis anos, onde gozava de asilo político.

O primeiro balanço do golpe indica que os governos do Brasil, da Argentina e do Uruguai foram pegos de surpresa pela dinâmica dos fatos no Paraguai, iniciados na sexta-feira (15) com o massacre de 11 camponeses sem terra e a morte de sete policiais numa fazenda localizada a 350 quilômetros de Assunção, cujo proprietário, Blas Riquelme, angariou uma fortuna graças a sua filiação ao Partido Colorado.

O partido de Strossner retomou desde ontem o centro da cena, a partir da queda de Lugo, apesar de que o golpista Franco pertença ao Partido Radical Liberal Auténtico, nascido como uma expressão opositora à ditadura, mas que com o decorrer dos anos sucumbiu à corrupção e às intrigas de poder da velha classe política.

Houve outras duas tentativas de golpe abortadas há um ano no Equador e três na Bolívia, mas em ambos os casos a resposta da coligação regional de governos democráticos contribuíram para impedi-los.

O caso paraguaio remete ao golpe de Honduras, que expulsou do poder o presidente Manuel Zelaya em junho de 2009, e logo em seguida forçou eleições fraudulentas, já que se realizaram sob um clima de terror e com proscrições, que levaram ao poder a Porfirio Lobo, em novembro desse mesmo ano.

Os Estados Unidos aprovaram o golpe contra Zelaya, a quem viam com receio por estar aliado a Hugo Chávez, respaldaram o processo eleitoral e depois, como era previsível, reconheceram a legalidade do mandato de Lobo, que não foi validada pela maioria dos governos americanos, com o Brasil liderando essa frente.

Assim como Washington se associou a Lobo para garantir a sua presença na América Central, especialmente frente à consolidação da Frente Sandinista no governo da Nicarágua, é possível que faça algo parecido com o neogolpista Franco.

Na carona deste mandatário marionete, Washington recupera o seu domínio pleno no estratégico umbigo da América do Sul.

Possivelmente o Departamento de Estado já não precisará forçar mais relatórios falsos sobre a suposta presença de células de Al Qaeda na Tríplice Fronteira Paraguai, Brasil e Argentina, para justificar a presença de tropas próprias.

O fim da efêmera experiência de Lugo restitui ao Paraguai o seu status de peça chave incondicional dos Estados Unidos, que valoriza geopoliticamente as fronteiras do país com o Brasil, a Argentina e, sobretudo, o extenso limite paraguaio com a Bolívia, país onde Washington sempre aspira voltar a influenciar, especialmente depois que os agentes da DEA foram expulsos pelo governo de Evo Morales.

Tradução: Libório Junior

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