Pelo Mundo

Golpes brandos ou autodeterminação

 

20/07/2021 12:13

Cubanos que vivem em Miami na semana passada expressaram seu apoio aos protestos contra o governo do presidente Miguel Díaz-Canel (Pedro Portal/Miami Herald via AP)

Créditos da foto: Cubanos que vivem em Miami na semana passada expressaram seu apoio aos protestos contra o governo do presidente Miguel Díaz-Canel (Pedro Portal/Miami Herald via AP)

 
Os tempos de pós-verdade e notícias falsas dificultam um debate honesto sobre os acontecimentos, sejam eles nacionais, regionais, latino-americanos ou globaisl, no plano econômico, político ou cultural. O Chile é um país “isolado”, e seus meios de comunicação o reproduzem dia a dia, reportando de maneira muito sucinta e homogeneamente tendenciosa, senão desinformada, aquilo que acontece além de nossas fronteiras. Na mídia, "notícia" é o que certas agências e grupos de informação distribuem e impõem como tal. Sim, queridos leitores que às vezes dão uma espiada nessas colunas. Estou falando sobre a nova tentativa de cerco digital e da mídia a Cuba, sobre o assassinato no Haiti, sobre a repressão e a terrível paramilitarização da política na Colômbia., sobre a tentativa de roubar as eleições de Pedro Castillo no Peru, com mais de um mês que a Junta Eleitoral não dá o vencedor como vencedor porque as elites dirigentes não o querem.

Estou falando do Oriente Médio, Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia, entre outros, e da tentativa dos Estados Unidos e da Europa de continuar dominando e governando por lá, um lugar de onde não são e ao qual não pertencem. Para o republicanismo democrático que, em muitos aspectos, me representa, liberdade não é, como pretende o neoliberalismo, fazer o que cada um quiser e que ninguém interfira nisso. Não. A liberdade é para nós, não dominação. Ou seja, a capacidade de exercer o autogoverno e a autonomia, desde a cidadania subjetiva até as ações de um povo autogestionado. E é isso que está em jogo neste tipo de nova onda de ataque que alguns designam como uma versão remoçada e privatizada do Plano Condor em nossa América. O que está acontecendo na Ilha, Haiti, Colômbia ou Peru: é puro acaso? É pura espontaneidade? Acredito que esse seja um dos principais aspectos em jogo: liberdade de autodeterminação ou neocolonialismo.

Uma alternativa que percorreu nossa história latino-americana desde a primeira independência, então, e que ainda não foi elucidada 200 anos depois! Seria útil perguntar: por que é que toda vez que um projeto sociopolítico aposta na autodeterminação não pode realizá-lo? Você pergunta “mas onde”?

Vejamos apenas alguns exemplos: um, a ocupação da ilha cubana pelos EUA após a derrota dos espanhóis pelas mãos dos independentistas (1898); dois, o que aconteceu em vários países da América Central, República Dominicana, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua; depois, golpes no Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia. E claro, não podemos deixar de citar o caso chileno do golpe de 1973, onde tentaram mentir para nós dizendo que foi apenas uma ação crioula, espontânea, para enfrentar o chamado “câncer marxista”. Afirmações contrariadas por ingente informação em contrário (você pode consultar - entre outras pessoas - o Relatório da Comissão Church do Senado dos Estados Unidos)

No entanto, uma vez que não é mais necessário ou bem visto promover e apoiar golpes cívico-militares diretos, então a estratégia chamada golpes "brandos" foi elaborada. Que de "brandos", para falar a verdade, eles não têm nada. Um de seus "criadores", o professor Gene Sharp e seus manuais para derrubar governos adversos ou politicamente incorretos.

Certamente muitos dos leitores se perguntarão, mas quais golpes brandos? Bem, eu os nomeio: Honduras (acho que a onda começou em 2009, contra Zelaya); Paraguai (contra Lugo); Brasil (contra Dilma e Lula); Bolívia (2019, contra Evo Morales e o MAS). E não citei o golpe contra H. Chávez em 2002, que durou 48 horas. Não só isso. As elites dirigentes estão muito caladas com o fato preocupante ilustrado pela entrada da Colômbia na OTAN. Será que é para fazer florescer a justiça social e a paz no nosso continente? Como você pode ver, puro acaso. É preciso estar atento.

É a dimensão geopolítica e histórica que tantas vezes nossos jornalistas, e analistas, como membros de partidos políticos ou opinativos, deixam de lado, não consideram, passam em silêncio.

Agora, eles queriam - além dos problemas objetivos que eles têm, e do bloqueio de 60 anos em primeiro lugar - aplicá-lo (golpe brando) na Ilha, também através das redes digitais (lembre-se: “a imagem é tudo, a sede, nada "). Uma revolução que sempre teve como característica uma vocação de soberania e autodeterminação nacional e latino-americana. E que graças à sua capacidade de inovação, ela foi capaz de realizar uma série de tarefas importantes à sua maneira. Entre outras, alfabetização e acesso à educação e cultura para todos; reforma agrária; nacionalizações; modificações no uso interno da polícia, poder popular, etc. Ei, uma revolução martiana e de emancipação nacional. Essa foi e é essa revolução, com seus revezes e dificuldades, mais a conhecida reação do país do norte, ou da OEA, que não tolera a autodeterminação dos povos do sul.

É claro que, infelizmente, muitas das informações e reflexões sobre nossa América não são feitas de um ponto de vista crítico e latino-americano. Elas ainda são feitas de modo mentalmente dependente dos EUA ou da Europa e seus meios de comunicação, seus intelectuais ou líderes. Como bem dizia José Vasconcelos: “Fomos criados sob a influência humilhante de uma filosofia concebida por nossos inimigos, talvez inocentemente se assim se desejar; mas com o propósito de exaltar seus próprios fins e anular os nossos. Dessa maneira, nós mesmos passamos a acreditar na inferioridade do mestiço, na ‘irredenção’ do índio, na condenação do negro, na decadência irreparável do oriental ”(Raza Cósmica, 1925).

Somos bombardeados por uma política de comunicação neocolonial que a mídia não assume, porque faz parte dela. Eles querem formatar as mentes de todos nós: que falemos da mesma forma, que pensemos da mesma forma, que vejamos o mesmo, que emitamos apenas slogans binários robóticos. Querem governar e manipular, a favor de seus interesses minoritários e particulares, palavras importantes (liberdades, direitos, mercado, democracia, ditadura, igualdade, fraternidade, socialismo, comunismo, etc.) sem nunca conhecê-las, especificá-las, estudá-las . Repeti-las uma ou outra vez com uma única tonalidade. E, é claro, eles são tão "democráticos" que, se você sai desses marcos definidores pressupostos, eles cairão sobre você como puderem. Não só isso. Eles calmamente se dão ao luxo de tentar legalizar a mentira. Você vê como imagens falsas foram usadas para se referir aos protestos em Cuba: uma pertence aos protestos contra Mubarak em Alexandria; outra, à celebração no Obelisco de Buenos Aires do triunfo argentino na Copa América.

Bem aqui, se bem me lembro, o próprio jornal La Tercera usou uma foto de líderes da revolução para passá-la como uma expressão dos manifestantes. Como alguém diria, todos os meios são justificados quando se trata de prejudicar aquela Ilha e seu povo. Aliás, incluindo a intervenção violenta e militar do sul da Flórida (Alpha 66 ou Comando F4) sob mentiras repetidas mil vezes (crise humanitária, terrorismo), assim como os neo-pinochetistas daqui. As direitas neoliberais, há 40 anos trabalham para decompor, corromper, desacreditar essas palavras principais; outra forma de dizer: corromper e desacreditar uma atividade essencial como a política e a consciência política (espero que do espectro político mais amplo possível), para colocá-la a serviço do capital e do mercado. É a verdade. Nós também vivemos isso aqui e existem boas pesquisas e livros que o mostram.

Sobre tudo isso falou bem o filósofo José Gaos, espanhol "transterrado" como Leopoldo Zea o chamava: “(...) os juízos de valor proferidos pelos membros dos países culturalmente hegemônicos se repetem pelos membros dos demais, mesmo nos casos de injustiça: (isso) é um ingrediente da hegemonia dos primeiros países sobre os segundos”. (Sobre a filosofia mexicana) Golpe brando ou autodeterminação. Que é como dizer: democracia ou neoliberalismo. Esse parece ser o dilema. Parafraseando o historiador chileno Luis Corvalán M., “quem não o vê renuncia ao futuro”.

Pablo Salvat Bologna é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Chile e Doutor em Filosofia Política pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. É professor titular do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Alberto Hurtado.

*Publicado originalmente por El Clarin Chile | Traduzido por César Locatelli

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