Pelo Mundo

Governo interino da Bolívia contrata consultores que ajudaram a consolidar golpe nas Honduras

CLS Strategies fez consultoria para vários governos da América Latina, incluindo com o executivo interino após o golpe militar que derrubou Manuel Zelaya, nas Honduras. Deverá agora ajudar a legitimar os resultados das eleições de 3 de Maio

30/01/2020 13:47

Jeanine Áñez tomou o poder como Presidente interina depois de as Forças Armadas terem exigido o afastamento de Evo Morales (Reuters/Stringer)

Créditos da foto: Jeanine Áñez tomou o poder como Presidente interina depois de as Forças Armadas terem exigido o afastamento de Evo Morales (Reuters/Stringer)

 
Tomar o poder nem sempre é o suficiente para se conseguir reconhecimento internacional e, sabendo-o, a Presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, contratou a empresa de lobbying e relações públicas CLS Strategies para lhe prestar “consultoria estratégica de comunicação” para as eleições de 3 de Maio e junto do Governo dos Estados Unidos, revelou o site The Intercept. É a mesma empresa que ajudou a consolidar o golpe de 2009 contra o então Presidente das Honduras, Manuel Zelaya, de tenedência à esquerda.

O governo interino boliviano e a empresa assinaram o contrato em Dezembro e, na declaração de registos para lobistas, obrigatória por lei nos Estados Unidos e a que o site de jornalismo de investigação teve acesso, a CLS Strategies diz querer fazer contactos junto de autoridades públicas, órgãos de governo, jornais e grupos civis em território americano, sempre a favor do Governo interino de Áñez. E o seu representante será Juan Cortiñas, um dos sócios mais relevantes da empresa.

Cortiñas esteve envolvido na estratégia de comunicação do governo interino hondurenho de Roberto Michelleti, formado no seguimento do golpe de Estado que depôs Zelaya. Porém, em 2009, a empresa de Cortiñas tinha outro nome: Chlopak, Leonard, Schechter & Associados. E os objectivos de então são muito semelhantes aos de agora: ajudar o Governo interino a ganhar o apoio dos Governo e imprensa americanos para a realização de novas eleições no país.

As semelhanças entre o golpe nas Honduras e o afastamento do Presidente boliviano Evo Morales são muitas, e “espantosas”, diz o The Intercept. Tanto Zelaya como Morales levaram a cabo uma política externa na América Latina com um rumo que se desviou da norte-americana, ao fortalecerem relações diplomáticas com a Venezuela de Hugo Chávez, investirem nos serviços sociais e aumentarem os salários mínimos. Também se tentaram manter no poder de formas parecidas: organizaram referendos para se prolongarem no poder, contornando o limite de mandatos estipulados nas Constituições.

E, no caso da Bolívia, um das razões apontadas para a queda do Presidente foi o executivo de Morales ter requerido que 50% dos projectos de extracção de minerais internacionais, entre os quais o lítio (70% das reservas mundiais estão na Bolívia), ficassem a cargo de empresas bolivianas. Os contratos acabaram por não avançar ou nunca foram postos em prática e, recentemente, pouco antes da queda de Morales, duas empresas chinesas estavam à beira de assinar contratos com o Governo boliviano. A China já controla a “maioria das instalações de processamento de lítio”, de acordo com a Reuters, e ficaria numa posição ainda melhor num minério essencial para as tecnologias.

Ambições de Áñez

Zelaya e Morales foram depostos por uma aliança entre o órgão legislativo e as forças armadas, que pela força das armas exigiram a renúncia dos seus Comandantes Supremos. Zelaya foi preso pelos militares, levado para casa e, mais tarde, deportado; acusado de cometer fraude eleitoral e após ter prometido novas eleições, Morales viu-se obrigado a abandonar o país para não ser detido e sofrer retaliações - as casas dos seus ministros estavam a ser incendiadas por apoiantes da extrema-direita boliviana. E, depois, os congressos elegeram os líderes do órgão legislativo presidentes interinos (Michelleti nas Honduras, Áñez na Bolívia), mesmo sem quórum suficiente, no que foi visto por muitos como golpes.

Com o poder de facto nas mãos da direita, os governos interinos consolidaram o seu poder, incluindo pela via da repressão, e convocaram eleições, cujo resultado nas urnas é fundamental para recuperarem legitimidade. Nas Honduras, Michelleti convocou eleições para 29 de Novembro de 2009, as quais deram a vitória ao bloco de direita e elegeram para Presidente Porfirio Lobo Sosa, do Partido Nacional e opositor de Zelaya. E, na Bolívia, Áñez convocou eleições para 3 de Maio.

Ao contrário de Michelleti, que não se candidatou às eleições que se seguiram ao golpe, Áñez já anunciou que pretende ser candidata à Presidência e foi duramente criticada pelos seus apoiantes, que a acusaram de “traição”. Em protesto, a ministra interina da Comunicação, Roxana Lizárraga, renunciou ao cargo e acusou Áñez de ter perdido os “seus objectivos” e começado a “sofrer dos mesmos males do masismo”, em referência ao Movimento para o Socialismo (MAS) de Morales.

Pouco depois do anúncio, Áñez demitiu todos os seus ministros para levar a cabo uma reestruturação governamental, no que foi encarado como meio para afastar os dissidentes dentro do executivo. Prepara-se para o embate de Maio com os masistas e precisa de ter as fileiras unidas.

É que Morales, exilado na Argentina, de onde gere a oposição ao Governo interino, não baixa os braços. Em desafio, o Presidente deposto anunciou que o seu partido vai concorrer às eleições e avançou os nomes de Luis Arce e David Choquehuanca para Presidente e vice-presidente, antigos ministros da Economia e Negócios Estrangeiros, respectivamente. Candidatos que, diz a Al-Jazeera, são escolhas para o MAS recuperar a classe média boliviana, para que tenha hipóteses de regressar ao poder.

*Publicado originalmente no site Publico.pt



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