Pelo Mundo

Grécia às portas de uma mudança histórica

O povo grego será convocado para mudar a história com seu voto, para delinear um espaço de mudança e de esperança para todos os povos da Europa.

22/01/2015 00:00

GUE/NGL - Flickr

Créditos da foto: GUE/NGL - Flickr

A Grécia está às portas de uma mudança de envergadura histórica. O Syriza já não é apenas uma esperança para a Grécia e para os gregos.
 
Ele representa também a expectativa de uma mudança de rumos para toda a Europa. Porque, a menos que mude sua política, a Europa não sairá da crise, e a vitória do Syriza nas eleições de 25 de janeiro não fará mais do que fortalecer as forças da mudança. Porque o beco sem saída da Grécia é o beco sem saída da Europa de hoje.

Em 25 de janeiro, o povo grego será convocado para mudar a história com seu voto, para delinear um espaço de mudança e de esperança para todos os povos da Europa, condenando as desastrosas cartilhas da austeridade, e demonstrando que quando as pessoas querem, quando se atrevem e quando vencem seu medo, as coisas podem mudar.

Na Grécia, a expectativa de uma transformação política já começou, por si só, a mudar as coisas na Europa. 2015 já não é 2012.

O Syriza não é o bicho-papão e nem a grande ameaça para a Europa, mas sim a voz da razão. É o despertar que tirará a Europa do estupor e do sonambulismo. Por isso, já não se considera o Syriza como um grave perigo, como em 2012, mas como um estímulo para a mudança. Mas é por parte de todos?

Por parte de todos, não. Uma pequena minoria, que tem seu centro na direção conservadora do governo alemão, e em uma parte da imprensa populista, insiste em reciclar velhas historietas e lendas sobre o Grexit (abandono do euro por parte da Grécia). Mas, assim como o senhor Samaras, não conseguem convencer ninguém. Agora que os gregos provaram o que é seu governo, sabem distinguir as mentiras da verdade.
 
O senhor Samaras não oferece qualquer mudança que não seja prosseguir com a desastrosa cartilha de aplicação da austeridade. Comprometeu-se com ele mesmo e com os demais a promover posteriores cortes de salários e aposentadorias, além de aumento de impostos no marco de reduções salariais e superimposições fiscais acumuladas durante seis anos inteiros. Pede aos cidadãos para que votem nele com a finalidade de poder aplicar a nova cartilha. E, dado que consagrou a austeridade, ele mesmo não consegue interpretar o rechaço a essa política desastrosa e destrutiva, a não ser como um suposto gesto unilateral.

Em essência, está ocultando o fato de que a Grécia, enquanto membro da zona do euro, se comprometeu a alcançar alguns objetivos, e não a avaliar os instrumentos políticos necessários para sua realização.

Esta é a razão pela qual, diferente do partido no governo, a Nova Democracia, o Syriza assumiu diante do povo grego o compromisso de aplicar, desde os primeiros dias de sua administração, um programa concreto e eficiente em termos de custos e fiscalmente equilibrado, o “Programa de Salônica”, e isso independentemente da negociação com nossos financistas.

Isso ocorrerá mediante uma série de ações destinadas a sair da crise humanitária, por meio da justiça fiscal, de modo que essa oligarquia financeira, que nem sequer foi tocada desde quatro anos atrás, possa finalmente pagar. Por meio de um plano de relançamento da economia, a luta contra uma taxa de desemprego sem precedentes e uma retomada do crescimento.

E mediante reformas reformas radicais no modus operandi do Estado e do setor público, porque nosso objetivo não é voltar a 2009, mas sim mudar tudo o que colocou o país à beira de uma bancarrota econômica, e também moral.

O clientelismo, um Estado hostil a seus próprios cidadãos, a evasão fiscal, os fundos “negros”, o contrabando de combustível e tabaco. Estes são só alguns dos aspectos de um sistema de poder que governou o país durante muitos anos. Este é o sistema que levou o país ao desespero, e que hoje continua governando em nome da emergência nacional e do medo da crise.

No entanto, isso não é um temor à crise, mas sim um medo da mudança. Esse medo e esse sentimento de culpa do stablishment que levaram o povo grego a uma tragédia sem precedentes.

Quanto àqueles considerados culpados, se tiverem um mínimo de conhecimento das antigas tragédias gregas, terão motivos para temer, porque depois da húbris vem a nêmesis e a catarse!

Mas o povo grego, como os europeus, não terão o que temer. Porque o Syriza não deseja derrubar o euro, mas salvá-lo. E será impossível que seus estados-membros salvem o euro enquanto a dívida pública estiver fora do controle.

O problema da dívida não é apenas grego, mas europeu. E a Europa em seu conjunto tem uma dívida com o debate e com a pesquisa de uma solução europeia sustentável.

O Syriza e a esquerda na Europa defendem que, no marco de um acordo europeu, deve-se cancelar a imensa maioria do valor nominal da dívida. Será necessário impor uma moratória e será preciso introduzir uma cláusula para o crescimento relacionado à parte restante da dívida, de modo que se possam dedicar os recursos restantes ao crescimento.

Reivindicamos condições de devolução (da dívida) que não levem o país a se atolar na recessão, além de não empurrar as pessoas para o desespero e para a pobreza.

Aderindo a uma posição segundo a qual a dívida grega seria sustentável, o senhor Samaras prejudica a Grécia. Não se limita a rebaixar as negociações, mas rechaça por completo o ato de negociar. Além do mais, se admite que a dívida é sustentável e que a cartilha é “uma história de êxito”, o que sobra para negociar?

Frente ao futuro europeu, estamos hoje em condições de distinguir duas estratégias diametralmente opostas. De um lado, está o ponto de vista do senhor Schäuble, segundo o qual, independentemente do fato de funcionarem ou não leis e princípios acordados, teremos que continuar aplicando-os. Por outro, está a estratégia do “custe o que custar” – expressão empregada pela primeira vez por quem encabeça o BCE – para salvar o euro. Na realidade, as iminentes eleições gregas representam um choque entre essas duas estratégias diferentes.

Estamos convencidos de que esta última deve prevalecer, porque a Grécia é o país de Sófocles, que com Antígona nos ensinou que existem momentos em que a justiça é a lei suprema.
 

Alexis Tsipras é o presidente do Syriza (Coligação de Esquerda Radical), a novidade sem dúvida mais interessante, programática e organizativamente, das esquerdas europeias das últimas décadas. É candidato à presidência nas eleições do próximo dia 25 de janeiro.
 

Tradução de Daniella Cambaúva



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