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Grécia: fúria contra a extinção da luz

Na noite da vitória do Syriza, o firmamento político europeu se iluminou. Abriu-se um novo capítulo na luta para resgatar a Europa do pesadelo neoliberal.

04/02/2015 00:00

Tsipras / Facebook

Créditos da foto: Tsipras / Facebook

As eleições na Grécia provocaram um vendaval de esperança. A democracia na Europa erige hoje como uma luz que não quer se extinguir. Enquanto o novo governo do partido de esquerda Syriza se organiza e o gabinete é confirmado, as implicações políticas e econômicas começam a se perfilar.

A narrativa que os poderes estabelecidos difundiram sobre a irresponsabilidade do povo grego não tem a ver com a realidade econômica. Os bancos alemães, franceses e holandeses lucraram com a bolha que criaram no espaço monetário europeu. Mas depois de inventarem a tal bolha, socializaram as perdas. O custo para o povo grego e, vale dizer, para toda a Europa, é colossal. Hoje o povo grego está atravessando a espessa cortina de mentiras e, com seu voto, colocou um governo em posição de por fim ao obscurantismo neoliberal.

A equipe de economistas do novo governo de Atenas tem uma missão delicada a cumprir. A pasta do ministério de Finanças foi confiada ao economista Yanis Varoufakis, um acadêmico recém-chegado ao mundo da política. Sua trajetória se encontrou na teoria dos jogos, um universo de modelos abstratos em que o realismo econômico é sacrificado no altar das matemáticas. Mas com o passar dos anos, Varoufakis se deu conta de que havia outra forma de pensar e fazer teoria e análise econômica. Abandonou o limitado horizonte da teoria dos jogos e mudou-se para o mundo da teoria macroeconômica. Varoufakis acabou se aproximando cada vez mais das posturas da escola pós-keynesiana, corpo de análises macroeconômico que rechaça as visões fantásticas da macroeconomia neoclássica e as substituiu por uma visão rigorosa e realista sobre a dinâmica das economias capitalistas.

Mas Varoufakis não está só. A equipe de negociadores que Atenas enviará à frente de batalha incluirá Yanis Dragasakis, membro do Partido Comunista grego que foi designado vice-primeiro-ministro e cuja missão inclui a coordenação da política econômica do novo governo. Dragasakis foi vice-ministro de finanças de um governo interino entre 1989 e 1990. Giorgios Stathakis, outro acadêmico e membro do PC foi designado titular de uma espécie de super ministério econômico, encarregado do desenvolvimento econômico. Costas Lapavitsas é também um acadêmico que se vinculou aos militantes do Syriza e mantém uma perspectiva pós-keynesiana, com certa influência de marxismo.

No total, trata-se de um grupo com fortes conhecimentos sobre a instabilidade econômica que caracteriza qualquer economia capitalista. Face às difíceis negociações que terão de ocorrer, a falta de experiência nos corredores da política da equipe do Syriza poderia ser vista como uma limitação. No entanto, será fortemente compensada pelo conhecimento dos mecanismos reais do mundo financeiro e bancário. Está claro que a velha classe política na Grécia, com sua preguiça mental e adicionando corrupção e velhos sistemas clientelistas, nunca entendeu nada do que estava acontecendo quando o país entrou na união monetária, ou quando estourou a crise. Por isso, seu único reflexo foi fazer tudo o que lhe foi indicado para socializar as perdas e repassar o ônus do endividamento especulativo ao povo grego.

Boa parte da imprensa econômica na Europa manteve um tom estridente e assinalou que a nomeação de Varoufakis só confirma que Alexis Tsipras mantém uma estratégia de confrontação. Isso é falso. Varoufakis sabe muito bem que está entrando em um terreno delicado e saberá se locomover com precaução. Mas o que é certo é que toda a equipe do Syriza está consciente de sua responsabilidade histórica, não apenas diante dos eleitores da Grécia, mas diante da Europa. A troika terá que aprender a ceder.

Na realidade, o povo grego rechaçou um plano de austeridade que conduziu a uma queda de 25% do PIB em cinco anos, a um incremento de 190% da taxa de desemprego, a uma queda de 38% nos salários, a um aumento de 98% da pobreza, a um incremento de 43% na taxa de mortalidade infantil e a uma situação na qual 30% das empresas em funcionamento há seis anos hoje estão na bancarrota. E como se isso não fosse suficiente, a dívida como porcentagem do PIB passou a 174%. Tudo isso era previsível, e por isso os arquitetos desse programa de austeridade imposto pela troika são culpados de um ato monumental de negligência histórica.
 
Na noite da vitória eleitoral do Syriza, o firmamento político na Europa se iluminou. Abriu-se um novo capítulo na luta para resgatar a Europa do pesadelo neoliberal. A batalha será dura e cheia de perigos. Parafraseando o poema de Dylan Thomas, o novo ministro de finanças anunciou em seu site (yanisvaroufakis.eu): “A democracia na Grécia se enfureceu contra a extinção da luz”.





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