Pelo Mundo

Grécia: incerteza, apesar da soberania recuperada

A responsabilidade não pode ser jogada unicamente sobre o país devedor, mas também ao modelo de finanças irracional que premia a ambição desmedida.

02/07/2015 00:00

European Council / Flickr

Créditos da foto: European Council / Flickr

A Grécia não pagou a sua dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) após a negativa do Eurogrupo – os governos que conformam a Zona Euro– de estender o programa de ajuda financeira à nação mediterrânea. Vale a pena recordar que o Eurogrupo acabou com o programa de ajuda ao país depois de que o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras convocou um referendo para que o povo decida se aceita as condições imposta pela Troica – Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia – para se conseguir novos empréstimos. Tais condições incluem um novo plano impopular de ajuste fiscal, que reduziria os impostos aos grandes capitais, castigaria o setor turístico com uma taxa de 23% e afetaria as aposentadorias e pensões com cortes adicionais.
 
A falta de pagamento, portanto, significa que Atenas não poderá obter novos empréstimos do FMI enquanto não se coloque em dia com suas dívidas, e enquanto isso, os principais mercados fecharão suas portas ao país. Porém, o cenário não representa a inevitável catástrofe que as autoridades europeias e os organismos financeiros preveem para a Grécia. Como afirmou o economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001, os gregos deveriam se espelhar na experiência da Argentina. Quando saiu da crise de 2001, o país sul-americano declarou a moratória dos seus pagamentos e, ao reorientar os recursos antes destinados ao pagamento da dívida, experimentou um crescimento econômico de 8% ao ano, o segundo maior do mundo naquele momento.
 
Independente dos prognósticos financeiros, deve-se aplaudir o governo grego, que, na contracorrente da gestão neoliberal imperante, recupera o significado da democracia ao convocar o mencionado referendo, que dará aos gregos a possibilidade de acabar com um longo período de endividamento em condições de usura que fomentou a corrupção, a devastação e a humilhação do país. Mesmo que o povo grego decida continuar a se submeter às políticas de austeridade ditadas por Bruxelas, o referendo já criou um precedente importantíssimo, ao deixar claro a todos os governos que na democracia são os cidadãos, e não os tecnocratas, os que devem tomar as decisões fundamentais sobre o seu próprio futuro. Mais importante ainda foi a atitude de Tsipras, colocando sua renúncia se o resultado da votação favorecer os interesses da Troica, pois mostra que um governo perde sua razão de ser quando não pode cumprir com o que prometeu quando foi eleito.
 
Mas o potencial de desestabilização dos mercados financeiros mundiais, que usam as incertezas sobre o futuro da Grécia, mostram a verdadeira dimensão da atual crise, que transcende o âmbito local e inclusive regional: quando uma economia que representa somente 2% da Zona Euro não tem condições de cobrir suas dívidas e com isso causa tão severos transtornos globais, é inevitável concluir que o sistema financeiro vigente sofre gravíssimos erros de desenho.
 
Nessas circunstâncias, a responsabilidade não pode ser jogada unicamente sobre o país devedor, senão ao modelo de finanças irracional que premia a ambição desmedida e sacrifica populações inteiras, para manter a rentabilidade de um punhado de corporações.
 
Contra os princípios democráticos já comentados aqui, se iniciou uma campanha do terror que tenta colocar em xeque o atual governo de Tsipras e pressionar pelo retorno dos partidos gregos que mantiveram a fidelidade com as diretrizes políticas impostas por Bruxelas e pelo FMI, as quais, em última instância, não fazem outra coisa senão transmitir a vontade dos grandes capitais. Aliás, como afirmaram recentemente os economistas Joseph Stiglitz e Paul Krugman – também Prêmio Nobel de Economia, em 2008 – a intenção primordial dos representantes europeus não é a de evitar uma desordem financeira, e sim desestabilizar a administração do Syriza, como forma de advertir os outros governos em situação similar. A resposta do governo de esquerda a esse golpe político e midiático foi a de deixar a decisão nas mãos de todos os gregos, fazendo com que o 5 de julho dessa emblemática nação seja um dia para começar a transitar por um caminho ainda inexplorado, mas que dificilmente levará a um destino pior que o que a Grécia já vem padecendo, e que é caracterizado pelo asfixiante estancamento econômico criado pela política de austeridade – resultando num enorme sofrimento social –, além da perda da soberania e de dignidade nacional.
 
Tradução: Victor Farinelli






Conteúdo Relacionado