Pelo Mundo

Paul Krugman: Grécia no limite

A Grécia tem que votar no 'não' nesse plebiscito, e seu governo deve estar pronto para, se for preciso, abandonar a Zona Euro.

30/06/2015 00:00

Commonwealth Club - Flickr

Créditos da foto: Commonwealth Club - Flickr

É evidente, já há bastante tempo, que a criação do Euro foi um grande equívoco. A Europa nunca teve as condições prévias necessárias para manter uma moeda única que desse certo, e mais que isso, o tipo de união fiscal e bancária que, por exemplo, assegura que quando a bolha imobiliária estoura na Flórida, Washington possa proteger automaticamente a terceira idade de qualquer ameaça sobre sua proteção social e seus depósitos bancários.
 
Abandonar uma união monetária é, contudo, uma decisão muito mais difícil, e mais assustadora que nunca. Até agora, as economias do continente, quando apresentaram maiores problemas, decidiram dar um passo atrás antes de chegar às margens do abismo. Mas de uma vez, os governos se submeteram às exigências de dura austeridade dos credores, enquanto o Banco Central Europeu agia para conter o pânico dos mercados.
 
Mas a situação na Grécia alcançou o que parece ser um ponto sem retorno. Os bancos estão fechados temporariamente e o governo impôs controles de capital (limites ao movimento de fundos ao exterior). Parece ser muito provável que o Poder Executivo logo terá que iniciar o pagamento das aposentadorias e pensões, além dos salários do serviço público, o que, na prática, criaria uma moeda paralela. E, na semana que vem, o país vai celebrar um plebiscito sobre a conveniência de aceitar as exigências da troica – as instituições que representam os interesses dos credores –, o que significaria multiplicar as medidas de austeridade.
 
A Grécia tem que votar no “não” nesse plebiscito, e seu governo deve estar pronto para, se for preciso, abandonar a Zona Euro.
 
Para entender porque digo isso devemos, primeiro ser conscientes de que a maioria das coisas – não todas, mas a maioria – que ouvimos sobre o desperdício e a irresponsabilidade grega são falsas. Sim, o governo grego estava gastando mais do que podia no final da década passada. Mas, desde então, realizou diversos cortes no gasto público e aumentou a arrecadação fiscal. Os empregos públicos foram reduzidos em mais de 25% e as aposentadorias (que eram, certamente, bastante generosas) foram recortadas drasticamente. Todas as medidas foram mais que suficientes para eliminar o déficit original e transformá-lo num amplo superavit.
 
Por que isso não ocorreu? Porque a economia grega desabou, muito por causa dessas importantes medidas de austeridade, que afetaram demais a arrecadação.
 
Esse colapso, por sua vez, teve muito a ver com o euro, que colocou a economia grega numa camisa de força. Em geral, os casos de sucesso em políticas de austeridade – aquelas em que os países conseguiram frear seu déficit fiscal sem cair em depressão econômica – trazem consigo uma importante desvalorização monetária, que fazem com que suas exportações sejam mais competitivas. Isso aconteceu, por exemplo, no Canadá, nos Anos 90, e recentemente na Islândia. Mas a Grécia, sem sua própria divisa, não teve essa opção.
 
Quero dizer com isso que seria conveniente um Grexit – a saída da Grécia da Zona Euro? Não necessariamente. O problema do Grexit sempre foi o risco do caos financeiro, por um sistema bancário bloqueado pelos saques que vieram com o pânico e por um setor privado afetado tanto pelos problemas bancários como pelas incertezas sobre o status legal das dívidas. É por isso que os sucessivos governos gregos aceitaram as exigências de austeridade, e até mesmo o Syriza, a coalizão de esquerda que chegou ao poder, estava disposta a aceitar uma austeridade que já havia sido imposta. Apenas pediu para que se evitasse uma maior dose de austeridade.
 
Mas a troica fechou as portas para essa opção. É fácil se perder nos detalhes, mas agora, o ponto principal é que os credores ofereceram à Grécia um “pegar ou largar”, uma oferta de aprofundamento das políticas dos últimos cinco anos.
 
Essa oferta estava e está destinada a ser rejeitada pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras: não pode aceitá-la porque isso significaria jogar fora a razão de ser do seu movimento político. Portanto, suas intenções podem levá-lo a abandonar seu cargo, algo que provavelmente acontecerá, se os eleitores gregos votarem baseados no temor à confrontação com a troica, e decidirem pelo “sim” na semana que vem.
 
Mas não deveriam fazê-lo, por três razões. A primeira, porque sabemos que a austeridade é cada vez mais dura, e pode levar o país a ficar encurralado economicamente: após cinco anos dessas medidas, a Grécia está numa situação pior que nunca. A segunda, porque praticamente todo o caos que poderia ocorrer num possível Grexit já tem sucedido. Os bancos estão fechados e os controles de capital continuam vigentes, não há como fazer danos muito maiores que esses.
 
Por último, a adesão ao ultimato da troica levaria ao abandono definitivo de qualquer pretensão de independência da Grécia. Não nos deixemos enganar por aqueles que afirmam que os funcionários da troica são somente técnicos, que explicam aos gregos ignorantes o que devem fazer. Esses supostos tecnocratas são, na verdade, vendedores de fantasias, que omitiram todos os princípios da macroeconomia, e que fracassaram em cada passo dado até aqui. Não é uma questão de análise, é uma questão de poder: o poder dos credores para tirar a economia grega da tomada, que persistirá enquanto a saída da Zona Euro seja considerada impensável.
 
Portanto, é hora de colocar fim a esse inimaginável. Caso contrário, a Grécia enfrentará as consequências da austeridade infinita e uma depressão da qual não poderá se livrar tão cedo.
 
Paul Krugman recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008.
The New York Times Company, 2015.





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