Pelo Mundo

Grupo Puebla denuncia o ''obscurantismo'' de Bolsonaro, a opacidade de Lenín Moreno e a iniquidade de Piñera em lidar com uma pandemia

A organização progressista pediu a construção de um novo modelo de desenvolvimento pós-crise, longe do neoliberalismo

14/04/2020 14:37

(Presidência Argentina)

Créditos da foto: (Presidência Argentina)

 
O Grupo de Puebla, organização formada por líderes progressistas na América Latina, garantiu que a emergência do coronavírus demonstrou o fracasso das políticas neoliberais, defendeu o papel da OMS (Organização Mundial da Saúde) e questionou a maneira com a qual os governos de direita estão enfrentando a pandemia, especialmente o do presidente Jair Bolsonaro no Brasil, a quem acusou diretamente de cometer crimes contra a humanidade, por contradizer evidências científicas e pôr em risco a população.

Os membros deste bloco realizaram uma cúpula virtual de emergência para analisar o impacto da pandemia e o contexto político, econômico e social, com reconhecimento especial às medidas adotadas pelo presidente argentino Alberto Fernández, além de críticas ao desempenho de Bolsonaro, e também de Sebastián Piñera, no Chile, e de Lenín Moreno, no Equador.

Outro ponto denunciado no comunicado do Grupo de Puebla foi a postura dos Estados Unidos, que, mesmo em meio a uma grave crise de saúde a nível interno e global, mantêm um bloqueio cruel contra Cuba e Venezuela.

As sessões foram realizadas durante três dias contou com a participação de 29 líderes, incluindo Alberto Fernández, que é o único presidente em exercício do Grupo; os ex-mandatários do Brasil, Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva; além de Fernando Lugo, do Paraguai, Rafael Correa, do Equador. Também estiveram conectados os ex-candidatos presidenciais Fernando Haddad (Brasil), Marco Enríquez-Ominami (Chile), Cuauhtémoc Cárdenas (México) e Daniel Martínez (Uruguai), entre outros.






“Esta crise não tem outra solução senão a integração e cooperação da América Latina e do Caribe em nível mundial. E essa integração e cooperação devem ser apoiadas pela noção de conhecimento e solidariedade”, afirmou a declaração final da reunião, que incluía 14 pontos, e que, além disso, destacou o papel da OMS diante das tentativas de outros líderes para enfraquecê-la, especialmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O documento também acrescentou que os progressistas que governaram há uma década atrás na região, de forma simultânea, sabiam integrar os países não apenas aos tratados comerciais, mas também pela solidariedade e cooperação, econômica, política e cultural, mas que os governos de direita levaram a uma regressão nesse processo. “Por esse motivo, o Grupo de Puebla protesta contra a omissão total da OEA (Organização dos Estados Americanos) na administração da crise do covid-19, e se congratula com os esforços do governo do México em recuperar o papel da CELAC (Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe) como coordenação continental e espaço de integração”, afirmou.

Ao avaliar os esforços individuais, o Grupo parabenizou a determinação com a que o governo da Argentina enfrenta a pandemia, com o esforço de articular uma resposta econômica e de saúde para proteger os cidadãos, particularmente os mais vulneráveis, e o apelo de Alberto Fernández para criar Fundo Global de Emergência Humanitária.

Equador, Chile e Brasil

Por outro lado, se questionou a falta de transparência do governo Lenín Moreno, no Equador, com seus relatórios mostrando números falsos sobre a quantidade de infecções e mortes, e garantiu que essa crise não pode ser resolvida, desviando a atenção da opinião pública com a sentença de 8 anos de prisão que um tribunal impôs ao ex-presidente Rafael Correa, por suposto crime de corrupção.

“O Grupo Puebla apela a organizações internacionais e relatores que garantam o respeito pelos direitos humanos e democráticos e a independência de juízes e advogados, para que se realizem ações contra as irregularidades relatadas neste processo judicial”, afirmou.

Com relação ao Chile, lamentou-se o fato de que Piñera tente transferir os custos da crise da saúde para os trabalhadores, uma vez que as principais medidas de “apoio” propostas aos setores mais vulneráveis serão financiadas com suas próprias economias, além dos recursos oferecidos às pequenas e médias empresas, e que nada mais são do que apoio financeiro aos bancos comerciais para conceder empréstimos com juros de mercado.

“O Grupo do Povo pede que a crise não seja paga pelos mais pobres, e distingue o mercado da usura. Também é muito importante que seja dada atenção especial a grupos étnicos vulneráveis, como negros e indígenas”, diz o comunicado.

A organização enfatizou que a região sofre não apenas com a ortodoxia conservadora de vários de seus governantes, mas também com obscurantismo ideológico e negação da ciência e da medicina com base em evidências científicas, como ocorre especificamente no Brasil.

“O comportamento do presidente Jair Bolsonaro é altamente preocupante. O Grupo de Puebla rejeita a relativização que faz do alto perigo da atual pandemia e de sua oposição aberta e boicote às medidas preventivas que as autoridades governamentais em nível regional e local têm tomado de forma independente, para evitar um aumento das infecções e controlar a situação ameaçadora. Os apelos de Bolsonaro para quebrar essas medidas de segurança sanitária equivalem a um crime contra a humanidade”, denunciou.

Também exigiu que as sanções impostas unilateralmente pelos Estados Unidos a Venezuela de Cuba fossem urgentemente derrubadas, porque, em um contexto como o da atual pandemia, elas são inaceitáveis e violam o direito internacional humanitário. Também se questionou o envio das. Forças Armadas norte-americanas nas fronteiras marítimas do Caribe venezuelano, sob o pretexto de combater o narcotráfico.

Numa análise histórica, a declaração final lamentou que as prioridades do modelo baseadas na agenda neoliberal e na financeirização da economia global levaram ao abandono de políticas sociais, especialmente as dos sistemas de saúde, que impediram a melhor preparação da região para enfrentar a pandemia.

Propostas contra o coronavírus

Entre as medidas específicas que podem ser aplicadas, segundo o Grupo de Puebla, está a provisão de um salário mínimo mensal por um ano para a população mais vulnerável, o que custaria aproximadamente 2,2% do Produto Interno Bruto, valor que se considerou acessível para as economias da América Latina e do Caribe.

“Países e povos não podem decidir entre saúde ou economia. Esse é um falso dilema, que deve ser superado graças à dimensão que os articula: a política. A solução para a crise do covid-19 é política, e essa política é a política progressista, uma vez que apenas ao revelar o papel do Estado em suas decisões sobre assuntos públicos, conseguiremos o primado da solidariedade sobre o indivíduo e a integração de países além do meramente comercial, para garantir que nossos sistemas possam estar preparados para emergências como esta que vivemos”, afirma o documento.

Nesse sentido, o Grupo de Puebla convidou governos, organizações e povos do mundo para que, quando a pandemia termine, estes possam refletir juntos em um novo modelo de desenvolvimento, que priorize valores como meio ambiente e inclusão social, redução da desigualdade, segurança alimentar, desarmamento militar, multilateralismo e progressividade fiscal.

“O mundo globalizado após esta pandemia deve ser o mundo da colaboração e ação coletiva nacional e internacional”, concluiu.








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