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Guaidó roubou 116 bilhões de dólares da Venezuela

 

08/01/2021 15:57

(Manaure Quintero/Reuters)

Créditos da foto: (Manaure Quintero/Reuters)

 
O Washington Post desvendou o escândalo ao declarar que Juan Guaidó contatou dois empresários em Miami para obter dinheiro saqueando propriedades de todos os venezuelanos. Na Venezuela, as denúncias sobre o assunto foram amplamente divulgadas por Jorge Rodríguez, que atuou como Ministro da Comunicação e Informação do país.

Os empresários Jorge Reyes e Pedro Antar, que interceptaram cerca de 40 bilhões de dólares em ativos da PDVSA (petroleira estatal venezuelana) em todo o Caribe, foram escolhidos para administrar um esquema pelo qual o próprio Guaidó – como Reyes disse ao Washington Post – os convocou em abril de 2019. Eles se reuniram mais de uma dúzia de vezes com membros importantes da oposição apoiada pelos Estados Unidos e seus agentes.

Reyes e Antar ficaram surpresos ao ver que as ações judiciais para fazer negócios com Guaidó incluiriam um pagamento adiantado de 750 mil a uma empresa da Flórida que, segundo os registros, é copropriedade de Magin Blasi, irmão de um alto funcionário da “embaixada” venezuelana controlada pelo deputado em Washington. Essa empresa também se tornaria sua parceira, segundo estipulava a carta, dividindo a comissão de 18% que eles haviam negociado com os representantes de Guaidó.

Em meio a esse enredo, veremos como antigos nomes da oposição venezuelana se repetem ou aparecem como mortos-vivos em esquemas de corrupção. Javier Troconis, enviado de Guaidó, disse que foi apresentado a Reyes e Antar por Carlos Prosperi, membro da Assembleia Nacional e líder de um dos quatro principais partidos da oposição que apoiaram Guaidó em dezembro de 2019. O assessor de Guaidó também disse que Magin Blasi esteve presente na reunião. Blasi é irmão de Fernando Blasi, chefe da seção comercial da “embaixada” venezuelana controlada por Guaidó em Washington.

“Todo mundo vai ganhar alguma coisa”: o que o Washington Post diz

Se expandirmos a investigação do jornal estadunidense, veremos que vários acordos propostos envolvendo Troconis também são revelados, mostrando a exigência de pagamentos elevados e incomuns. Eles incluem um contrato potencial com o governo paraguaio com uma comissão de 26 milhões de dólares, pagos a terceiros.

De acordo com dois rascunhos do contrato não executado, obtidos pelo Washington Post, o acordo teria perdoado metade da dívida de 269 milhões dólares que o Paraguai aceitou que deve à Venezuela – a Venezuela estima a cifra em 290 milhões de dólares.

Nesse caso, o que José Ignacio Hernández, ex-procurador-geral de Guaidó, chamou de comissão “desproporcional”, teria sido paga a um advogado argentino chamado Sebastián Vidal. Na segunda minuta do contrato, indica-se que Vidal teria recebido 20% do acordo, ou seja, mais de 26 milhões de dólares.

Os detalhes da trama são impressionantes: Javier Troconis disse que enviou uma carta ao advogado Sebastián Vidal em janeiro de 2020, encerrando as negociações porque havia concluído que “não era um bom negócio”. Diante disso, Juan Ernesto Villamayor, chefe de gabinete do presidente paraguaio Mario Abdo Benítez, afirmou que Guaidó pediu ao governo paraguaio, em março passado, que enviasse a proposta a Hernández para revisão.

Recebido o contrato em março, José Ignacio Hernández respondeu aos paraguaios que isso não era legalmente válido e que não seria aceito. Hernández renunciou ao cargo de procurador-geral de Guaidó naquele mesmo mês.

Outro acordo proposto, para recuperar ativos de um banco britânico, resultou na existência de um contrato que Javier Troconis assinou com um escritório de advocacia do sul da Flórida, para recuperar uma conta na Grã-Bretanha que continha quase 1,7 bilhão de dólares pertencentes ao Ministério de Alimentação da Venezuela.

Os números do saque dos ativos venezuelanos

A imprensa mundial mostra como “exclusivo” algo que já é conhecido, e foi denunciado repetidamente pelo governo venezuelano: que Guaidó e seus capangas roubaram bilhões de dólares do povo venezuelano.

Conforme denuncia o agora deputado nacional Jorge Rodríguez, Guaidó lidera uma rede de corrupção que controla 116 bilhões de dólares.

Era setembro de 2020 quando o Procurador-Geral da República, Tarek William Saab, denunciou a abertura de uma investigação contra o consórcio Caribbean Recovery Assets, formado pelas empresas Lock In Capital e Global Risk Management.

Os diretores das empresas, Jorge Reyes e Pedro Antar, teriam confiscado os bens da Venezuela no Caribe através de um contrato de 750 mil dólares. Durante as investigações, surgiram provas da distribuição de um total de 8,5 bilhões de dólares entre vários partidos políticos. Os valores teriam sido entregues pela Fundação Simón Bolívar, ligada à empresa Citgo (subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos, cujo controle foi entregue a Guaidó pelo governo norte-americano).

Essa mesma fundação, vale lembrar, tinha como missão de destinar recursos da estatal para a intervenção cirúrgica de venezuelanos, principalmente crianças com graves problemas de saúde, cujas vidas estão em risco.

O que foi publicado no Washington Post mostra que a aplicação de sanções norte-americanas ao povo venezuelano e a corrupção desenfreada entre seus representantes, liderados por Juan Guaidó, prejudicam a economia do país sul-americano e afetam tragicamente a vida de cada um dos seus cidadãos.

A partir desta primeira semana de 2021, vemos a fuga e a “distância social” que alguns jornalistas, economistas e políticos de várias castas tomam com relação a este assunto, tentando se desvincular de responsabilidades, ao ver que é um meio norte-americano que mostra o que as autoridades venezuelanas vêm denunciando ao mundo e investigando judicialmente. A esses descrentes das fontes chavistas, vale a máxima: “quem cala, consente”.

Nesta segunda-feira (4/1), até o Financial Times diz que Guaidó perdeu seu apelido de “presidente interino” e o jogou na rua, transformando sua estratégia em um fracasso tangível.

A posse da nova Assembleia Nacional na Venezuela deve provocar uma discussão urgente sobre o fim da impunidade. Nas mãos de quem estão os bens que os políticos da oposição venderam ao mundo, garantindo que iriam “recuperar” o dinheiro de todos os venezuelanos, e que hoje enchem os bolsos de Guaidó e seus colaboradores?

O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos emitiu, nesta mesma segunda-feira, uma licença que permite à Assembleia Nacional de Guaidó manter suas transações com os Estados Unidos.

Esta Licença substituiu uma similar, de 5 de agosto de 2019, quando foi dado o tiro de partida da roubalheira. O mais rápido, que nem sempre é o mais eficaz, é quem vence.

O festival dos gatunos

O roubo de recursos da Venezuela por políticos da oposição ao governo do presidente Nicolás Maduro começou com a expropriação da Citgo pelo governo dos Estados Unidos. Se tratava do maior ativo da Venezuela no exterior, e o país perdeu mais de 5,2 bilhões de dólares líquidos, além das receitas que recebia dos mais de 6 mil postos filiados. Além disso, houve o roubo da empresa Monómeros, na Colômbia, executado pelo governo de Iván Duque, que cedeu o controle desta empresa, subsidiária da Pequiven (outra estatal venezuelana), ao grupo de Juan Guaidó.

O verdadeiro patrão da empresa agora é Leopoldo López, autor – junto com Guaidó – do golpe de Estado fracassado no ano passado.

Contudo, essa empresa perdeu 90% de sua participação no mercado internacional, e 15% no mercado local colombiano. De acordo com o portal La Tabla, em dezembro de 2020, a Monómeros mal conseguia cumprir com 50% de suas metas orçamentárias e operacionais, e acumulou perdas de mais de 20 milhões de dólares.

Uma vez descoberto o escândalo, soube-se que executivos da empresa estavam se reunindo com parlamentares venezuelanos da Comissão de Energia e Petróleo da Assembleia Nacional oposicionista. Participaram do esquema os deputados Jorge Millán e Tomás Guanipa, segundo depoimento de Calderón Berti, que foi aliado de Guaidó enquanto foi conveniente, e soube se desligar dele quando a sujeira apareceu.

Calderón também revelou a presença na reunião do líder político e ex-governador de Zulia, Manuel Rosales, do partido Novo Tempo, e de altos executivos do partido da Ação Democrática, como Bernabé Gutiérrez, Alfredo Chirinos e Carlos Prosperi, que afirmaram estar agindo em nome de Henry Ramos Allup.

A reportagem do La Tabla também revela a entrega de grandes montantes aos representantes do Ação Democrática, após ameaças e a exigência de uma grande “vacina” em dólares, relativa ao que o esquema arrecadava pelos contratos.

O destino das referidas contribuições seria a cidade de Caracas. Mais especificamente, aos cofres pessoais do chefe político do partido, Henry Ramos Allup, e em seguida eram levados à Espanha, seu último destino, onde eram geridas pelos seus testas-de-ferro.

*Publicado originalmente em 'Hinterlaces' | Tradução de Victor Farinelli



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