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Homens brancos penderam para Biden. Trump obteve ganhos entre latinos e negros. Por quê?

Minorias e mulheres - as próprias pessoas que deveriam ser centrais para a coalizão Democrata - parecem ter mudado de rumo em direção a Trump esse ano.

20/11/2020 16:34

O que mudou na dinâmica racial e de gênero nesse ciclo para produzir esses resultados aparentemente extraordinários? (Rebecca Blackwell/AP)

Créditos da foto: O que mudou na dinâmica racial e de gênero nesse ciclo para produzir esses resultados aparentemente extraordinários? (Rebecca Blackwell/AP)

 
A narrativa que prevalece dos últimos cinco anos tem sido a de que Trump conquistou e mantém o poder apelando aos desejos dos eleitores brancos e homens (especialmente homens brancos) para preservar o patriarcado e a supremacia branca. No entanto, parece difícil encaixar esses pontos de discussão com os dados preliminares da corrida presidencial desse ano.

Vamos começar com gênero: em grupos étnicos e raciais, mulheres rumaram em direção a Trump nesse ciclo. Na última eleição, Trump ganhou entre as mulheres brancas com uma margem de 9 pontos percentuais. Esse ano, ele ganhou por 11 pontos percentuais. Em 2016, os Democratas ganharam entre as mulheres hispânicas e latinas por 44 pontos percentuais; em 2020 por 39. No último ciclo, os Democratas ganharam entre as mulheres negras por 90 pontos percentuais. Esse ano, por 81. Quer dizer, em um ano no qual uma mulher negra está concorrendo a uma vaga de alto escalão pela primeira vez na história dos EUA, a margem entre Democratas e Republicanos entre as mulheres negras mudou 9 pontos percentuais na outra direção - em direção a Trump.

Trump obteve ganhos comparáveis entre homens negros e hispânicos também.

No geral, comparando 2016 com 2020, Trump ganhou 4 pontos percentuais com os afro-americanos, 3 pontos percentuais com hispânicos e latinos, e 5 pontos percentuais com chineses-americanos. As mudanças descritas nas pesquisas de boca de urna da Edison são verificadas pela AP Votecast, que mostrou uma movimentação similar entre eleitores negros e hispânicos nesse ciclo.

Podemos analisar a Pesquisa Eleitoral de Véspera Estadunidense para obter contexto adicional sobre essa movimentação.

Vamos começar com o voto hispânico e latino: comparando 2016 e 2020, as margens mudaram 47 pontos percentuais em direção a Trump (ou para longe dos Democratas) entre as pessoas com ancestralidade sulamericana. As margens também mudaram 37 pontos percentuais em direção ao Partido Republicano entre as pessoas cujas famílias são da América Central, 35 pontos percentuais entre dominicanos, 16 pontos entre porto-riquenhos, 15 pontos entre mexicanos-americanos e 9 pontos entre cubanos. De fato, o último grupo acabou priorizando Trump sobre Biden de imediato.

Enquanto reconhecemos que essas populações não são monolíticas, e embora os Democratas tenham conquistado a maior parte dos votos hispânicos e latinos, os eleitores hispânicos e latinos mudaram decisivamente em direção a Trump nesse ciclo.

Padrões similares aconteceram entre americanos asiáticos: filipinos, coreanos, chineses e indianos parecem ter balançado em direção a Trump. A tendência foi tão dramática entre os vietnamitas-americanos que eles, como os cubanos, favoreceram Trump de imediato. Entre os asiáticos, somente os nipo-americanos parecem ter balançado em direção aos Democratas desde 2016.

Minorias e mulheres (e mulheres das minorias) - as próprias pessoas que deveriam ser centrais para a coalizão Democrata, e que sofreram mais nessa atual pandemia e recessão econômica - parecem ter mudado de rumo em direção a Trump esse ano.

Na realidade, praticamente a única constelação racial ou de gênero que o Presidente não conquistou são as pessoas que são frequentemente descritas como seus constituintes principais: homens brancos.

Em 2016, Trump ganhou entre os homens brancos com uma margem de 31 pontos. Em 2020, no entanto, ele ganhou entre eles por 23 pontos. De outro modo, comparando 2016 com 2020, os homens brancos penderam 8 pontos na direção de Biden esse ano - ajudando a virar a eleição para os Democratas, mesmo com os ganhos significativos de Trump entre minorias e mulheres no país.

O que mudou na dinâmica racial e de gênero nesse ciclo para produzir esses resultados aparentemente extraordinários? A verdade é, absolutamente nada. Essas tendências estavam sendo construídas durante todo a vida pública de Trump.

Na realidade, as perdas Democratas entre a minoria é algo anterior à candidatura de Trump. Ao longo dos mandatos de Obama, os Democratas observaram atrito com eleitores negros e hispânicos em 2010, 2012 e 2014. Trump ganhou em 2016 justamente por causa dessa antiga erosão. Mesmo com um medíocre apoio entre brancos para o candidato Republicano, eleitores asiáticos, negros e hispânicos continuaram a fugir do partido Democrata - colocando estados decisivos na direção de Trump e dando a ele a vitória.

Ao contrário das narrativas atuais, o Partido Republicano viu um atrito contínuo com brancos ao longo do mandato de Trump. Quase todas as perdas que os Republicanos viram em 2018, por exemplo, foram por causa das deserções dos eleitores brancos. Em comparação com 2016, os Republicanos melhoraram brevemente seus números entre negros e hispânicos durante as primárias. No entanto, as margens entre brancos mudaram 10 pontos percentuais na direção contrária, ajudando a oposição de Trump a ganhar a Câmara.

No caminho para a eleição de 2020, a pesquisa continuou a contar a história que estava contando o tempo todo: Trump estava pronto para ver contínuas deserções dos brancos, enquanto os Democratas viam atritos com eleitores de cor. As tendências na pesquisa eram consistentes e claras.

A principal questão que os dados disponíveis não conseguiram responder antes da contagem das urnas era se as perdas de Trump com brancos eclipsariam seu crescimento entre as minorias (como aconteceu em 2018) - ou se as minorias ajudariam novamente Trump mesmo com sua relativa “doçura” com os brancos (como aconteceu em 2016). Agora sabemos.

Dados dos estados decisivos coletados pelo NYT - comparando dados eleitorais e demografias regionais - sugerem que ganhos com eleitores hispânicos e latinos ajudaram Trump a garantir a Flórida e o Texas mesmo com ganhos dos Democratas entre os brancos. Ganhos Republicanos entre afro-americanos fizeram o mesmo na Carolina do Norte. Na Georgia, 8 de 11 condados com as maiores porções de eleitores afro-americanos mudaram na direção de Trump também - embora esses ganhos terem sido ofuscados pelos ganhos de Biden em condados racialmente heterogêneos. No Arizona, Trump encolheu as margens de 2016 dos Democratas em regiões com uma maioria de hispânicos. Enquanto isso, mudanças entre eleitores brancos foram o que viraram Michigan para Biden.

Em outras palavras, o discurso sobre raça que prevalece parece ser totalmente errado. Mudanças entre minorias foram responsáveis pela força surpreendente de Trump nesse ciclo, enquanto mudanças entre os brancos são o que ajudaram Biden no final.

Infelizmente, as narrativas dominantes acerca do gênero são tão deficientes quanto as sobre raça.

Por exemplo, os homens não apoiaram Trump massivamente em 2016 - nem as mulheres se organizaram fortemente com Clinton. Ao invés, Hillary perdeu por causa do apoio anêmico entre as mulheres. Ela teve um dos menores números de voto feminino entre qualquer Democrata em décadas - e a participação eleitoral entre as mulheres estava baixa em comparação com os ciclos anteriores. Se a participação eleitoral feminina - ou a porção Democrata dos votos femininos - tivesse sido tão forte para Clinton quanto foi para Obama, Hillary teria ganhado.

Consequentemente, a questão do modo como as mulheres exercitaram sua autoridade em 2016 se torna um ponto extremamente importante. Na realidade, é objetivamente mais crítico do que como os homens votaram: as mulheres representavam uma porção maior do eleitorado do que os homens em 2016. De fato, elas são a maior parte do eleitorado a cada ciclo desde 1976.

Todavia, as narrativas sobre a eleição de 2016 têm focado majoritariamente nos homens, sexismo, patriarcado, etc. O modo como as mulheres votaram tem sido amplamente ignorado.

Quando discutida, a surpreendente fraqueza dos Democratas com as mulheres em 2016 é tipicamente atribuída à noção de as mulheres brancas terem priorizado seu compromisso com a supremacia branca acima do seu comprometimento com o feminismo. Ainda assim, não houve nada de especial sobre Trump conquistar uma maioria de mulheres brancas:

Voltando para 1972, os Democratas nunca tinham ganhado de imediato uma maioria de mulheres brancas, e somente alcançaram a pluralidade duas vezes. As mulheres brancas apoiaram em menor número Trump em 2016 do que os outros Republicanos em 1972, 1984, 1988, 2004 ou 2012 (mesmos padrões se aplicam para homens brancos).

Todavia, os votos de 2016 das mulheres brancas são frequentemente descritos como sendo motivados unicamente pelo racismo - mesmo com o fato de que as eleitoras estavam escolhendo duas candidaturas representadas 100% por pessoas brancas.

Dessa vez, inverter tais narrativas será mais difícil. Sim, mulheres brancas mudaram na direção de Trump, diferentemente de 2016. No entanto, mulheres negras e hispânicas balançaram para a mesma direção.

Resumindo, foram mudanças nas minorias que ajudaram Trump a ganhar em 2016. Essa movimentação entre minorias seguiu para 2020 - e mulheres ao redor país mudaram na direção do Partido Republicano também. Felizmente, deserções entre homens brancos superaram as preferencias dessa porção crescente de mulheres e minorias, trazendo a derrota política de Trump.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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