Pelo Mundo

Honduras, o Brasil amanhã

Golpe no país da América Central completou dez anos no último dia 28. Entrega do patrimônio e pobreza só aumentaram. Tal como aqui, depois de 2016

11/07/2019 17:50

Um dos episódios de convulsão social em Honduras (Dick Emanuelson/Telesurtv)

Créditos da foto: Um dos episódios de convulsão social em Honduras (Dick Emanuelson/Telesurtv)

 

As elites brasileiras deram o golpe em 2016 e ganharam as eleições em 2018 acusando as forças progressistas de quererem transformar o Brasil em uma Venezuela.

Fake news, disseminada pelos veículos de comunicação tradicionais e pelas correntes de whatsapp.

Uma série de fatos faz qualquer pessoa minimante informada entender que - nem para bem, nem para o mal - a situação brasileira esteve perto de se assemelhar à venezuelana.

O que os fatos estão a mostrar é que essas elites brasileiras, com a chegada ao poder pelo golpe e com a continuidade por meio do pleito do ano passado, estão transformando o Brasil em Honduras.

O país da América Central foi vítima de um golpe de Estado há exatamente dez anos – quando o presidente Manuel Zelaya foi deposto pela oligarquia econômica e política, em 28 de junho de 2009.

Lá, as forças conservadoras e privilegiadas se sentiam ameaçadas com políticas públicas básicas de melhoria nas condições de vida do povo. Nenhuma revolução, tampouco nenhuma onda comunista ou socialista ocorreu. Só algumas políticas de inclusão.

Como estava se dando no Brasil, em um período de um decênio – entre 2004 e 2014. Aqui, os governos de Lula e Dilma não proporcionaram nenhuma reviravolta, nenhuma reforma agrária para valer, nenhuma taxação de fortunas. Conseguiram tão somente implantar importantes medidas inclusivas, reconhecidas no mundo todo - que não acabaram com ricaços, apenas deram chances para os mais pobres.

Recentemente, a ex-candidata a presidência de Honduras em 2013, Xiomara Castro, esteve em Buenos Aires e foi entrevistada pelo jornal Página 12.

Na entrevista, a líder política (mulher do presidente deposto, Manuel Zelaya) é perguntada sobre como está Honduras dez anos depois do golpe.

Lendo Xiomara Castro, parece que ela está a falar do Brasil, tal a semelhança de realidades. Confira:

- Está se aprofundando um modelo neoliberal de privatização de todos os serviços públicos, dos recursos naturais e neste momento se pretende privatizar a educação e a saúde. A partir do golpe se estabeleceu uma ditadura, na qual não há direito de protestos, pela qual podem entrar em tua casa, te requisitar, te prender. Tu és culpado até que proves o contrário. O país e o povo estão totalmente indefesos.

É ou não é o Brasil com seu congelamento por 20 anos nos investimentos públicos em saúde e educação, na entrega do petróleo do pré-sal aos estrangeiros, na perseguição ideológica a quem pensa diferente de quem está no poder, na morte de lideranças como Marielle Franco, na ascensão das milícias?

Vale realmente ler a entrevista na íntegra, disponível neste link: https://www.pagina12.com.ar/199782-honduras-profundizo-el-modelo-neoliberal

Nas últimas semanas, a convulsão social em Honduras tem aumentado. Não à toa. Mais da metade da população de Honduras tem emprego precário; 60% do povo está abaixo da linha de pobreza.

Aqui no Brasil, os mais recentes indicadores mostram um caminho de empobrecimento há muito tempo não visto.

Depois de muito esforço e muita política pública de inclusão – bolsa família, microcrédito –, o país tinha saído, em 2014, do mapa mundial da fome (feito inédito e histórico).

Três anos depois, com o golpe e a crise política e econômica, a retirada de direitos trabalhistas e a destruição de políticas públicas, o problema voltou a fazer parte da realidade.

Há cinco anos, o Brasil registrava os menores índices de desemprego da história; taxa de 6,8%, ao final de 2014.

Depois da instabilidade política de 2015, que levou à derrubada do governo em 2016, e de todas as medidas tomadas pelos sucessores (inclusive pelo atual governo, de Jair Bolonaro e Cia.), o desemprego só cresce: está em 12,3%, sem contar os subutilizados (isto é, com trabalhos nas piores condições), em 25%.

E se essa reforma da Previdência que o governo de Bolsonaro e Cia., com ajuda do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, quer impor ao Brasil, daqui a uns anos a situação tende a ser ainda mais grave. Levar, inclusive, à convulsão social.


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