Pelo Mundo

Hugo Chávez adverte: o látego da contra-revolução se levantará contra o governo de Evo Morales

23/01/2006 00:00

Emir Sader

Citando Trotsky, para quem “ a revolução precisa do látego da contra-revolução”, o presidente venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção para o fato de que o processo boliviano não se verá livre dela. Lembrando aquela outra citação de que “se não consegue derrotar teu inimigo, une-te a ele”, Hugo Chávez, discursando ao receber o título de doutor honoris causa na Universidade de San Andrés, em La Paz, disse que tentaram também domesticá-lo. Porém, completou, “acontece que eu resultei, assim como Evo Morales, ‘indomesticável’”.

Dirigindo-se, aos estudantes e professores presentes - assim como ao povo boliviano, uma vez que o seu longo discurso de mais de duas horas foi transmitido pela TV estatal e pela TV universitária, ao vivo, - Chávez recordou a sua trajetória e todas as tentativas da contra-revolução venezuelana para derrotá-lo. Fez o discurso que o povo pediu ontem, na praça, mas que ele não pôde fazer, por estar gripado.

Hugo Chávez afirmou que “o império estadunidense é como um vampiro que sente que seus dias estão contados e sente-se desesperado”. “Este é o século do fim do império estadunidense, mesmo porque ou nós o destruímos ou ele nos destruirá a todos, ao próprio universo.”

“Acusam-me agora de andar metendo as mãos nos outros países. Mas eu pergunto: quem meteu e mete as mãos assassinas nos nossos países durante séculos, senão o imperialismo?”

“Agora me acusam de interferir no Peru de uma candidata que foi a Washington para congraçamento e para pedir um seguro. Antes poderia ser um seguro, agora é um anti-seguro. Vejam Lucio Gutierrez, que terminou como terminou. A senhora Lourdes Flores disse que, como já tenho um pé na Bolívia, quero ter um pé no Peru. O presidente do Peru disse que eu estaria tentando desestabilizar seu país, mesmo que eu tenha lido nos jornais que ele disse que agora a crise está terminada. Isto porque eu recebi em Caracas a Ollanta Humala, quando Evo Morales estava por lá. A canalha nos ataca, mas prefiro que me ataquem, porque aí de mim se um dia a canalha me elogiasse.”

Criticou a ultra-esquerda, os setores que querem que Evo resolva em poucos dias todos os problemas da Bolívia. Disse que Evo manifestou-lhe a preocupação de que o orçamento de educação para este ano é praticamente igual ao do ano passado. Que vai incrementá-lo um pouco com a diminuição dos seus salários, dos ministros e dos parlamentares. A Venezuela assinou acordos de apoio à educação, à saúde, à energia, ao desenvolvimento econômico. Entre esses acordos está a instalação de um escritório da PDVSA em La Paz. Reafirmou a oferta anterior de fornecimento de todo o diesel que a Bolívia precisar, em troca de alimentos.

“Nunca terei palavras para agradecer a Fidel, a Cuba e à revolução cubana.” Afirmou que a palavra “revolução” continua a ser insubstituível.
Homenageou Che e os que saíram dessa Universidade para lutar com ele. Manifestou sua vontade de ir a Higueras, para se nutrir mais ainda do espírito do Che. E citou palavras do revolucionário: “Em uma revolução, se é verdadeira, triunfa-se ou morre-se.”

Hugo Chávez disse que aceitou o convite para vir no dia 6 de agosto na instalação da Assembléia Constituinte. “É o poder constituinte do povo, mas isso abre um processo constituinte, como na Venezuela. Uma Assembléia Constituinte que não toque nas bases do Estado colonial de que Evo falava ontem, não seria Assembléia Constituinte. Como a nossa, que teve poderes plenipotenciários, espero que esta não se submeta a nenhum outro poder, pois deve recolher o poder originário do povo e, por isso, não pode estar subordinado a nenhum outro poder. Ontem, Álvaro Garcia não citou Gramsci, mas falou de Gramsci, naquela idéia de que a crise se dá quanto o que está morrendo luta para não morrer e o que está por nascer luta por nascer. É preciso construir um novo Estado, uma republica nova, uma democracia real, não a democracia falsa das elites, que são tiranias implantadas.”

Concluindo seu discurso, Hugo Chávez recordou que “Mariategui já dizia que o nosso socialismo deve ser um socialismo indo-americano.”



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