Pelo Mundo

Hugo Chávez descarta recuar, mídia

17/08/2004 00:00

Caracas – “Não há volta! Esse processo que vivemos na Venezuela irá se aprofundar! É uma revolução, uma mudança estrutural!”

De impecável terno azul, ar descansado e tom sóbrio, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, iniciou uma longa coletiva de imprensa no salão Ayacucho, palácio de Miraflores, na noite de segunda-feira (16). Ele sabe que o referendo o deixou mais forte que nunca. "Domingo não se ratificou Chávez, não se ratificou um governo. Ratificou-se um projeto, um conceito e um novo desenho econômico e social", afirma ele. Para onde aponta tal modelo? "Para uma alternativa ao neoliberalismo e a falsa noção de democracia liberal", diz Chávez, sem hesitar.

Por quase três horas, o líder venezuelano destacou a virada que representa o 15 de agosto. Venceu oito eleições, um golpe de Estado e uma paralisação petroleira em quase seis anos de mandato. Só foi derrotado em dois Estados no referendo. Enquanto a coletiva se desenvolve, milhares de populares concentram-se ao redor do palácio. Não há convocação formal. As pessoas cantam e dançam, soam buzinas, camelôs vendem souvenires do referendo. Uma espécie de carnaval temporão. A Venezuela vive nesses dias uma verdadeira ressaca democrática. O país ficou sem dormir entre o sábado à noite e a manhã de segunda-feira, praticamente um feriado em Caracas. Apenas no dia seguinte a vida começa a voltar ao normal.

Almoço frio
Nas televisões, a oposição continua denunciando a suposta fraude. Eleva o tom, repete argumentos, exige uma recontagem da totalidade dos mais de 8 milhões de votos válidos. Chávez não se abala. No salão, lembra-se de ter convidado a Coordenadoria Democrática para um almoço na segunda. “Sabem o que aconteceu?”, pergunta ele. “A comida esta lá, esfriando em cima da mesa. O fato de esfriar não é problema, qualquer microondas resolve”.

A platéia ri e ele faz uma pausa. Toma um gole de água e retoma o tom sério. "O problema é que resistem ao entendimento, ao diálogo..." E logo cita uma frase do ex-presidente Jimmy Carter, em entrevista coletiva horas antes. "O diretor do Centro Carter afirmou que mesmo os números deles coincidem com os resultados oficiais". Se o referendo venezuelano pudesse ser reduzido a poucos personagens centrais, o principal deles seria Chávez. Possivelmente o segundo seria Jimmy Carter, que sacramentou a soma final.

A insatisfação da oposição com o comportamento do líder norte-americano é evidente. Nos episódios anteriores, durante a coleta de assinaturas em dezembro e junho e nos dias anteriores, Carter era uma espécie de tábua de salvação para os argumentos oposicionistas. Os mais de cem outros observadores internacionais eram menosprezados pela imprensa e por líderes da Coordenação Democrática, como Timoteo Zambrano. Na segunda-feira, tudo mudou e Carter foi ignorado por quase todos.

"La pelota se fué"
Chávez brinca e faz o gesto de alguém que dá uma tacada numa bola de beisebol, o esporte nacional. "Rebatemos a bola. Fidel a viu passar de binóculo. Sabem onde ela foi cair? Nos jardins da Casa Branca". Gargalhadas gerais. Ele volta a ficar sério. "E os mercados? O preço do petróleo caiu e a Venezuela garante o abastecimento ao mundo". Afirma não querer o óleo a 50 dólares o barril, mas tampouco o combustível abaixo de dez dólares. E volta a falar da vitória: “Ela terá uma energia catalisadora. Entramos numa nova fase, em que o novo ainda não surgiu totalmente, e nem o velho se retirou de cena. Esse triunfo atuará como impulso para aprofundarmos as mudanças das instituições, o pagamento de nossa imensa dívida social com nosso povo”. Fustiga os meios de comunicação, que não se desviam da campanha agressiva que os caracteriza por aqui.

Além fronteiras
Chávez bem sabe que o impacto dos resultados de 15 de agosto ultrapassam de longe as fronteiras venezuelanas. Olhada inicialmente com desconfiança, mesmo entre a esquerda internacional, o país aparece agora como uma espécie de posto avançado para os que se batem contra a chamada globalização neoliberal. Não é à toa que nas últimas semanas centenas de ativistas de todo o mundo - dezenas do Brasil - aportaram nas terras de Bolívar. Fenômenos semelhantes aconteceram ao longo da história. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1938), milhares foram os esquerdistas de inúmeros países que acorreram ao país ibérico para alistar-se na luta contra as legiões franquistas.

O governo da Unidade Popular (1970-1973), no Chile, também funcionou como poderoso ímã, atraindo ativistas e refugiados de todo o continente latino-americano. A esquerda mundial, a intelectualidade e o mundo da cultura começam a voltar sua atenção para o país caribenho. Longe de ser modelo para alguma coisa, o processo venezuelano parece tirar as perspectivas de mudança social do pedestal das utopias inalcançáveis. Chávez sente isso e refere-se sempre as lutas políticos históricas em seus discursos. Mas segue pragmático, com os pés bem fincados no chão: “Estamos obrigados a trabalhar o dobro do que nos últimos 6 anos. Nossa jornada está longe de acabar...”


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