Pelo Mundo

Hugo Chávez diz que fica no poder até 2013

03/02/2004 00:00

Verena Glass

Créditos da foto: Verena Glass

Caracas - Mal acaba o jogo entre as seleções de beisebol do México e da Venezuela, às oito da noite de segunda-feira (2), e as portas do gabinete presidencial do Palácio de Miraflores se abrem. Descem assessores, seguranças e membros da guarda de honra. Atrás, logo cercado pela multidão que tomara desde o final da tarde os jardins da sede do governo, lá estava ele, de camisa esporte azul sobre camiseta e calças pretas. Lamentando a derrota por 4 a 3 da seleção local, logo Hugo Chávez Frias subiria ao pequeno palanque montado no local, desta vez para comemorar um feito: os 5 anos de sua posse na Presidência da República.

A situação geral do país mostra-se muito mais tranqüila para o governo do que o quadro de um ano atrás. A economia dá mostras de “uma recuperação sólida”, nas palavras do ministro do Planejamento, Jorge Giordani, e a previsão de crescimento para este ano, segundo The Economist, é de 4% do PIB (em 2003, a economia encolheu cerca de 9%).

Referendo revogatório
Mas é na seara política que Chávez ainda enfrenta problemas. O Conselho Nacional Eleitoral deve divulgar seu veredicto na próxima semana sobre a autenticidade das 3,4 milhões de assinaturas que a oposição alega ter coletado para convocar o referendo revogatório do mandato do ex-tenente-coronel. “Não conseguiram, e a fraude é muito evidente”, garante Rafael Vargas, ex-ministro da Casa Civil e espécie de curinga oficial para resolver questões emergenciais.

Foram justamente soluções emergenciais que, ao longo do ano passado, impediram que a estagnação econômica e uma fuga de US$ 7 bilhões do país se transformassem em fator decisivo de descontentamento popular, que poderiam ter inviabilizado o governo. Sabendo que os canais institucionais do Estado estavam obstruídos, Chávez criou uma rede de ações de impacto junto à população, nas áreas de saúde, educação e barateamento de produtos de primeira necessidade, para mostrar especialmente às camadas pobres que o governo não estava inerte. Só na primeira das áreas, cerca de 4.000 médicos cubanos atendem a população carente, de forma gratuita, em todaa Venezuela. Ao mesmo tempo, o governo procura recuperar as áreas sociais, por meio do incremento orçamentário de cada uma delas.

Chávez sente a voz das ruas. Entre motoristas de táxi, pequenos vendedores, atendentes de hotel, enfim, daqueles que um visitante pode tomar uma primeira impressão, o apoio ao governo parece ter crescido. “Não me importa que os médicos sejam cubanos ou venezuelanos”, diz Miguel Ruiz, um motorista de táxi de 54 anos, “o que importa é que eles tratem de doenças”. Sem querer, o taxista faz uma adaptação local de uma famosa frase de Mao Tsé-tung: “Não importa a cor dos gatos, importa é que eles cacem ratos”. O aparente pragmatismo popular revela o estreitamento de laços de apoio com um governante que, acreditam eles, escolheu claramente um lado para desenvolver sua gestão.

Perspectiva histórica
A festa nos jardins do Palácio foi uma das formas do presidente da República buscar capitalizar o que acredita serem vitórias. Em vez de fazer uma longa explanação sobre a atualidade, Chávez excepcionalmente deixou a política imediata de lado. Os jornais e televisões ainda insistem no cerco midiático contra ele, mas, ao que parece, de tão repetida, a campanha tornou-se estéril. É mais um dado da paisagem venezuelana, sem muito apelo prático.

A avenida Urdaneta, em frente, começou a receber gente desde as quatro da tarde. Nada comparado às concentrações de mais de um milhão de pessoas na avenida Bolívar, a mais larga da capital, realizadas por três vezes em 2003. Mas a transmissão foi ao vivo, pela TV estatal.

Numa fala curta para seus padrões – exatamente uma hora e 16 minutos – o mandatário resolveu colocar seu governo em perspectiva histórica. Relatou sucintamente as idas e vindas da história venezuelana ao longo do século 20, começando pela chegada de Cipriano Castro a Caracas, com seu exército dos llanos, em 1899. Contou como “aquele governo nacionalista foi derrubado camadas entreguistas”, em 1908. A partir daí, relatou as sortes e azares da economia petroleira e sua apropriação por parte das elites internacionais. “O asfalto das ruas de Nova York e Washington é o melhor do mudo, pois foi produzido com o petróleo que tiraram da Venezuela”. No fim, claro, seu governo, eleito em 1998, representaria um contraponto a tudo aquilo.

“Passarei a faixa presidencial”
Chávez é um artista. Fala do edifício da sede de governo, conta como foi construído, saúda a lua, cita Fidel Castro e Bolívar, fustiga os intentos norte-americanos de atrapalhar seu governo e dá mostras de saber que sua gestão foi pontuada de interferências que quase a inviabilizaram. “Meu mandato presidencial termina em 2006. Depois disso, vou passar a faixa presidencial”. Fala e faz uma breve pausa, com um sorriso irônico nos lábios. “Vou passar de um ombro para o outro, porque quero ser novamente candidato, para enfrentar essa elite entreguista. A multidão que se concentra nos pátios, nos morros do jardim e na avenida em frente delira. Como um ídolo popular, despede-se. Joga beijos, cumprimenta a todo o povo que o está assistindo – “inclusive aqueles que não concordam conosco, o que respeitamos” – e se despede na quente noite caraquenha.

Se seguirá tanto tempo como afirma, é uma incógnita. Mas sabe que a oposição, desarticulada e desgastada, pouco consegue fazer para prejudicá-lo. Cháves pode assim, por algum tempo ainda, voltar suas preocupações para a derrota de 4 a 3 para o beisebol mexicano.

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