Pelo Mundo

Ilusões do livre mercado: Qual o objetivo final dos EUA na China?

 

09/06/2021 12:53

(Reprodução/Financial Express/bit.ly/354M3sw)

Créditos da foto: (Reprodução/Financial Express/bit.ly/354M3sw)

 
Por que os EUA defendem a livre iniciativa enquanto fazem o possível para sufocá-la? A guerra econômica em curso entre EUA e China é um perfeito exemplo desta intrigante questão.

O legado de Milton Friedman, o fundador da moderna política econômica dos EUA, incorpora essa dicotomia: o uso, o mau uso e a manipulação do conceito de livre mercado.

Através da Escola de Economia de Chicago, cujos discípulos se mostraram os mais influentes na forma como os EUA tratam a política externa, especialmente em relação à América do Sul, Friedman insistentemente apregoava as virtudes da livre iniciativa, enfatizando uma suposta ligação entre liberdade e capitalismo, insistindo que os governos não deveriam micro gerenciar os mercados.

Mas teoria e prática são duas noções diferentes que raramente se encontram.

Os ‘Chicago Boys’ – economistas sul-americanos que em grande número foram educados pessoalmente por Friedman – foram despachados nas décadas de 1970 e 1980 para assessorar algumas das mais notórias ditaduras do continente sobre como administrar suas economias. Eles seletivamente defendiam economia de livre mercado que parecia servir apenas aos interesses dos EUA e, em menor escala, das classes dominantes de várias nações da América do Sul. O banho de sangue que se seguiu em grande parte do continente durante aqueles dias ainda pode ser sentido até hoje, do Chile à Argentina e em todos os cantos.

Friedman morreu em 2006, depois de receber homenagens de seu governo, além do de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha. Mas, sua decantada sabedoria continua a moldar a mente dos principais economistas dos EUA até hoje, permitindo assim que a não resolvida dicotomia persista: como podem os EUA ‘ficarem de fora’ do livre mercado ao mesmo tempo em que intervêm para controlar esse mesmo mercado onde quer que o resultado não atenda a seus interesses? Um perfeito exemplo é a atual guerra econômica entre EUA e a China.

Contrariamente ao senso comum, essa guerra não foi iniciada pelo governo Trump quando o presidente estadunidense impôs uma série de tarifas nas exportações chinesas para os EUA a partir de junho de 2018. Na verdade, ela existe por muito mais tempo. Mesmo a supostamente mais amigável administração Barack Obama se engajou nessa guerra. Podemos afirmar que o “Pivot to Asia” de 2012 de Obama foi uma renovada declaração de guerra.

Quando o governo Joe Biden anunciou um grande recomeço em sua política externa, Biden não viu necessidade de se engajar com a China através de canais diplomáticos amistosos. As hostilidades continuaram entre os dois países simplesmente porque esse “conflito” tem sido o status quo ante por décadas

Em abril último, um esforço bipartidário no Congresso dos EUA aumentou a pressão sobre Pequim ao vincular a situação dos direitos humanos no país com suas práticas econômicas, propondo direcionar centenas de bilhões de dólares da economia dos EUA para, essencialmente, micro gerenciar o “livre mercado” em favor dos EUA e desafiar a ascensão da China.

Em 25 de maio, o presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, Gregory Meeks, apresentou um projeto de lei de 470 páginas intitulado “Garantindo a Liderança Global Americana e Lei de Engajamento” (Eagle, na sigla em inglês). Essa lei “trata de várias questões, incluindo aumento de investimento para promover a manufatura dos EUA, o comércio, o trabalho com aliados e parceiros, reengajamento em organizações internacionais e reconhecimento do tratamento dispensado pela China à minoria muçulmana uigure como genocídio”, divulgou a Reuters.

O projeto foi aprovado nesta terça-feira no Senado e segue agora para a Câmara dos Representantes. Uma vez sancionada pelo presidente, a legislação servirá como base legal e política da guerra econômica de Biden com a China. Como nas administrações passadas, a de Biden é inspirada na mentalidade dos Chicago Boys, ou seja, livre mercado quando atenda aos interesses dos EUA e guerra econômica quando esse “livre mercado” se afasta deste objetivo final.

Um dos mais desconcertantes aspectos da guerra econômica EUA-China é que os dois países têm ambições econômicas similares. De certa forma, os chineses copiaram vários aspectos do modelo econômico americano de anos passados. A China é um país capitalista apesar de ser administrado por um “Partido Comunista”. A intervenção do partido na economia, apesar de usar justificação ideológica e discurso político peculiares, é semelhante ao gerenciamento que o governo dos EUA faz da sua economia, especialmente durante épocas de crise, como na recessão de 2008.

Esse ‘conflito’ não é motivado por uma ideologia ou por violações dos direitos humanos, mas pelo fato de que a economia chinesa continua decolando, aumentando sua participação na economia global. Com um crescimento de 18,3% no primeiro trimestre de 2021 – o maior aumento do PIB desde 1992 – o momento chinês está ofuscando o desempenho da economia dos EUA e de seus aliados europeus. Com o poder econômico vem a influência política, com a China agora esperando rearranjar alianças globais, não apenas na Ásia, África e América do Sul, mas também na Europa.

Segundo analistas dos meios tradicionais, como Stuart Anderson, num artigo para a Forbes em junho de 2020, a guerra econômica de Trump com a China fracassou. E teria sido, como concluiu Panos Mourdoukoutas na mesma Forbes, “pela falta de uma clara direção do que o lado americano quer da China”. Esta falta de clareza continua a “dar uma vantagem a Pequim”.

Os maus definidos objetivos dos EUA com a China continuam a marcar o novo governo. Mesmo que o custoso projeto do Congresso se transforme em lei, ele não ajudará a responder à questão básica: o que os EUA querem da China?

Ramzy Baroud é jornalista e editor de The Palestine Chronicle. Seu website é www.ramzybaroud.net

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Carlos Alberto Pavam

Conteúdo Relacionado